4X4 - R. BUENOS AIRES, 44 - CENTRO

A vida presta...
TÓPICO: 4X4
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Dante
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Milena

Mensagem por Dante »

Um camarada me ligou no fim da tarde, voz arrastada de quem já tinha brindado sozinho umas duas vezes. Convidou-me para encontrá-lo na boate 4x4, aquele antro escondido na Rua Buenos Aires onde os pecados têm nome, rosto e preço. Disse-me que a conta era por conta dele, um agradecimento por eu ter revisado seu livro — o tal que finalmente será lançado na FLIP, em Paraty. O tom era de festa, mas havia um ruído entre as palavras. Um tremor. Como se a comemoração escondesse um presságio.

Aceitei a proposta. Por gratidão, por curiosidade... ou por falta de coisa melhor para uma noite que seria chuvosa.

*************************************

A noite caiu sobre a cidade como um véu sujo, pesado de juras quebradas e cigarros pela metade. As lâmpadas da rua chiavam sob a garoa, e as luzes de neon piscavam feito batida cardíaca de condenado. Cheguei a 4x4 pouco depois das 20h. Eu estava na minha mesa, com um copo de uísque e meia dúzia de dívidas com o destino, quando ela entrou.

Pernas longas, olhos mais escuros que a minha ficha criminal, e um justíssimo vestido preto que parecia costurado com pecado. Ela caminhou até mim como quem tem o mundo nas mãos — e sabe usar. O nome dela? Não seria relevante. Chamá-la de perdição já bastava. Porém, se anunciou como Milena.

Ela sorriu com os olhos, mas era um sorriso que escondia uma faca na liga da meia. Sentou-se à minha frente e cruzou as pernas como quem dispara uma arma.

Minutos depois, o uísque tinha acabado, e o silêncio entre nós estava intenso demais para ser ignorado. Decidi pedir uma alcova. Andamos juntos como cúmplices de um crime que ainda não tinha acontecido. No quarto, a luz fraca da luminária fazia sombras dançarem nas paredes como testemunhas discretas.

Ela tirou a roupa com a lentidão de um cigarro queimando. Eu a beijei com a urgência de quem sabe que vai se arrepender depois. Ela tinha gosto de chuva e mentiras.

De repente, montou sobre mim como uma amazona do apocalipse, Milena se movia com uma cadência que parecia ensaiada no inferno. Seus quadris ditavam um ritmo ancestral, como se dançasse ao som de um jazz que só ela ouvia — um jazz feito de suor, luxúria e promessas que ninguém ia cumprir.

Cada gemido era uma sentença. Cada rebolada, um acerto de contas com os fantasmas que me visitavam nas madrugadas insones. Eu apertava seus quadris como quem tenta segurar o próprio destino escorregando pelos dedos. E ela, entregue, balançava-se como se o mundo estivesse acabando sob nossos pés.

Milena era um furacão: passava, devastava e partia sem olhar para trás.

Quando a ausência de palavras finalmente prevaleceu, não havia mais certezas. Apenas nossos corpos exaustos, o cheiro agridoce do prazer saciado e a certeza de que aquilo não era sexo — era algo mais perigoso. Algo que deixaria cicatriz.

Ela se enrolou numa toalha sem dizer palavra, como se a noite não tivesse acontecido. Saiu do quarto da mesma forma que entrou, dona de uma liberdade selvagem.

Deixei a boate após confirmar na recepção que meu camarada é que acertaria a despesa. Entrei em um táxi que estava parado em frente à saída. O motorista me olhava pelo retrovisor com a paciência exata de quem já viu muita coisa e não quer saber de mais nada. Ditei o rumo

— Chegamos, doutor — disse com voz de ressaca poucos minutos depois.

Paguei, desci e caminhei pela calçada molhada como quem retorna de um lugar que não deveria ter deixado. A Tijuca ainda dormia sob os escombros da madrugada — só os morcegos, os medigos e os bêbados pareciam de prontidão.

Subi os três andares do prédio pelas escadas e, ao entrar no apartamento, o silêncio me saudou como um velho cúmplice. Abri a janela e fiquei ali, olhando para o céu que ainda ameaçava chorar mais um pouco.

Liguei o som e deixei que a melodia tomasse conta da penumbra do quarto...

BB KING

No fundo, sabia que mulheres como Milena não aparecem por acaso. Elas surgem quando a alma está fraca e a carne mais fraca ainda. São tempestades com pernas longas e falsas esperanças nos lábios. E quando passam, não levam só o que temos — levam também o que fingíamos ter esquecido.

