CENTRAL DO BRASIL — RJ

A rua é o mundo...
TÓPICO DA CENTRAL DO BRASIL
📍 Central do Brasil — Centro
Avatar do usuário
Dante
Decano
Decano
Estatísticas
Relatos: 28
Mensagens: 56
Registrado em: Dom Jul 05, 2026 1:05 pm
Meus Relatos

👍 Positivo
Daiane

Mensagem por Dante »

1.jpg

Sou um homem quieto, extremamente convencional, aprecio me vestir com alguma elegância quando necessário e não cultivo a mínima pretensão de querer me passar por original, pois só pensar nessa possibilidade já me remete à falta de originalidade. Eu me defino como um homem comum, no entanto, atraio muitas situações incomuns para a minha órbita.

Nesta longa jornada, atraí personagens inesperados para a minha biografia, conheci alguns cáftens alfabetizados que se mostravam curiosos em me conhecer devido a minha escrita. Na verdade, nunca foram somente os cafetões, volta e meia alguém cisma em querer me conhecer por conta da forma como escrevo. É um incômodo para mim, mas um bom agouro à língua portuguesa.

Como citei por diversas vezes em diferentes tópicos, passei anos comendo mulheres em bordéis cujos donos não me permitiam pagar nada, o sexo e o consumo ficavam como cortesia à minha presença. Admito que aproveitei as facilidades da época e ainda hoje tenho gratuidade em uma casa quando desejo.

Sim, sou um homem convencional, conservador em muitos aspectos, mas me surpreendo quando vejo que a safra de foristas atuais consegue ser mais conservadora do que eu. Quase não vejo quem frequente bordeis, quem pegue mulher de pista, quem se aventure em boates, quem se arrisque em aplicativos, nada... Pegam freelas e privês, privês e freelas, em um tedioso ciclo que não rompe a curva.

Diante dessa juventude conformada, me vejo quase como um revolucionário, pois o meu ciclo é rompido até quando não estou com disposição para me aventurar em surpresas inesperadas. Foi o que ocorreu há poucos dias, um caso que torna necessário que eu em me empenhe nesta narrativa. A adrenalina me excita mais do que a simples ideia mecânica do sexo.

Fico constrangido de contar acontecimentos como o que narrarei agora, em um cenário de estagnação, em que qualquer ponto fora da curva pode parecer inacreditável. Definitivamente, não posso ceder ao mofo do forista sem fé, aqueles que não creem no que não vivem. Só encontraram os novos mundos aqueles que ousaram atravessar os oceanos traiçoeiros.

Noite, eu conversava com um amigo, lamentava pela minha atual limitação de tempo, quando, de repente, chega uma mensagem pelo site Os Libertinos.

“Boa noite, Dante. Sou conhecido como Talento aqui na Central, sou seu fã, leio tudo o que escreve no seu blog e no fórum. Se possível quero te conhecer. Por gentileza, me chame no whatsapp: 21 9999XXXX.”

Que tipo de criatura se apresentaria como “Talento”, ainda mais com base na Central do Brasil? Hesitei em cadastrar o zap, mas a curiosidade de um velho escriba é irrefreável. Decidi contactar o sujeito.

“Boa noite, sou o Dante.”

“Cara, que satisfação. Sou fã de carteirinha. Tá por onde?”

“Obrigado pela consideração. Estou na Tijuca.”

“Ah! Na bucólica Tijuca kkk... Porra, vem para a Central, o uísque é por minha conta e vou te apresentar a umas amigas.”


Acredite, forista sem fé. Se não fosse a frase “apresentar a umas amigas”, eu jamais teria tirado o pijama e embarcado em um táxi para Central, mas a libido é um demônio que não aprecia recusas. Troquei de roupa, peguei um táxi e fui para a Central perto da meia-noite.

...............................

Talento pediu que eu o encontrasse em um boteco chamado Central Paradiso, próximo à esquina da Barão de São Félix. Pedi ao motorista que me deixasse em um posto que fica próximo ao local onde marcamos. Quem supõe que a Central é um lugar ermo e desabitado na madrugada, se engana. Há uma rodoviária, há camelôs, a Vans para a Baixada, há mulheres perdidas e o Bar Central Paradiso existe como mais uma dessas ilhas que aguardam náufragos.

Quando entrei no pé-sujo, uma figura jovem, ornada por pulseiras, cordão dourado, relógio cebolão e bigodinho bem aparado me abordou de imediato. O indivíduo assemelhava-se a um daqueles personagens cafajestes do Nelson Rodrigues.

