CENTRAL DO BRASIL — RJ

A rua é o mundo...
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Dante
Decano
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CENTRAL DO BRASIL — RJ

Mensagem por Dante »

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Tinha que resolver uma pendenga burocrática por causa da minha condição de PCD. Um camarada, daqueles que se dizem amigos, me recomendou o Poupa Tempo da Central do Brasil. A Central do Brasil. Aquela mistura de terminal ferroviário e pós-apocalipse urbano, onde o tempo parou, mas o crime evoluiu.

Achei que fosse sacanagem. Um trote, sei lá, mas o sujeito estava sério, com aquela cara de quem já morreu por dentro e voltou só para pagar boletos. Então, fui.

Central do Brasil, um pedaço do Rio onde o GPS perde a fé e o Google Maps te deseja boa sorte. A parte engraçada — se é que tem graça — é que além de eu andar com uma surdez que já não ouve nem a sirene dos Bombeiros, ele ainda queria me ver saindo de lá também sem celular e com um trauma novo para empilhar nos antigos.

Sem alternativas melhores e com a urgência típica de quem descobre que a vida é uma fila interminável no guichê errado, aceitei a sugestão como quem assina um contrato com o Diabo… já ciente de que, mesmo que lesse as letras miúdas, não entenderia nada.

Fui sem agendar. Não sabia que precisava agendar. E nisso, confesso, houve uma certa pureza criminosa, uma inocência de mártir suburbano. A velhice, meus amigos, não nos transforma em anciãos sábios como nas novelas bíblicas — transforma-nos em crianças místicas, sonhadoras, patéticas.

Sonhamos com a NASA, com galáxias longínquas, mas acordamos numa repartição pública do Centro do Rio, onde o ar-condicionado é uma lenda contada por servidores públicos entre um cafezinho ralo e outro. Éramos para ser heróis, acabamos senhas.

E o mais trágico: nos achamos especiais. Como se o sistema, esse Minotauro de repartição, fosse abrir exceção porque estamos de meias de compressão, aparelho auditivo e colesterol em marcha fúnebre.

Fui salvo por uma alma caridosa — dessas figuras raríssimas, quase um milagre ambulante, que só aparecem quando o cometa Halley resolve passar por aqui. Uma mulher que, num gesto de piedade que faria tremer Madre Teresa, me encaixou sem agendamento, o que, convenhamos, é o equivalente funcional a abrir o Mar Vermelho numa repartição pública.

Talvez ela tenha temido que eu tivesse um AVC ali mesmo, entre o bebedouro quebrado e a plaquinha “sorria, você está sendo filmado”, que sempre me soa como uma ameaça velada.

Desvencilhei-me do meu problema e, mais milagrosamente ainda, do Poupa Tempo, com a promessa de que eu voltaria outro dia para finalmente receber o tal documento. Uma promessa!

E de fato, poupei tempo. Mas foi um tempo que me caiu no colo como um cadáver inconveniente. Tempo ocioso — essa aberração existencial que, dizem os antigos, é a oficina do Diabo. No meu caso, era o ateliê da curiosidade mal resolvida.

Decidi fazer uma ronda pela região. Aqueles quarteirões traiçoeiros e profanos do Centro do Rio, que me são familiares desde os anos 90, quando me envolvi com uma pernambucana de nome esotérico, olhos de maresia e endereço num cortiço que mais parecia cenário de uma peça de teatro comunista. Foi uma paixão. Com direito a juras eternas, pés frios e uma barata que sempre aparecia durante o sexo como um anjo caído, testemunha ocular da tragédia.

Embiquei minha silhueta obesa — essa tragicômica herança genética — em direção à Rua Barão de São Félix, uma via de triste memória, dessas que a gente visita mais nos pesadelos do que no trânsito real da vida. Aquela rua... aquela rua é um pecado de calçamento irregular. Tive calafrios. E não eram metafóricos.

Foi então que a vi. A inesperada escolhida. Em frente ao lendário Hotel Campos. Paty. A morena. Não era bonita — não, longe disso. O rosto lembrava uma escultura inacabada, feita às pressas por um estagiário de Michelangelo. Mas o corpo... ah, o corpo! Era um escândalo anatômico, uma afronta à castidade e ao casamento.

Hesitei. Como todos os tímidos hesitam antes de cair. Havia nela uma placa invisível, piscando em neon mental: PUTA. Era como se o próprio subconsciente me provocasse: "Vamos ver até onde vai a sua covardia."