Sim, meu amigo deve ter pagado caro para me proporcionar aquele encontro. Mas certos pecados valem o preço.
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Re: 4X4 - R. BUENOS AIRES, 44 - CENTRO

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Sofia

Mensagem por Dante »

O maior truque já realizado pelo diabo foi convencer o mundo de que ele não existe.
—Charles Baudelaire



Fiquei estático, paralisado, eu não conseguia me mexer, mal respirava, foi como se tivessem inoculado um veneno que me enrijeceu. Fez-se o silêncio na velha cafeteria da entorpecida Avenida Marechal Floriano. Alta, a loira possuía uns olhos verdes que faiscavam, conseguiu suspender a respiração de todos os que estavam presentes no instante em que ela entrou.


Encaixada em um vestido preto, curto e justíssimo, exibia pernas torneadas e cobertas por uma leve penugem dourada, tem uns 25 anos de idade. Os longos cabelos platinados escorriam em cachos suaves pelas costas, quase até a fronteira com uma bunda em relevo firme e esférico indisfarçável pelo vestido, que com aquela protuberância ganhava ares indecorosos. A loira intimidava pela perfeição imoral que exibia.


O diabo existe e estava diante de mim na forma de mulher. Se aquela criatura dotada de beleza extrema estalasse os dedos, seria capaz de conduzir milhares de almas ao purgatório, inclusive a minha. A loira, no entanto, moveu os dedos somente para pegar a xícara cheia de capuccino.


Não me perguntem como e muito menos o porquê, mas pressenti a vibe, a suspeita foi inevitável, apostei que a loira fosse puta. Preparei-me para segui-la assim que deixasse a loja do Café Capital. Ela sorveu com calma o conteúdo da xícara, os olhos faiscantes mostravam-se distantes dali. Mantive-me na tocaia, aguardando e balançando a minha xícara, que naquela altura só guardava a nostalgia pelo café.


A loira terminou o ritual, levantou-se da cadeira, puxou a barra do vestido para baixo e caminhou em direção à avenida dos antigos sobrados. Fui atrás com o desejo e as fantasias de um perdigueiro cansado, mas pervertido.

........................

À medida que caminhava, a loira apressava os passos, andava cada vez mais rápido, como se estivesse atrasada para algum compromisso. Permaneci no encalço, arfando enquanto tentava acompanhar o ritmo daquelas pernas longas e fortes, estava decido a conhecer o destino daquele colosso de mulher.


Seguiu pela Rua Uruguaiana, entrou na Buenos Aires, diminuiu a rotação para observar as vitrines femininas prestes a arriar as portas. Prosseguiu. Enquanto deslizava pelas calçadas carcomidas do Centro, a loira arrastava olhares como as sereias arrastam os marujos que afogam no mar. A mulher é dessas divas magnéticas, cada olhar que esbarrava na sua passageira presença via nela as mais pecaminosas fantasias juvenis.


Após um bom estirão percorrido, ela entrou no único lugar capaz de me fazer interromper a perseguição, o bordel 4X4. Meu instinto estava certo, era uma puta. Que delirante esperança eu posso ter nutrido de que a loira épica entraria num trash de algum beco qualquer?


O céu pesado sobre a minha cabeça, a ameaça de chuva iminente... meu celular emparelha com o aparelho auditivo e Lenny Kravitz invade os meus tímpanos como se me provocasse: para de frescura, pega essa mulher, deixa de merda.


FLY AWAY


Ele me convenceu. Quando dei por mim, já estava subindo os degraus da casa para onde, em algum ponto do tempo, todos os libertinos convergiram e continuam convergindo. O resto se resume aos mais de quinhentos reais que gastei, ao meu mergulho no corpo vastíssimo de Sofia, ao orgasmo que me estremeceu como uma pequena morte no leito azulado pela iluminação da suíte. O resto foi o sonho de ter uma mulher belíssima que não é de ninguém porque escolheu ser de todos, foi olhar dentro dos satânicos olhos verdes e enxergar o imenso amor que ela nutre pelo dinheiro. O resto foram as ruas desoladas no abandono e a nova música que fez a trilha sonora da noite ao inundar os meus ouvidos surdos enquanto a penumbra se adensava.


IN THE SHADOWS


Lentamente, fui desaparecendo nas sombras noturnas para onde também convergem todos os libertinos.
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Valéria

Mensagem por Dante »

— Adoro homem barrigudinho.

