Essa é uma história digna de Nelson Rodrigues.
A notícia não pegou Vanessa de surpresa. Afinal, era inevitável que acontecesse em algum momento. Parabenizou o médico pela aposentadoria, depois de mais de meio século de serviços prestados. Começara a se atender ainda mocinha com o Dr. Moreira, o mesmo ginecologista da mãe e da falecida avó, quando o doutor já passava dos 60. Agora ele teria o merecido descanso junto da família, sobretudo dos netos, por quem nutria verdadeira adoração, fato comprovado pelos muitos retratos juvenis espalhados por toda a sala.
O que nem a mãe e nem a saudosa avó de Vanessa poderiam sequer imaginar era o desejo louco que há muito tempo ela sentia pelo velhinho. Desde que despertara pro sexo, Vanessa sempre foi atraída por homens muito mais velhos, no sentido literal. Cabelos brancos eram um requisito primordial pra instigar sua libido e com o Dr. Moreira não era diferente, com um agravante: o fato dele conhecê-la intimamente, mesmo que num contexto bem diferente, o que não inibia os pensamentos sacanas que a assaltavam. Por conta disso, o tesão a dominava toda vez que ía ao consultório, a despeito dos desconfortáveis exames rotineiros.
Chegou a trocar de médico por um período pra tentar “driblar” o problema, mas não se adaptou e acabou voltando para “o seu doutor”, como o chamava com carinho. Ao marcar uma consulta, pedia sempre o último horário, quando até a secretária já tinha ido embora. Na sua fantasia, a ideia de estarem só os dois ali pressupunha algum tipo de contato íntimo, o que a deixava muito excitada, ainda que a situação fosse apenas e tão somente estritamente técnica. E frustrava-se todas as vezes, porque o doutor, discreto, jamais comentava a respeito do seu “estado” visível.
Indagava-se toda vez que estava na frente do "seu doutor", homem extremamente profissional, seríssimo, corretíssimo, se algum dia ele pensara nela não como mais uma de suas inúmeras pacientes e sim como mulher. E agora que o homem iria pendurar as chuteiras e ela se encontrava ali para uma última consulta, um milhão de coisas passavam-lhe pela cabeça. Pensou em fazer o que tinha vontade há tempos, se oferecer, arrancar suas roupas e implorar pra que ele a comesse ali mesmo na cadeira de atendimento, conhecendo a fundo o objeto da sua ciência durante quase 15 anos, porém, nada fez. Pensou na própria vergonha, no enorme constrangimento que causaria ao médico e a sua mãe, se soubesse da história e acabou reprimida novamente.
Terminada a consulta, levantou-se, vestiu-se, pegou o encaminhamento dos exames, abraçou o médico, desejou-lhe muitas felicidades e despediu-se. Antes de ir embora, pediu pra usar o banheiro. E lá, diante de um enorme espelho, levantou a saia, abaixou a calcinha, enfiou dois dedos em sua boceta lubrificada e tocou-se, findando num gozo forte, intenso, reprimido. Passou os dedos melados pelo vidro do espelho e deixou sua marca de mulher. Já que o "seu doutor" nunca marcaria o território dela, ela marcaria o dele, mesmo que simbolicamente.
Limpou-se, saiu do banheiro, bebeu um copo d'água e foi embora.
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