Passei por ela uma vez, com a dignidade de um funcionário público em horário de almoço. Passei uma segunda vez, com o suor do pecado escorrendo pela testa. Voltei uma terceira vez, já em marcha fúnebre da minha própria compostura. E então, na quarta — como num roteiro de moralidade duvidosa — ela me parou.

“Tá perdido, senhor?”

O “senhor” me atravessou como uma faca com cabo de culpa. Aquilo não era uma pergunta. Era um diagnóstico. Como se ela tivesse detectado em mim um idoso desorientado prestes a perguntar onde fica a farmácia mais próxima. Faltou só oferecer um copo d’água e ligar para a minha neta que não existe. Me senti tão sexualmente invisível quanto um poste. Um poste com ferrugem, rabiscado, e em processo de tombamento histórico.

— Na verdade, estou interessado em conhecer você — ousei dizer, como quem salta de um penhasco com um guarda-chuva furado no lugar de paraquedas.

Foi nesse exato momento que o olhar da mulher se transformou. E que transformação! Era como se eu tivesse me revelado não um homem, mas um espectro. Um monstro. Um escândalo com calvície. Ela me olhou como quem vê um zumbi saído não de um seriado qualquer, mas de um necrotério suburbano, desses onde os mortos ainda cochicham fofocas indecentes.

Houve um silêncio. Um silêncio que durou séculos e condenações. A moça me fitava com olhos arregalados e mandíbula firme, como quem calcula se vale mais a pena fugir ou chamar o padre. Era o olhar de quem vê Belzebu pedindo um cafezinho com açúcar. E eu ali, libertino em tempo integral, confuso, suando pelos pecados que ainda nem tinha cometido.

A verdade é que tentei ser romântico — e fui obsceno. Quis ser cavalheiro — e virei assombração. E naquele instante glorioso e ridículo, percebi: toda tentativa de ternura é indecente quando feita por um homem velho com IMC acima de 30 e passado duvidoso.

No fim, nos entendemos. Como sempre acontece entre seres humanos movidos por paixões carnais e dívidas. Uma nota de cem — alvíssara do capitalismo, hóstia profana da ganância pagã — surgiu entre meus dedos trêmulos como um milagre laico. E, meus amigos, que ninguém se engane: nenhuma ideologia resiste ao estalar de uma cédula nova. O romantismo, que até então jazia morto e sepultado, renasceu como Lázaro em liquidação.

Firmamos o acordo: quarenta minutos de um amor relâmpago, desses que não deixam rastros nem recibo. E fomos. De mãos dadas. Sim, de mãos dadas — como dois adolescentes castos e tolos atravessando o Arco do Triunfo, só que sem o arco, sem o triunfo, e em plena poeira encardida da Central do Brasil.

Foi sublime. Sublime e vagabundo. E talvez tenha sido justamente isso que marcou mais: a beleza inegável de uma cena absolutamente indigna. Porque, no fundo, somos todos isso — libertinos com alma de Romeu, querendo ser amados mesmo quando estamos pagando por hora.

Deixei o lugar como quem abandona o palco depois do último ato. Embarquei no metrô carregando no corpo os pecados da carne e, na alma, uma pontinha miserável de poesia.

Sincronizei os aparelhos auditivos com o celular. E então... a música. Ah, a música! Começou a tocar como se fosse trilha sonora de um filme francês que ninguém entende, mas todos fingem ter gostado.

Deixei que a melodia me envolvesse. Fiz daquilo um momento eterno. Um instante ridículo e sublime para ser lembrado... antes que tudo se dissolva no Alzheimer universal que é a vida. Porque, no fundo, viver é isso: colecionar lembranças com prazo de validade e torcer para que, quando o esquecimento vier, ele seja gentil o bastante para deixar a melhor cena por último.

DURAN DURAN

CACHÊ: 1H = R$ 100,00
 

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Madruguinha
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Madruguinha
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Re: CENTRAL DO BRASIL — RJ

Mensagem por Madruguinha »

Seu melhor relato parece ser sempre o próximo.

A boa fé e a caridade de uma boa alma amortizando o desprezo encontrado em tantos outros contatos. Um tempo poupado, e com ele mais uma oportunidade para criar sua própria história. A timidez, essa coisa terrível que alguns insistem em chamar de virtude, nem ela é capaz de conter um libertino.
 

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Heart (1)
Dante
"Não há trabalho ruim, o ruim é ter que trabalhar."
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