— Tu é o Dante — afirma com tom mediúnico.

— Sim. Sou eu.

— Caraaaalho. Cara, faz tempo que queria falar contigo. Senta aí, vou pedir teu uísque.


E o uísque veio enquanto Talento me contava a história de sua vida. Paraibano, morador da Rua Senador Pompeu, completando uma penca de anos no Rio, me disse ser o “faz tudo” da área. Durante a explanação do Talento, não me furtei de observar o entorno, a frequência do Central Paradiso é heterogênea: velhos, velhas, coroas, travestis, putas e gente com cara de bandido. Todos ébrios.

Talento mostrou que possui network na região, o que em deixou mais tranquilo por estar ali naquele horário. Ele falou muito mais do que eu e nunca consigo evitar o pensamento de que ninguém quer conhecer o autor do Dante, querem o Dante, mas o Dante só existe no papel, o que gera o risco da decepção no campo da realidade.

— Espera aí que vou te apresentar uma princesa para você falar dela lá no fórum e no teu blog — Talento saltou com agilidade felina da cadeira e me deixou sozinho em terreno hostil.

Não demorou muito para que retornasse de mãos dadas com uma mulher que se materializava em uma imagem surreal. Uma menina branquinha, cerca de 25 anos, cabelos castanhos claros lisos e longuíssimos, alta, cinturinha fina, olhos esverdeados, um sorriso de espantar as trevas mais espessas do universo. Meus lábios chegaram a tremer diante da aparição inimaginável.

— Mestre Dante, essa aqui é a Daiane, direto de Nova Russas para os seus braços.

— Nova Russas? — perguntei.

— Nova Russas, no Ceará. Terra de mulher bonita.


A garota realmente impressionava pela aparência. Daiane sentou-se ao meu lado e Talento ficou na minha frente, era um cerco.

— Mestre, leva ela, escreve lá no site. Daiane tá precisando trabalhar, ganhar algum. Entende?

— Entendo, Talento. Só que o pessoal de fórum não costuma vir para esses lados. É difícil.

— Ah. Acaba vindo. Acaba vindo. Com o senhor escrevendo lá, acabam vindo.


Fiquei em silêncio, esperando que um dos dois me dissessem como seria o esquema.

— Leva ela pro motel, mestre. Paga um jantar porque ela não comeu ainda e dá o que o senhor puder como ajuda. Ela vai merecer, vai por mim.

Como eu poderia dizer não para um cara chamado Talento nas entranhas da Central do Brasil. Lembrei-me do Hotel Pompeu, na Rua Camerino, não muito longe dali. Perguntei a Daiane se topava ir, ela nem piscou ao aceitar.

— Vamos pegar um táxi ali no posto de GNV — sugeri.

— Que nada, mestre. Vai andando, é pertinho. Só seguir reto aqui. Vai que é tranquilo. Daiane é da área.


Lá fui eu, cruzando de cabo a rabo a noturna Barão de São Félix até a noturna e desabitada Camerino. Com o coração em abalos sísmicos e o cu na mão. Morte

(Continua... 😏)
Você não está autorizado a ver ou baixar esse anexo.
Quem não tem mérito, tem raiva...
Dante, Madruguinha, PRELUDIO e Digboy curtiram esse relato.
| |
Avatar do usuário
Dante
Decano
Decano
Estatísticas
Relatos: 28
Mensagens: 56
Registrado em: Dom Jul 05, 2026 1:05 pm
Meus Relatos

Re: CENTRAL DO BRASIL — RJ

👍 Positivo
Valdirene

Mensagem por Dante »

Estaciono o Sucatão na Av. Marechal Floriano, próximo àquele prédio do Exército, onde em frente está o Panteão de Caxias, dali em diante vou caminhando até a Central. Era alta madrugada, o grande Relógio acima da Estação marcava 1h:30 em seus ponteiros, a iluminação precária e o silêncio flutuante criam o clima de suspense. Andar por naqueles arredores é como circundar o Castelo de Drácula, é uma sensação que mistura receio com excitação. À medida que me aproximava da Estação da Central, o movimento aumentava, o ar ganhava mais vida.

As meninas ficam pulverizadas pela periferia da Estação. É possível vê-las, numa postura até que discreta, pelas calçadas, embaixo de marquises, perto de um posto de gasolina que há por ali e circulando pelas fronteiras da Rodoviária que existe atrás da linha dos trens. Também identifiquei alguns Travestis.

