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Dante
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LUNA BELL

Mensagem por Dante »

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O elogio logo de cara foi como o efeito de uma chave mestra na fechadura emperrada da minha vaidade de velho escriba. Sorri. Que outro jeito eu teria? Até um sujeito gasto como eu é vulnerável a esse tipo de isca. Fiz o interrogatório de praxe e marquei para o mesmo dia. Sorte absurda: Chaveirinho tinha horário vago.
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Vejo colegas que tratam o sexo como se fosse cirurgia cardíaca. Lavagem de mãos até o cotovelo, duas escovas de dente, arsenal de sabonetes antibacterianos, e, se pudessem, chamariam a vigilância sanitária antes de gozar. Eu não: se eu passo Protex no meu combalido pênis, ele cai, e sobra só a fauna microscópica, sobrevivendo heroicamente. Contento-me em jogar uma água no corpo quando chego, e se tiver só sabão de coco, agradeço como quem ganhou um prêmio. Sou gaúcho de interior, me criaram sem sofisticação — somente higiene básica e fé.

Mas até admiro esses românticos da assepsia: chegam com rosas esterilizadas, bombons macrobióticos, pedem café vegano no motel. Uma cena meio clínica, meio poética. Parece bonito, se você não pensar muito.

AÇÃO

Pontual como um neurótico de manual, toquei a campainha no horário exato. A sala da moça ficava naquele velho conhecido Edifício Central, fincado como um dinossauro concreto no deserto humano do Largo da Carioca.

A catraca do elevador já estava liberada, passei sem resistência. Subi. A porta se abriu sem ninguém me esperar, o que sempre me dá a sensação de que estou entrando num palco vazio. Entrei e, num passe de mágica barata, surgiu Chaveirinho. Pequena, talvez menor do que a quantidade de sílabas do próprio apelido, mas simpática, atraente, corpo calibrado. A idade? Mistério. Sou péssimo nesse jogo de adivinhação e, de qualquer forma, nunca acerto.

A sala tinha várias cabines divididas por paredes que não chegavam ao teto. Resultado: meia-luz e um desfile de gemidos anônimos pairando pelo ar como fantasmas domésticos. A cabine de Chaveirinho, pelo menos, era espaçosa o bastante para que eu não me sentisse claustrofóbico.

Conversa boa, leve. Gosto disso, de não precisar carregar o peso morto de silêncios constrangidos. Hoje, nunca ponho a culpa nelas. O fracasso, quando vem, é meu. Sou como o forista desaparecido, Fazzo Casanova, cuja filosofia da “boca de lobo” me guia: avanço sempre no beijo, afobado, feroz, como se a boca fosse trincheira. O problema é que quase ninguém consegue domar minha bocarra. Chaveirinho, como o apelido denuncia, tinha boquinha de abertura tímida, um encaixe quase impossível. Mas, veja só, ela se esforçou. E eu — um velho idiota agradecido — achei isso comovente.

Depois do meu banho minimalista — água corrente, sem Protex, sem Pinho Sol e sem Diabo Verde para desentupir a uretra — me joguei na cama como um veterano que ainda acredita em milagres de juventude. Chaveirinho estava ali, aquela personagem já famosa nos relatos do fórum, agora em carne e osso, mais carne que osso, felizmente.

Pedi que se deitasse. Havia em mim uma solenidade tola, como se estivesse conduzindo um ritual secreto inventado na hora. Tirei do bolso o meu aparelhinho de eletrochoque, que mais parecia bugiganga de feira científica, e deixei nas mãos dela, como quem entrega o volante a um motorista mais confiante.

Ela testou. Sorriu. O quarto se encheu daquele silêncio elétrico que antecede um colapso. E então vieram os movimentos dela, pequenos, quase tímidos no começo, depois cada vez mais urgentes. Eu, ao lado, assistia como um espectador privilegiado daquilo que parecia tanto uma coreografia íntima quanto um experimento clandestino.

Não demorou para que Chaveirinho atingisse o orgasmo sagrado, contorcendo-se num êxtase que eu jamais conseguiria imitar. E, diante da cena, me senti menos um velho degenerado e mais um crítico de arte, aplaudindo mentalmente um espetáculo que não pedia bis.

PLOT POINT

O jogo virou. Chaveirinho avançou contra mim como uma leoa em cio — e eu, velho ridículo, virei cordeiro oferecido em sacrifício. Era a glória e a humilhação no mesmo movimento. Veio para cima de mim como leoa no cio. Chupou meus mamilos, abocanhou meu pau, deslizou a língua em um beijo grego e se ela foi além disso não poderei descrever, pois idosos precisam cultivar o mínimo de pudor e decência.

Ela me devorava em etapas: beijos tortos, lambidas rápidas, uma ousadia que só as meninas insolentes carregam no sangue. Senti-me personagem de uma peça em que a luxúria é tão inevitável quanto a queda do herói. E, como todo herói barato, aceitei o destino com uma docilidade vergonhosa.

Houve carícias que não convém narrar em ata pública, sob pena de destruir qualquer ilusão de decência que ainda me resta. Digamos apenas que minha carne, já cansada, foi tratada como se ainda tivesse vinte anos — e meu espírito, em contrapartida, implorava por absolvição.

No fundo, não era sexo. Era espetáculo, com direito a plateia invisível e aplausos imaginários. Eu, ator falido, contracenava com uma musa de fórum. E no meio da farsa, ri de mim mesmo: um velho decrépito tentando parecer protagonista quando, na verdade, sempre fui apenas coadjuvante da própria decadência. Gozei e admito que demorei uma relevante quantidade de minutos pare recuperar o fôlego.

EPÍLOGO

Fim do ato, nos despedimos e ganhei as ruas. Por algum motivo, o que restou do meu corpo depois da erosão dos anos ainda pedia mais. O coração batia como se tivesse lido mal as instruções do manual da terceira idade.

Caminhei pelo crepúsculo da Rua Uruguaiana, ladeado por camelôs, lojas fechando e um resto de dignidade que insistia em me acompanhar. Havia em mim um desespero silencioso: a fome nunca acaba, só muda de endereço.

De repente, lá estava o toldo discreto do Clube 119. Não sei se era promessa de redenção ou apenas mais um capítulo onde todo pecador insiste em pedir bis. Mas essa já é outra história...

Emparelhei meus aparelhos auditivos com o celular e deixei que as batidas da música me guiassem.


E-ROTIC
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Quem não tem mérito, tem raiva...
Dante, Arquiteto e Alicia Ferrari curtiram esse relato.
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