A FRANCESA DO TINDER

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Dante
Decano
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Registrado em: Dom Jul 05, 2026 1:05 pm

Mensagem por Dante »

Como sabem — ou talvez não saibam, e sinceramente não sei quem ainda se importa com esse tipo de coisa — meu nome é Dante. Um escritor idoso, o que, convenhamos, é um eufemismo para “um homem com opiniões irrelevantes que fala demais sobre livros que ninguém mais lê”. Moro num bairro da Zona Norte que sofre de uma grave crise de identidade geográfica e que é cortado por um rio que não se chama Sena, mas Maracanã. A bucólica Tijuca — essa Paris das padarias com ventilador de teto — insiste em achar que é parte da Zona Sul, como se o Leblon tivesse um primo pobre que mora com a avó.

Viver aqui já é razão suficiente para pagar análise três vezes por semana. Se você acorda ouvindo o pagode do vizinho às 8h da manhã de um domingo, e ainda pensa que é um privilégio cultural, você precisa de ajuda psiquiátrica.

Mas enfim, o motivo real dessa crônica tragicômica não é geográfico, e sim digital. Tinder. Sim, o Tinder. O aplicativo que transformou a arte do flerte em um cardápio de sushi humano: deslize para cá, deslize para lá... e de repente, pimba! Um match. Um milagre algorítmico. Uma conexão! Ou, no meu caso, uma armadilha cuidadosamente construída com filtros, Photoshop e um sotaque europeu saído direto de uma novela da Globo dos anos 80.

Ela se chamava Anya e dizia ser francesa morando há tempos no Brasil. Ou dizia se chamar. Na foto de perfil, parecia uma mistura de Monica Bellucci com uma moça que vende crepes artesanais em feiras de orgânicos. Tinha 37 anos — supostamente — mas com um rosto que nem os algoritmos de envelhecimento do FBI conseguiriam rastrear. Desconfiei, claro. Mas, veja bem, a essa altura da vida, um homem não recusa a atenção de uma mulher que usa palavras como “existencialismo” e “tantra” na mesma frase. Era um perigo delicioso. Como lactose depois dos 60.

Marcamos num café vegano, porque segundo ela, era “onde as almas se revelam”. Eu, que me revelo melhor com um pão de queijo e um pingado, fui mesmo assim. Cheguei dez minutos antes — como manda a etiqueta dos desesperados — e quando ela apareceu, eu soube de imediato: Anya era, na melhor das hipóteses, a tia da Anya. Cabelos loiros num tom que só pode ser conseguido em farmácias que vendem água oxigenada em galões. Sotaque europeu? Mais para sotaque de quem fez um curso online de francês e viu “Meia-Noite em Paris” cinco vezes em loop.

Mas ela falava. Falava! Como um manifesto feminista datilografado em papel de arroz. E eu? Eu estava hipnotizado. Não pela beleza — que era um conceito muito relativo naquele momento — mas pela audácia! A mulher teve a coragem de se passar por outra pessoa, fingir que era 20 anos mais jovem e ainda me julgar por eu ter escrito um conto erótico chamado “Aposentadoria Tardia e Tesão Matinal”.

Terminamos a noite discutindo Camus, menopausa e a diferença entre vinho orgânico e suco de uva fermentado por engano. Ela tentou me beijar. Eu dei um abraço fraterno, desses que padres dão em velhinhas da paróquia. E voltando para casa, entre o Uber e a digestão difícil do chá de hibisco, pensei: talvez o amor esteja mesmo nos detalhes... ou nos filtros do Instagram.

Na semana seguinte, ela me mandou uma mensagem. Algo como:

"Dante, adorei nossa troca filosófica. Você me lembrou um pouco o Roland Barthes… com um toque de Almodóvar."

Eu não sabia se era um elogio, uma ameaça ou um flerte peculiar. Mas meu ego, que andava mais desnutrido que gato de rua em agosto, achou aquilo poético. Topei um segundo encontro. Ela sugeriu um piquenique. Em pleno Aterro do Flamengo.

— “É um lugar que une natureza e caos urbano. Como nós, Dante.”

Aquilo me soou perigosamente parecido com um convite para morrer picado por formigas enquanto discutimos Heidegger, mas fui. O amor, ou a necessidade de algum tipo de afeto, nos leva a comportamentos imprudentes. Como comer tofu ao ar livre ou sair de casa num domingo.

Cheguei com frutas, ela trouxe um tapete persa. Não um desses de loja de departamento. Um verdadeiro tapete persa. Disse que comprou em Istambul, numa viagem mística que fez após divorciar-se de um escultor alemão “emocionalmente hermético”.

E foi ali, sentados sob o céu carioca, que ela fez uma revelação bombástica — do tipo que você só esperaria ouvir num documentário sueco com narração da Fernanda Montenegro.

— “Dante, preciso confessar algo... eu não sou europeia. Eu nasci em Belford Roxo e me chamo Marlene.”

Silêncio.

O mundo parou por um segundo. Pássaros congelaram no ar. Um ciclista caiu sozinho, como se tivesse captado a vibração da confissão.

— “Usei esse personagem porque... eu precisava acreditar que ainda podia ser amada. E convenhamos, homens como você não saem com mulheres de Belford Roxo.”

Ela me olhou com olhos úmidos — ou era a brisa? Não sei. O que sei é que por um instante, eu entendi. Todos nós fingimos alguma coisa. Eu finjo que ainda escrevo com relevância. Que minhas dores lombares são charme boêmio. Que meus sonhos com jovens são metáforas. Ela fingia ser europeia. No fundo, éramos dois velhos carentes em busca de algum tipo de sentido num mundo que virou um aplicativo de paquera com Wi-Fi instável.

— “Você me enganou,” eu disse. “Mas com estilo. E sinceridade tardia é melhor do que sinceridade nenhuma.”

Ela riu. Um riso franco, cheio de dentes e liberdade. Depois me serviu uma uva, como quem alimenta um animal em cativeiro. Talvez fosse amor. Talvez fosse só glicose.

Terminamos o dia dançando desengonçados ao som de um saxofonista perdido no aterro. Ninguém nos olhava. Ninguém se importa com idosos dançando num domingo. É a vantagem da invisibilidade.

No caminho de volta, ela segurou minha mão.

— “Você vai escrever sobre mim, Dante?”

— “Claro que não,” menti.


E cá estou, escrevendo.
Perdeu, mané...
Arquiteto, Madruguinha e Tenista curtiram essa mensagem.
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