Fui andando e apreciando aquela Paisagem que me era pouco familiar. O aroma do churrasquinho faz o império do olfato, os camelôs iluminam o local com todo o tipo de bugigangas. Existe alegria na Central! Paro e observo tudo, tento reter na lembrança, estou embaixo de um ícone do Rio, o Relógio da Central, quase um arquétipo.

Nossos olhares se cruzaram nesse exato momento, Valdirene estava parada perto da saída lateral da estação. Prostitutas nunca usam Razão Social, quase sempre adotam o Nome de Fantasia. Percebi que era madura. Loira, magra, cerca de 1,60m, usava uma saia jeans surrada e uma camiseta rosa. O nosso flerte durou uns cinco minutos e eu resolvi me achegar.

Contou-me ser maranhense, mora no Morro da Providência, tem 45 anos e perdeu a conta de quanto tempo está na vida. Ela me olhava com face de espanto, parecia não compreender o que eu fazia na Central de madrugada. Seu olhar me fez entender que nem eu mesmo sabia o que estava fazendo ali... Porém, eu me sentia estranhamente integrado àquele universo, a bebida ainda circulava no meu sangue e minha loucura estava desamarrada.

Conversamos uns cinco minutos, foi quando um gesto tocante ocorreu, ela pegou na minha mão e disse que me tiraria dali, que era perigoso eu ficar parado naquela área, esperando por um assalto. Levou-me para uma barraquinha de Cachorro-Quente quase na esquina da Barão de São Félix, perguntou-me se eu estava com fome e eu respondi que nós dois iríamos comer. Ela aceitou e esboçou um olhar de ternura que me comoveu profundamente.

Enquanto lanchávamos, não nos falávamos, somente nos olhávamos e a comunicação fluiu como poucas vezes fui capaz de me fazer entender.

Novamente, ela segura minha mão e me conduz numa nova viagem em direção um Hotel próximo. O quarto me custou R$ 70,00 perguntei qual agrado ela desejaria receber, ela me pede apenas um mimo de R$ 80,00. Eu estava vindo de dois encontros quase consecutivos, não haveria energia para um terceiro. Mesmo assim, acompanhei-a ao quarto.

Que me chamem de Poeta! Que me rotulem de louco! Que me taxem como doente!... No entanto, deitado sobre lençóis rasgados e trancado entre aquelas paredes sujas, eu vivi um dos momentos mais doces da minha vida.

Expliquei à Valdirene que eu não desejava transar, queria apenas descansar um pouco em sua companhia. Ela me despiu lentamente, cheia de cuidados, recostou-se na cama e pediu que eu colocasse a cabeça em seu colo. Começou a me acariciar, fazer cafuné, alisava meu corpo, tocava meu sexo, beijava levemente minha boca e me olhava como se estivesse vendo algo de extremo valor.

Meu colega leitor, você é a única pessoa para quem eu posso tentar transmitir a beleza deste momento, mas não consigo encontrar as palavras e a forma que vão revelar esse acontecimento singular. De repente, quase 3h da manhã, eu estava num quarto paupérrimo, à beira da Central do Brasil, com uma prostituta envelhecida e descobria a luz do mais puro afeto, enxerguei a transparência de quem compreende as profundezas do amor.

Precisei me despedir, ela me deu um abraço e me pediu que não sumisse. Não sei quando irei voltar ou sequer se irei voltar. Talvez eu queira guardar esse instante da forma como o vi, da maneira como ocorreu pra mim.

Volto ao Sucatão, alguma coisa havia mudado em mim, ainda não sei explicar. Ligo o rádio e sigo a Marechal Floriano para retornar pela Presidente Vargas. Quando estou passando em frente ao Sambódromo, uma música da banda Barão Vermelho (O Poeta está vivo) transpira dos alto-falantes...

O POETA ESTÁ VIVO

Acredite, forista sem fé! A mágica ainda existe. Dancinha
Quem não tem mérito, tem raiva...
Madruguinha e Digboy curtiram esse relato.
| |
Avatar do usuário
Madruguinha
Indomável
Indomável
Estatísticas
Relatos: 5
Mensagens: 17
Registrado em: Sáb Jul 04, 2026 9:04 pm
Meus Relatos

Re: CENTRAL DO BRASIL — RJ

Mensagem por Madruguinha »

Seu melhor relato parece ser sempre o próximo.

