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VIA BRASIL - AV. BRASIL. 5278 - MARÉ

Enviado: Dom Ago 02, 2026 11:56 am
por Dante
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Embrenhei-me pela Avenida Brasil como quem adentra os domínios de Hades — ciente de que não haveria retorno. Os postes, sempre se esquivando de balas perdidas, projetavam sombras que mais pareciam advertências. E então, como uma aparição do inconsciente, eu vi: uma luz colorida tremulando ao longe.

Não era uma revelação, nem uma epifania cristã — era um letreiro meio agonizante, que dizia, com letras exibidas e indecentes: VIA BRASIL. Um bordel. Um santuário da carne, incrustrado no coração de um subúrbio onde o prazer tem cheiro, que nem sempre é dos melhores.

O nome me pareceu mais nítido do que o meu próprio passado. E Pikachu, meu falo ressuscitado, vibrava como uma antena parabólica sintonizada em pornografia. A dormência habitual havia desaparecido. Agora era clamor. Era súplica. Era um chamado ancestral: “Enterre-me em uma vagina. Antes que eu o enterre como indigente.”

Estacionei o carro em frente a uma loja de gás veicular, com três gatos sinistros, uma moto sem roda e uma garrafa quebrada que parecia me julgar. Respirei fundo. Olhei para o céu em busca de um sinal divino, mas tudo o que encontrei foi um avião passando longe — como que dizendo: “Você podia estar indo para Paris, mas escolheu isso.”

Confesso que temi, ao retornar, encontrar apenas o chassi do Sucatão pichado com um “perdeu, mané” — como uma lápide suburbana à minha ingenuidade. Aquilo não foi estacionar. Aquilo foi o abandono de vulnerável.

Entrei.

O interior do Via Brasil era tudo o que se espera de um prostíbulo honesto: sofá de courino gasto, espelho com manchas e um cheiro que misturava desinfetante e desespero recém-maquiado.

Acredite, Forista sem Fé — eu mal tive tempo de absorver o cenário, quiçá respirar o aroma deprimente de desinfetante genérico em oferta no Mundial, quando uma senhora, cuja silhueta desafiava as leis da gravidade e da arquitetura, surgiu diante de mim com a sutileza de um iceberg rumo ao Titanic, me encurralando como se eu fosse o último pão de alho da prateleira de uma padaria em fim de expediente.

— Sozinho, amor? — ela perguntou, com aqueles olhos esbugalhados que me encaravam como se eu fosse um bolo de chocolate recém-saído do forno, e ela estivesse há meses em uma dieta de pepinos e alface americana.

Pensei em responder que, com ela ali, a simples ideia de haver espaço para outra pessoa era uma ofensa à geometria. Mas me contive. Não por nobreza de espírito, longe disso — foi puro instinto de sobrevivência.

Com um gesto brusco, quase militar, ela me agarrou pelo braço e me arrastou até o bar como quem leva um prisioneiro de guerra para o interrogatório.

— Me paga uma cerveja, meu bem? — disse ela com a doçura de um rolo compressor.

Detesto ser chamado de “meu bem”. Especialmente por alguém que tem o porte físico de uma caminhoneira bielorrussa e a delicadeza emocional de uma célula radical treinada para sequestrar infiéis em troca de mísseis de longo alcance.

Paguei a cerveja como quem entrega uma mala cheia de notas de dólares a um sequestrador: com a esperança vã de que aquilo bastasse para me libertar. Que nada. Ela pegou o copo, deu um gole longo e ficou — como um aluguel atrasado ou uma dor lombar crônica.

Pensei: eu não escaparia. Qualquer tentativa de fuga poderia terminar comigo algemado num porão fétido, interrogado por essa mulher que, com aquele olhar vidrado e ombros de halterofilista soviético, parecia menos uma puta e mais uma veterana da KGB com sede de confissão.

— Qual o seu nome? — ela me perguntou, inclinando-se tanto que sua sombra eclipsou a luminária do bar.

— Dante. Meu nome é Dante.

— Que porra de nome é esse? — ela explodiu numa gargalhada tão selvagem que espalhou perdigotos com alcance balístico. A julgar pela trajetória, alguns devem ter chegado em Bangu e pedido asilo político.

— E o seu? — perguntei, tentando me esquivar da provocação.

— Fiona — respondeu ela, sem o menor traço de constrangimento.

Só podia ser sacanagem. E eu entenderia perfeitamente se você, afeiçoado Forista, decidisse abandonar esta história por completo neste ponto. Porque, veja bem: além de estar sendo coagido sexualmente por uma mulher que tinha a sutileza de um rinoceronte no cio, agora descubro que seu nome de guerra é Fiona. Isso mesmo — Fiona. A porra da namorada do Shrek.

Morro e não vejo tudo. Embora, no ritmo em que a noite avançava, eu suspeitasse que talvez ver tudo fosse justamente o meu castigo.

Não vislumbrando possibilidade de escapar daquela situação sem que a minha integridade física fosse ameaçada, sugeri que fôssemos para alcova por 40 minutos.

— Você acha mesmo que vai dar conta desse corpitcho em 40 minutos? — me intimidou Fiona com gestos rebolativos.

Paguei 1 hora.

No quarto, ela começou com um boquete surpreendentemente técnico, daqueles que quase te fazem esquecer que está prestes a morrer. Mas durou pouco. Num surto hormonal, digno de um touro em temporada de acasalamento, ela saltou sobre o meu corpo com a graça de um avião cargueiro tentando pousar numa pista de aeromodelismo.

Fiquei sem ar. Literalmente. Senti meus pulmões colapsarem, minha alma tentando escapar pela garganta, e só me restava a esperança patética — e cada vez mais remota — de que os Bombeiros da região invadissem o quarto e me libertassem daquele desabamento com CPF e nome de princesa ogra.

Gozei. Não sei se por puro desespero ou por um instinto romântico e primitivo de permanecer vivo. Talvez tenha sido uma reação biológica, um último suspiro da minha masculinidade tentando escapar da situação pela única saída disponível.

O fato é que gozei. E isso, de algum modo absurdo e místico, me salvou. Como se o orgasmo funcionasse como um botão de emergência do corpo humano: ejacular ou perecer. E eu, contra todas as estatísticas e leis da física, escolhi viver.

Saí da boate em estado de sublimação — uma espécie de êxtase pós-traumático, se é que isso existe. Eu estava vivo. E o Sucatão também. Dois sobreviventes. Dois veteranos de guerra que não sabem direito como saíram ilesos, mas tampouco ousam questionar.

Liguei o motor com a reverência de quem desperta um velho amigo de um coma. Enfiei um CD qualquer —, não sei — e deixei que a música nos embalasse rumo aos tortuosos caminhos da serra.

https://www.youtube.com/watch?v=zoAw0KSElf4]SHIVERS