Conheci a Dani no Tinder — o que, por si só, já é um capítulo à parte da minha decadência emocional. Veja bem, quando se chega à minha idade, a busca já não é apenas, digamos, mecânica. O sexo... bem, o sexo se transforma numa espécie de evento sobrenatural, como um eclipse que precisa ser previsto por uma cigana míope da Transilvânia.
A ereção, que um dia foi uma resposta automática como um espirro, hoje exige planejamento estratégico, intervenção divina e talvez uma oferenda ao Deus das causas perdidas. Então, não, não corro desesperadamente atrás de sexo. Busco algo mais sutil, mais essencial — aquela pequena explosão de adrenalina que me faz lembrar que ainda não estou, tecnicamente, morto.
Para não fugir da tradição, Dani se descreveu como uma mulher que "adora mimos". Sempre que ouço uma frase dessas, imediatamente me vejo ligando para o meu contador, suando frio, perguntando se é possível entrar num programa de proteção à testemunha. Porque, vamos ser honestos, falar em mimos, hoje em dia, é basicamente uma metáfora para "prepare-se para negociar com seu banco e talvez vender um rim no mercado paralelo".
Dani, prudentemente, insistiu em marcar o encontro num lugar público, alegando que precisava “me conhecer melhor” — o que, considerando as circunstâncias, me pareceu tão lógico quanto exigir exame de colesterol antes de comer um cheeseburger.
Perguntei, meio sem jeito, qual seria o valor do tal "agrado", e ela, com a naturalidade de quem comenta a previsão do tempo, disse: Quatrocentos reais. Juro que, por um instante, vi a minha alma empacotar as malas e partir do meu corpo. Depois de uma negociação que faria as conversas de paz entre Putin e Zelensky parecerem um chá da tarde entre velhinhas inglesas, conseguimos chegar a um acordo: Trezentos reais. Assinei, metaforicamente, o tratado da minha ruína financeira e aceitei.
Se tem uma lição que a velhice me ensinou — além de onde doem todas as articulações — é que nada de decente acontece depois da meia-noite. E, ainda assim, lá estava eu, na 'Dolce Vita', um lugar que, se fosse mais explícito, precisaria de um padre, dois psiquiatras e talvez um empreiteiro para reconstruir a dignidade perdida.
Nunca fui bom em baladas. A ideia de sair para um lugar cheio de luzes piscando e música ensurdecedora, onde os coquetéis custam o mesmo que uma prestação de hipoteca, sempre me pareceu algo entre o masoquismo e o suicídio financeiro.
Eu não bebia, não dançava, e não entendia metade da linguagem corporal que os jovens trocavam. Basicamente, eu era uma ilha grisalha em um oceano de feromônios eufóricos. Pedi um uísque só para não parecer totalmente deslocado, mas esqueci que, para mim, álcool agora funciona como cloro: mata tudo o que ainda estava vivo no meu organismo.
Ela apareceu por trás de uma coluna colorida: cabelo loiro platinado, batom vermelho como um sinal de “PARE”. Usava um vestido preto apertado, desses que desafiam leis da física e do bom senso.
— Você é o Dante? — ela me perguntou, sorrindo como quem acha charmoso ver um idoso tentando abrir uma conta no TikTok.
Confirmei com a minha simpatia constrangida, aquela que uso quando o caixa do supermercado me chama de "Senhor" com muita ênfase.
Conversamos — ou melhor, ela conversou e eu fiz sons afirmativos, tentando não parecer que os meus aparelhos auditivos estavam entrando em pane. Apresentou-se como a Dani do Tinder ou algo que começava com D. Não importa, à noite não existe Razão Social, só Nome Fantasia. Era difícil ouvir. Quando ela sugeriu irmos "a um lugar mais calmo", aceitei por puro instinto de sobrevivência sonora.
Pegamos um táxi. No caminho, ela mexia no celular sem parar, mandando áudios que começavam com "migaaaa" e terminavam em gargalhadas. Eu olhava pela janela e pensava: "é assim que desaparecem os idosos nas reportagens do Balanço Geral".
Chegamos a um prédio que parecia ter sido congelado em 1978. Subimos num elevador que ameaçou parar em cada suspiro. Quando entramos no apartamento, senti imediatamente que havia algo errado: era limpo. Muito limpo. Clinicamente limpo.
Havia uma maca dobrável no canto da sala. Um biombo azul-claro separava o espaço. No balcão da cozinha, frascos de álcool gel e caixas de luvas descartáveis.
— É aqui que você... mora? — perguntei, olhando ao redor, esperando que, a qualquer momento, um enfermeiro aparecesse para medir minha pressão.
Ela deu uma risada curta. "Isso aqui era um consultório e o rapaz ainda não tirou todos os materiais. O bom é que ajuda a criar... um clima."
— Clima de vacinação em massa? — perguntei, antes de me censurar mentalmente.
Ela não se ofendeu. Pegou duas cervejas de uma geladeira portátil e me jogou uma.
— Relaxa, vovô. Hoje a consulta é por minha conta — disse ela, como se estivesse me oferecendo um desconto numa liquidação de fraldas geriátricas. Era a primeira vez que me chamavam de “vovô”. Aceitei com a resignação típica de quem sabe que, na vida, a primeira vez é só o ensaio geral para a humilhação permanente.
Sentei-me em uma poltrona imensa que provavelmente tinha dupla função: servir de assento e, em emergências, de poltrona para hemodiálise.
Conversamos. E, para minha surpresa, ela era divertida. Realmente divertida. Tinha piadas boas sobre clientes desastrados, histórias bizarras envolvendo médicos de verdade que tentaram diagnosticá-la no meio de encontros.
Contei que era solteiro e sem filhos, que nunca me casei. Ela respondeu que isso fazia de mim "alguém que deveria ser interditado judicialmente". Gargalhamos alto torcendo para não incomodar os vizinhos.
De repente, no meio da noite, entre um gole e outro, ela tirou a roupa.
— Quer me experimentar?
Eu, num raro momento de coragem, disse que sim.
Ela arrancou a minha calça, montou em meu colo e em menos de cinco minutos ejaculei espermatozoides temerosos de serem usados em algum projeto de inseminação artificial clandestina.
— Aprendi essa posição no X-Vídeos — explicou — hoje em dia, só querem preliminares, eu quero sexo.
Respirei aliviado por ela não ter dito que aprendeu aquilo assistindo ao "Arquivo X".
Fiquei sem fôlego. Era meio patético, eu sei — um idoso num apartamento que parecia uma UTI, conversando com uma garota de programa — mas por algum motivo, também era estranhamente reconfortante.
Quando dei por mim, já era alta madrugada. Ela me ofereceu café instantâneo, eu aceitei.
— Foi divertido, vovô — ela disse, quando me despedi.
— Foi educativo — respondi.
Na rua, enquanto esperava o Uber, percebi que estava com um esparadrapo preso na minha blusa. Eu estava tão exausto que deixei ele ali mesmo, como se fosse uma medalha de honra ao mérito. Sincronizei meu aparelhos auditivos com o celular e deixei que a música fizesse a trilha sonora do fim de mais um episódio da minha ainda tumultuada existência.
MOBY
DOLCE VITA - AVENIDA ATLÂNTICA, 1424 - COPACABANA
- Dante
- Decano
- Decano
- Mensagens: 34
- Registrado em: Dom Jul 05, 2026 1:05 pm
Dani
👍 Positivo
Você não está autorizado a ver ou baixar esse anexo.
Perdeu, mané...
Quem está online
Usuários navegando neste fórum: Nenhum usuário registrado e 1 visitante