A boa fé e a caridade de uma boa alma amortizando o desprezo encontrado em tantos outros contatos. Um tempo poupado, e com ele mais uma oportunidade para criar sua própria história. A timidez, essa coisa terrível que alguns insistem em chamar de virtude, nem ela é capaz de conter um libertino.
"Não há trabalho ruim, o ruim é ter que trabalhar."
Dante, Arquiteto e PRELUDIO curtiram esse relato.
| |
Avatar do usuário
Dante
Decano
Decano
Estatísticas
Relatos: 28
Mensagens: 56
Registrado em: Dom Jul 05, 2026 1:05 pm
Meus Relatos

CENTRAL DO BRASIL — RJ

👍 Positivo
Central do Brasil

Mensagem por Dante »

Imagem


Tinha que resolver uma pendenga burocrática por causa da minha condição de PCD. Um camarada, daqueles que se dizem amigos, me recomendou o Poupa Tempo da Central do Brasil. A Central do Brasil. Aquela mistura de terminal ferroviário e pós-apocalipse urbano, onde o tempo parou, mas o crime evoluiu.

Achei que fosse sacanagem. Um trote, sei lá, mas o sujeito estava sério, com aquela cara de quem já morreu por dentro e voltou só para pagar boletos. Então, fui.

Central do Brasil, um pedaço do Rio onde o GPS perde a fé e o Google Maps te deseja boa sorte. A parte engraçada — se é que tem graça — é que além de eu andar com uma surdez que já não ouve nem a sirene dos Bombeiros, ele ainda queria me ver saindo de lá também sem celular e com um trauma novo para empilhar nos antigos.

Sem alternativas melhores e com a urgência típica de quem descobre que a vida é uma fila interminável no guichê errado, aceitei a sugestão como quem assina um contrato com o Diabo… já ciente de que, mesmo que lesse as letras miúdas, não entenderia nada.

Fui sem agendar. Não sabia que precisava agendar. E nisso, confesso, houve uma certa pureza criminosa, uma inocência de mártir suburbano. A velhice, meus amigos, não nos transforma em anciãos sábios como nas novelas bíblicas — transforma-nos em crianças místicas, sonhadoras, patéticas.

Sonhamos com a NASA, com galáxias longínquas, mas acordamos numa repartição pública do Centro do Rio, onde o ar-condicionado é uma lenda contada por servidores públicos entre um cafezinho ralo e outro. Éramos para ser heróis, acabamos senhas.

E o mais trágico: nos achamos especiais. Como se o sistema, esse Minotauro de repartição, fosse abrir exceção porque estamos de meias de compressão, aparelho auditivo e colesterol em marcha fúnebre.

Fui salvo por uma alma caridosa — dessas figuras raríssimas, quase um milagre ambulante, que só aparecem quando o cometa Halley resolve passar por aqui. Uma mulher que, num gesto de piedade que faria tremer Madre Teresa, me encaixou sem agendamento, o que, convenhamos, é o equivalente funcional a abrir o Mar Vermelho numa repartição pública.

Talvez ela tenha temido que eu tivesse um AVC ali mesmo, entre o bebedouro quebrado e a plaquinha “sorria, você está sendo filmado”, que sempre me soa como uma ameaça velada.

Desvencilhei-me do meu problema e, mais milagrosamente ainda, do Poupa Tempo, com a promessa de que eu voltaria outro dia para finalmente receber o tal documento. Uma promessa!

E de fato, poupei tempo. Mas foi um tempo que me caiu no colo como um cadáver inconveniente. Tempo ocioso — essa aberração existencial que, dizem os antigos, é a oficina do Diabo. No meu caso, era o ateliê da curiosidade mal resolvida.

Decidi fazer uma ronda pela região. Aqueles quarteirões traiçoeiros e profanos do Centro do Rio, que me são familiares desde os anos 90, quando me envolvi com uma pernambucana de nome esotérico, olhos de maresia e endereço num cortiço que mais parecia cenário de uma peça de teatro comunista. Foi uma paixão. Com direito a juras eternas, pés frios e uma barata que sempre aparecia durante o sexo como um anjo caído, testemunha ocular da tragédia.

Embiquei minha silhueta obesa — essa tragicômica herança genética — em direção à Rua Barão de São Félix, uma via de triste memória, dessas que a gente visita mais nos pesadelos do que no trânsito real da vida. Aquela rua... aquela rua é um pecado de calçamento irregular. Tive calafrios. E não eram metafóricos.

Foi então que a vi. A inesperada escolhida. Em frente ao lendário Hotel Campos. Paty. A morena. Não era bonita — não, longe disso. O rosto lembrava uma escultura inacabada, feita às pressas por um estagiário de Michelangelo. Mas o corpo... ah, o corpo! Era um escândalo anatômico, uma afronta à castidade e ao casamento.

