Ando indisposto para quase tudo, até para escrever. E escrever, às vezes, é como acender um fósforo molhado — exige esforço, teimosia e uma fé que você não sabe de onde vem. É o que faço agora.
Estava em Teresópolis, hora do almoço, depois de umas aulas avulsas que dei na cidade. Frio com sol — aquele tipo de clima que parece querer te enganar. Sem aviso, me bateu uma nostalgia bruta, como um soco nas costelas. Veio à tona a lembrança de uma ex-namorada que morava ali por perto. Talvez minha última chance — desperdiçada — de ser um homem domesticado e feliz.
Almocei, paguei a conta e saí perambulando pelo bairro da Várzea, feito cachorro sem dono, tentando lembrar onde ficava o prédio dela. Encontrei. E aí veio a avalanche: memórias do início dos anos 2000, poeira velha levantando-se. Eu, nas sextas-feiras, chegando do Rio; ela me esperando na rodoviária; a gente subindo juntos para o aconchegante apartamento. Tirei uma foto do lugar.
Ela era médica. Trabalhava aos sábados. Eu ficava largado no sofá, esperando o seu retorno. Ligava a TV e caía sempre numa série do SBT: The O.C. – Um estranho no paraíso. Outro dia, achei a série no Prime Vídeo. Quando a música de abertura tocou, senti aquele aperto idiota no peito. E viajei. Não para a Califórnia —, mas para um tempo que não volta...
THE OC
Nem sei por que começo este relato com uma introdução que parece desconexa. Talvez, não seja tão desconexa assim. Talvez, seja só o desdobramento inevitável de uma escolha que nunca tive coragem de fazer.
Todo libertino de alma carrega o vício de andar à beira do abismo, olhando para baixo, como quem espera cair, mas deixa que o tempo faça o serviço. Acho que sou desse tipo. Um libertino que não vive o amor — o sabota. Que não mata o sentimento, mas o deixa sangrar até secar.
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Quando voltei ao Rio, já tinha um encontro marcado no Tinder. Confesso: estou cada vez mais avesso a contratar garotas de programa que trabalham em salas comerciais — esses consultórios do sexo, onde tudo é cronometrado, limpo demais, burocrático demais.
Eu gosto do jogo. Do flerte. Da sedução — mesmo que seja uma encenação barata. Sem essa mentira bem contada, não existe adrenalina. Sem adrenalina, o tesão evapora. E aí, não sobra nada.
O encontro não seria de graça, claro. A menina queria um “presente”, mas jurava que não era prostituta. Dizia que era uma troca de favores — sem hora marcada para acabar, com direito a beber alguma coisa num bar antes. Uma puta disfarçada. Como tantas outras que se escondem nos aplicativos.
Não sei explicar os motivos que me fazem criar laços afetivos com determinados locais. Alguns deles, frequento há décadas. Outros, como o Boteco Bacurau, são mais recentes no meu catálogo. Deve ser algo cármico, vai saber... Perto das oito da noite e eu estava no Bacurau tomando o meu uísque, esperando Vanessa chegar. Seu nome no Tinder é Vanessa. Disse gostar da Lapa, que também ia ao bar que eu frequentava, aceitou a minha sugestão.
Sempre existe uma certa expectativa nesses encontros. Pelas fotos, Vanessa era uma potranca de primeira: bonita, sexy, com aquele ar de que sabe o que quer. Mandou uns vídeos que só confirmaram a impressão.
Não demorou para chegar. Desceu do táxi e veio andando na minha direção, ajeitando os longos cabelos negros. A minissaia moldava as pernas; botas até os joelhos; um casaco aberto num decote em “V” tão ousado que me fez prender o fôlego. Mulheraço. Daqueles que fazem a rua parecer pequena demais.
Não fez cerimônia. Aproximou-se e me deu um selinho. Gostei. Sentou-se e perguntou se podia pedir um dry martini — como se adivinhasse que eu também adoro dry martini. Bebeu no meu ritmo. Sempre achei que as mulheres mais devassas são as que bebem. Na terceira dose, enfiou a mão na minha virilha, sem pudor, ameaçando apertar meu combalido pênis. Aquilo me intimidou mais do que excitaria um homem embriagado.
Para não acabarmos detidos por atentado ao pudor, sugeri que fôssemos para um motel. Ela não hesitou. Chamei um táxi e a levei para o Love Time, na Glória — aquele tipo de lugar que já cheira a luxúria antes mesmo de você entrar.
No quarto, percebi que Vanessa estava mais alegre do que o normal — se é que me entendem. Entrou no banheiro, demorou, e quando voltou estava completamente nua, com um olhar de assassina da KGB. Sim, fiquei um pouco assustado.
A primeira tentativa de homicídio veio pela boca: engoliu meu pau como quem devora um churros. Lambeu, sugou, puxou até a garganta. Precisei me controlar. Pensei nas garças da Quinta da Boa Vista. No hipopótamo do zoológico. Nos peixes do AquaRio.
Então, ela veio por cima. Lembro-me dela tentando me colocar a camisinha, mas não sei se conseguiu. Quando tudo acabou, a camisinha estava no meu nariz. Espero ela que tenha conseguido.
Dei os 300 reais combinados como “presente”, chamei o Uber e ela se foi. Disse morar em Água Santa. Pedi mais um uísque no motel, liguei a TV e, no primeiro canal que apareceu, um bispo pregava a salvação. Inútil. A perdição era onde eu existia. E, no fundo do abismo, é onde ainda me vejo.
PONTO DE RUA: AV. MEM DE SÁ
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Vanessa
Quem não tem mérito, tem raiva...
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