A Lapa, meus caros, não é um bairro — é um vício. Uma doença venérea da alma. Um ventre obsceno onde a cidade se despe de suas máscaras e se entrega, sem pudor, às entranhas da própria decadência. E eu, homem de hábitos noturnos e pecados diurnos, sou seu filho bastardo e fiel.
Não se vai à Lapa por gosto. Vai-se por fraqueza. Por tara. Por essa necessidade desesperada de ver o mundo como ele realmente é: sujo, lírico e promíscuo. Lá, os homens se embriagam de si mesmos, e as mulheres dançam como quem pede perdão ou vingança — ou ambos.
Há na Lapa uma poesia de puteiro. Um romantismo de esquina mal iluminada. Cada poste, cada bar em ruína, cada travesti com cílios de Cleópatra decadente carrega mais verdade do que toda a Avenida Atlântica num domingo de sol. Os amantes se traem comovidos. Os bêbados choram como heróis trágicos. E os músicos tocam como se tivessem vindo do Inferno direto para uma roda de samba.
Sim, é ali que passo algumas noites. Entre o tilintar dos copos e o gemido da sanfona, descubro o que os salões iluminados jamais me mostraram: que a beleza é obscena, que a pureza é mentirosa, e que Deus — se existir — frequenta os becos da Lapa disfarçado de mendigo bêbado.
A Lapa é minha religião e meu bordel, minha penitência e meu milagre. E se um dia eu tiver que ser julgado por minhas escolhas, quero que meu advogado seja um velho sambista de voz rouca e alma sebosa. Porque só ele entenderá que, no fundo, toda a minha existência foi apenas isso: uma tentativa desesperada de ser digno da Lapa.