Sempre fui um notívago. Mas não desses modernos que tiram selfie com a insônia. Não. A minha insônia é ancestral, como se Adão tivesse me legado esse fardo ao ser expulso do paraíso. Eu preciso mais da vertigem do que do êxtase. O gozo, para mim, é um subproduto da adrenalina — nunca do sexo.
Para completar, sou um sujeito pacato, desses que parecem ter aposentado o coração, mas o tédio... ah, o tédio me mata. O tédio me arranca a pele aos poucos, um sádico bêbado arrancando as asas de um morcego.
A noite já estava indecente quando desembarquei na Lapa. A Lapa. A Lapa é a grande prostituta da cidade — e, como toda prostituta, esconde uma santidade escandalosa. Meu inferno particular com um toque de neon. E mesmo odiando rotina, lá estava eu, mais uma vez, sentado no mesmo maldito canto do mesmo maldito bar: o Bacurau.
Pedi o de sempre. Uísque. Sempre ele. E depois outro. E outro. E aí, quando a visão começa a ficar bonita, não é porque o mundo melhorou — é o malte queimando a realidade até que ela vire poesia.
A essa altura, anestesiado, meio feliz, meio morto, paguei a conta. Saí para a rua, um cão sem dono. Sem direção. Como os caras que dormem no meio-fio e conversam com fantasmas. O frio cortava tudo: a carne, os ossos, o passado.
Na madrugada, nada precisa fazer sentido. E talvez por isso tudo faça um pouco. Você só está ali, respirando, tropeçando, existindo como um erro bem-acabado.
Há uma comunhão estranha na noite: o mendigo, o bêbado, a puta, o poeta — todo mundo irmanado na escuridão. Mesmo assim, mesmo nesse abraço de trevas, a solidão ainda te encontra, te aponta o dedo e ri da sua cara. E a gente vai, arrastando esse fardo de existir, como quem carrega um corpo que não pediu para nascer.
Fui andando sem rumo até cair na Gomes Freire, dobrando ali na esquina da Rua do Resende, onde a noite escorre mais espessa. É o tipo de lugar em que putas e travestis se misturam sem cerimônia, numa democracia pansexual onde o desejo é rei e cada um escolhe o que quer de acordo com o próprio apetite.
*****
Vi uma puta. Escolhi.
Era negra, magra, linda. Usava um conjunto de ginástica barato e um short tão curto que me tirou o fôlego. Tinha curvas que fariam tremer qualquer igreja próxima. Ela brilhava naquela calçada como um aviso de perigo — e mesmo assim, fui.
O tesão me bateu como um soco. Não pensei duas vezes. Eu estava a pé. Sem carro, sem desculpa. Só com vontade. Andei até ela e perguntei o nome.
— Gina. E o seu?
— Dante. Me chamo Dante.
— Aquele do Inferno? — ela riu e silenciou, como quem não se atreve a demonstrar mais cultura além da que já exibiu.
Fiz a entrevista padrão, o velho ritual que todo putanheiro conhece de cor — meia dúzia de perguntas só para fingir que existe alguma conversa antes da transação.
Gina respondeu tudo com uma franqueza quase militar. Não era só o sexo — era o ofício, o ganha-pão, o jogo. Estava ali para isso, inteira, afiada, com aquele olhar de quem já viu homens demais tentando parecer alguém especial.
Falava como quem entende de mercado. E eu era só mais um freguês pronto para deixar as últimas notas murchas da carteira no altar daquela bunda.
Perguntei onde ela queria me levar...
— Hotel Estadual — disse, como quem indica o purgatório mais próximo.
Claro. Sempre o Estadual.
Aquele lugar só não entrou na Divina Comédia porque o verdadeiro Dante teve o bom senso de morrer antes de conhecer. Se tivesse passado por ali, o inferno dele teria um quarto com ar-condicionado quebrado, lençol manchado e uma camisinha mofada na gaveta.
*****
Juntos, eu e Gina entramos na alcova.
Sim. Gina beija. E como beija. A língua dela parecia uma serpente treinada direto das aulas particulares de Satã. Não era só um beijo — era uma invasão, uma expedição arqueológica até o fundo do meu esôfago.
Beijar aquela mulher era como engolir pecado em estado líquido. E eu deixei. Com gosto.
Putas de pista não têm tempo para versos. Trabalham por produção, como operárias de uma linha de montagem. Sabem que cada minuto gasto com um sujeito como eu é dinheiro que poderia estar entrando com outro.
Então não me espantei quando Gina desceu como um míssil — boca faminta, prática, direto ao serviço. Chupava como quem tem hora marcada e aluguel vencido. Era eficiente. Fria. Uma profissional do esgotamento masculino.
E aqui, caro leitor, é onde o romance acaba.
Gozei. Rápido. Ridiculamente rápido.
Foi um desses gozos tristes que não merecem trilha sonora.
Paguei. Ela saiu antes mesmo que eu encontrasse a cueca.
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Gina
—
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Perdeu, mané...
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