Enquanto desenvolvia a apologia à minha inconstante obesidade, a menina dava uns tapinhas carinhosos no meu abdômen. Velhos são sentimentais, não nego que me comovi com o elogio da moça, quase a ponto de sentir os meus olhos marejarem de emoção. Em um mundo que enaltece a frivolidade das barrigas tanquinho, a minha pança se sentiu finalmente acolhida pela simulação do afeto. A mentira é um emplastro que anestesia as realidades devastadoras da vida.

Eu estava na 4X4, lugar pelo qual desenvolvi certo nível de aversão, tanto pelos preços quanto pela má vontade ostensiva que as mulheres demonstram quando entram no quarto, um contraste com o mel que elas nos derramam quando tentam nos capturar no salão da boate. Como justifico a minha presença em uma casa que afirmo não gostar e que nos cobra os olhos da cara? Explico a minha decisão com base na absoluta ausência de boas opções noturnas. Fora os trashes, a 4x4 é o único bordel que sobrevive às ruínas do Centro, talvez persista por ter sobrevivido à própria incineração que a acometeu há alguns anos. O fato é que eu estava lá, incrédulo por estar lá.

Não satisfeita em estapear a minha barriga, a mulher avançou para abraçá-la, o que me gerou algum constrangimento. Tratava a minha pança como um ser vivo autônomo, separado do meu conjunto físico. É possível, caso ela pudesse optar, que dispensasse a minha presença e subisse à alcova somente com a minha barriga ovalada, que por sua vez me pediria impudicamente para que eu a esperasse retornar da conjunção carnal.

Para mudar o foco, perguntei o nome da aficionada em buchos protuberantes.

— Valéria. E o seu?

— Dante. Meu nome é Dante.


Sentamo-nos em um canto discreto e empreendi a entrevista básica, sem pretensão de escalar as escadas até o quarto. Ocorreu que a Valéria foi aprovada com louvor nas respostas aos meus questionamentos, com uma única estranha ressalva, a menina continuamente desviava os olhos dos meus olhos para encarar o meu umbigo, que se exibia assanhado por uma fresta do roupão puído que me ofereceram no vestiário. Valéria não parecia ter somente uma preferência pelos barrigudos, a situação começava a se revelar como uma tara.

Barrigas não possuem glamour, mas a minha deve ter neurônios, pois pressenti a preocupação dela reverberando no estômago e no intestino. Literalmente, senti um frio na barriga quando a garota, mais uma vez, tentou abraçá-la enquanto estávamos sentados e conversando. Que psicopatia seria essa?

Desisti de pensar sobre o assunto. Afinal, foi na 4X4 que uma das messalinas me ofereceu um kit de Herbalife num passado não muito distante. Criaturas exóticas me perseguem.

GOL DE BARRIGA

Com Pikachu — o Breve — sentindo-se desprezado, decidi oferecer a minha barriga ao sacrifício. Não me perguntem o porquê, mas o fetiche da cortesã se mostrava tão intenso que terminou me excitando pela curiosidade científica de investigar o fenômeno com mais atenta profundidade. Pedi uma alcova.

Já no quarto, tomei um banho e desnudei-me. Valéria já me esperava nua na cama, um corpo interessante, curvilíneo e com relevos atraentes. Deitei-me, a menina saltou sobre o meu tronco e agarrou-me como a ferocidade de um bicho-preguiça, fiquei imobilizado. A mulher lambeu meus mamilos, desceu com a língua deslizando sobre a minha barriga e mergulhou no meu umbigo como se sorvesse um prato fundo de sopa. O nível da perversão dela por determinados itens do corpo alheio é assustador.

O tempo era curto e Pikachu não dava sinais de entusiasmo. Prestes a encerrar o encontro, Valéria voltou a lamber o meu umbigo enquanto me masturbava. Gozei de medo e nos despedimos.

A VIDA PULSA

Trajando roupas escuras — minha predileção — misturei-me às penumbras noturnas do desértico Centro da Cidade e resgatei o Sucatão num ponto remoto da Rua Buenos Aires. Retornei à bucólica Tijuca.

Passava das 22h quando estacionei o carro na Praça Xavier de Brito. Caminhando em direção ao meu chalé, cruzo com uma ninfeta despudoradamente comprimida em uma malha de Crossfit, passeava com um cachorro. O meu combalido pênis saltou pressionando a minha calça de dentro para fora. Até que o tempo me castre definitivamente, a vida pulsa e o libertino vive. :!:

CACHÊ: R$ 420,00
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