Hesitei. Como todos os tímidos hesitam antes de cair. Havia nela uma placa invisível, piscando em neon mental: PUTA. Era como se o próprio subconsciente me provocasse: "Vamos ver até onde vai a sua covardia."

Passei por ela uma vez, com a dignidade de um funcionário público em horário de almoço. Passei uma segunda vez, com o suor do pecado escorrendo pela testa. Voltei uma terceira vez, já em marcha fúnebre da minha própria compostura. E então, na quarta — como num roteiro de moralidade duvidosa — ela me parou.

“Tá perdido, senhor?”

O “senhor” me atravessou como uma faca com cabo de culpa. Aquilo não era uma pergunta. Era um diagnóstico. Como se ela tivesse detectado em mim um idoso desorientado prestes a perguntar onde fica a farmácia mais próxima. Faltou só oferecer um copo d’água e ligar para a minha neta que não existe. Me senti tão sexualmente invisível quanto um poste. Um poste com ferrugem, rabiscado, e em processo de tombamento histórico.

— Na verdade, estou interessado em conhecer você — ousei dizer, como quem salta de um penhasco com um guarda-chuva furado no lugar de paraquedas.

Foi nesse exato momento que o olhar da mulher se transformou. E que transformação! Era como se eu tivesse me revelado não um homem, mas um espectro. Um monstro. Um escândalo com calvície. Ela me olhou como quem vê um zumbi saído não de um seriado qualquer, mas de um necrotério suburbano, desses onde os mortos ainda cochicham fofocas indecentes.

Houve um silêncio. Um silêncio que durou séculos e condenações. A moça me fitava com olhos arregalados e mandíbula firme, como quem calcula se vale mais a pena fugir ou chamar o padre. Era o olhar de quem vê Belzebu pedindo um cafezinho com açúcar. E eu ali, libertino em tempo integral, confuso, suando pelos pecados que ainda nem tinha cometido.

A verdade é que tentei ser romântico — e fui obsceno. Quis ser cavalheiro — e virei assombração. E naquele instante glorioso e ridículo, percebi: toda tentativa de ternura é indecente quando feita por um homem velho com IMC acima de 30 e passado duvidoso.

No fim, nos entendemos. Como sempre acontece entre seres humanos movidos por paixões carnais e dívidas. Uma nota de cem — alvíssara do capitalismo, hóstia profana da ganância pagã — surgiu entre meus dedos trêmulos como um milagre laico. E, meus amigos, que ninguém se engane: nenhuma ideologia resiste ao estalar de uma cédula nova. O romantismo, que até então jazia morto e sepultado, renasceu como Lázaro em liquidação.

Firmamos o acordo: quarenta minutos de um amor relâmpago, desses que não deixam rastros nem recibo. E fomos. De mãos dadas. Sim, de mãos dadas — como dois adolescentes castos e tolos atravessando o Arco do Triunfo, só que sem o arco, sem o triunfo, e em plena poeira encardida da Central do Brasil.

Foi sublime. Sublime e vagabundo. E talvez tenha sido justamente isso que marcou mais: a beleza inegável de uma cena absolutamente indigna. Porque, no fundo, somos todos isso — libertinos com alma de Romeu, querendo ser amados mesmo quando estamos pagando por hora.

Deixei o lugar como quem abandona o palco depois do último ato. Embarquei no metrô carregando no corpo os pecados da carne e, na alma, uma pontinha miserável de poesia.

Sincronizei os aparelhos auditivos com o celular. E então... a música. Ah, a música! Começou a tocar como se fosse trilha sonora de um filme francês que ninguém entende, mas todos fingem ter gostado.

Deixei que a melodia me envolvesse. Fiz daquilo um momento eterno. Um instante ridículo e sublime para ser lembrado... antes que tudo se dissolva no Alzheimer universal que é a vida. Porque, no fundo, viver é isso: colecionar lembranças com prazo de validade e torcer para que, quando o esquecimento vier, ele seja gentil o bastante para deixar a melhor cena por último.

DURAN DURAN

CACHÊ: 1H = R$ 100,00
Editado pela última vez por Dante em Qui Jul 16, 2026 3:19 am, em um total de 1 vez.
Quem não tem mérito, tem raiva...
Madruguinha, Arquiteto e PRELUDIO curtiram esse relato.
| |
Responder
🐺 Relatos parecidos — Libertinos também leram

Quem está online

Usuários navegando neste fórum: Nenhum usuário registrado e 0 visitante