SECRETOS NIGHT CLUB - RUA GONZAGA BASTOS, 352 - VILA ISABEL

Dante
Dante
Seg Jul 20, 2026 11:44 am
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O Sucatão deslizava pelo negrume do asfalto, atravessando os pequenos fachos de luz que se lançavam das precárias lâmpadas dependuradas sobre os postes. Na cabine do carro, o som de Bryan Ferry inundava tudo em alto volume. Não havia pensamento, tristeza, alegria, nada. Só havia a música, e eu tentava nadar na corrente que ela gerava.

BRYAN FERRY

A vida é um sopro — li essa frase num livro de crônicas de Oscar Niemeyer. A vida é um sopro e, mesmo assim, as pessoas continuam mesquinhas, maliciosas, competitivas, narcisistas, egoístas, sem perceber que nada é maior do que a morte. E a morte não é uma data marcada, mas uma surpresa que não esperamos nem assimilamos. Por isso, eu vivo. E viver é para os ousados.

O sábado à noite já foi um momento sagrado para as minhas aventuras. Hoje, não mais. Não restou muito dos meus templos da perdição. A Help — em Copacabana — virou um museu que será corroído pela maresia e sepultou todas as minhas memórias noturnas à beira-mar. Os forrós da Zona Sul, onde seduzi tantas mulheres que me ofereciam prazer sem qualquer outro interesse, também estão extintos. Sobram os bordéis, poucos, pouquíssimos, que funcionam aos sábados.

Girei o volante e imbiquei na Rua Gonzaga Bastos, onde existiu um dos raros forrós da Zona Norte, em Vila Isabel, que frequentei. O porteiro chegou a me apelidar de Ted Lover. Eu chegava bem arrumado, perfumado, fazia-me de isca, mas a verdadeira isca era a mulher que se interessasse pelo meu porte pretensioso. E elas se interessavam. Não, naquele sábado eu não estava indo reviver a nostalgia dos tempos passados. Escolhi ir ao Secreto's, que, por uma melancólica coincidência, fica quase ao lado do forró que frequentei por tanto tempo.

Quando entrei na pista da boate, fui tomado por um desânimo. Não havia mulheres que agradassem ao meu gosto pessoal. Peguei uma cerveja, sentei-me em um canto discreto e tentei evitar a depressão enquanto observava o cenário, que pouco me inspirava. Não demorou para que uma menina com quem saí em uma das visitas que fiz à Secreto's se aproximasse. Seu nome é Amanda.

Amanda tem um rosto bonito, um sorriso avassalador. A garota é sedutora. Sua proximidade, por algum motivo misterioso, desperta em nós o tesão espontâneo e raro. Ficamos conversando um pouco, trocando alguns amassos, e decidi pedir uma alcova. Não tinha tanta certeza de que queria subir ao provador, mas também não quis perder a viagem.

Amanda beija com língua profunda, entrega-se, não teme o sexo nem o atrito dos corpos. Ela é uma boa escolha para uma noite de sábado em que o destino não quer trabalhar. Ficamos atracados durante toda a hora. Como detalhe, os quartos do Secreto's têm chuveiro, box e cama larga. Ejaculei enquanto a moça aplicava um boquete sobrenatural, já quase no fim do tempo regulamentar.

Quando um idoso alcança o orgasmo, não há muito mais a fazer além de tentar se erguer da cama, vestir a roupa e ir embora. Foi o que fiz.

Na paisagem erma e solitária da Gonzaga Bastos, o Sucatão me esperava sereno. O Sucatão nunca me conduz a um destino; sempre me leva a uma missão. Liguei o som no painel e deixei que a música tomasse tudo: os pensamentos, a melancolia, o luto pelas ausências. Acelerei. Não quero chegar a lugar algum; quero apenas viver...

DURAN DURAN

Meu nome? Me chamam de Dante. E essa é a minha marca.
Madruguinha, Arquiteto e Papai Noel curtiram esse relato.
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