Re: 4X4 - R. BUENOS AIRES, 44 - CENTRO
Enviado: Qua Ago 12, 2026 11:48 am
Um camarada me ligou no fim da tarde, voz arrastada de quem já tinha brindado sozinho umas duas vezes. Convidou-me para encontrá-lo na boate 4x4, aquele antro escondido na Rua Buenos Aires onde os pecados têm nome, rosto e preço. Disse-me que a conta era por conta dele, um agradecimento por eu ter revisado seu livro — o tal que finalmente será lançado na FLIP, em Paraty. O tom era de festa, mas havia um ruído entre as palavras. Um tremor. Como se a comemoração escondesse um presságio.
Aceitei a proposta. Por gratidão, por curiosidade... ou por falta de coisa melhor para uma noite que seria chuvosa.
*************************************
A noite caiu sobre a cidade como um véu sujo, pesado de juras quebradas e cigarros pela metade. As lâmpadas da rua chiavam sob a garoa, e as luzes de neon piscavam feito batida cardíaca de condenado. Cheguei a 4x4 pouco depois das 20h. Eu estava na minha mesa, com um copo de uísque e meia dúzia de dívidas com o destino, quando ela entrou.
Pernas longas, olhos mais escuros que a minha ficha criminal, e um justíssimo vestido preto que parecia costurado com pecado. Ela caminhou até mim como quem tem o mundo nas mãos — e sabe usar. O nome dela? Não seria relevante. Chamá-la de perdição já bastava. Porém, se anunciou como Milena.
Ela sorriu com os olhos, mas era um sorriso que escondia uma faca na liga da meia. Sentou-se à minha frente e cruzou as pernas como quem dispara uma arma.
Minutos depois, o uísque tinha acabado, e o silêncio entre nós estava intenso demais para ser ignorado. Decidi pedir uma alcova. Andamos juntos como cúmplices de um crime que ainda não tinha acontecido. No quarto, a luz fraca da luminária fazia sombras dançarem nas paredes como testemunhas discretas.
Ela tirou a roupa com a lentidão de um cigarro queimando. Eu a beijei com a urgência de quem sabe que vai se arrepender depois. Ela tinha gosto de chuva e mentiras.
De repente, montou sobre mim como uma amazona do apocalipse, Milena se movia com uma cadência que parecia ensaiada no inferno. Seus quadris ditavam um ritmo ancestral, como se dançasse ao som de um jazz que só ela ouvia — um jazz feito de suor, luxúria e promessas que ninguém ia cumprir.
Cada gemido era uma sentença. Cada rebolada, um acerto de contas com os fantasmas que me visitavam nas madrugadas insones. Eu apertava seus quadris como quem tenta segurar o próprio destino escorregando pelos dedos. E ela, entregue, balançava-se como se o mundo estivesse acabando sob nossos pés.
Milena era um furacão: passava, devastava e partia sem olhar para trás.
Quando a ausência de palavras finalmente prevaleceu, não havia mais certezas. Apenas nossos corpos exaustos, o cheiro agridoce do prazer saciado e a certeza de que aquilo não era sexo — era algo mais perigoso. Algo que deixaria cicatriz.
Ela se enrolou numa toalha sem dizer palavra, como se a noite não tivesse acontecido. Saiu do quarto da mesma forma que entrou, dona de uma liberdade selvagem.
Deixei a boate após confirmar na recepção que meu camarada é que acertaria a despesa. Entrei em um táxi que estava parado em frente à saída. O motorista me olhava pelo retrovisor com a paciência exata de quem já viu muita coisa e não quer saber de mais nada. Ditei o rumo
— Chegamos, doutor — disse com voz de ressaca poucos minutos depois.
Paguei, desci e caminhei pela calçada molhada como quem retorna de um lugar que não deveria ter deixado. A Tijuca ainda dormia sob os escombros da madrugada — só os morcegos, os medigos e os bêbados pareciam de prontidão.
Subi os três andares do prédio pelas escadas e, ao entrar no apartamento, o silêncio me saudou como um velho cúmplice. Abri a janela e fiquei ali, olhando para o céu que ainda ameaçava chorar mais um pouco.
Liguei o som e deixei que a melodia tomasse conta da penumbra do quarto...
BB KING
No fundo, sabia que mulheres como Milena não aparecem por acaso. Elas surgem quando a alma está fraca e a carne mais fraca ainda. São tempestades com pernas longas e falsas esperanças nos lábios. E quando passam, não levam só o que temos — levam também o que fingíamos ter esquecido.
Sim, meu amigo deve ter pagado caro para me proporcionar aquele encontro. Mas certos pecados valem o preço.
Aceitei a proposta. Por gratidão, por curiosidade... ou por falta de coisa melhor para uma noite que seria chuvosa.
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A noite caiu sobre a cidade como um véu sujo, pesado de juras quebradas e cigarros pela metade. As lâmpadas da rua chiavam sob a garoa, e as luzes de neon piscavam feito batida cardíaca de condenado. Cheguei a 4x4 pouco depois das 20h. Eu estava na minha mesa, com um copo de uísque e meia dúzia de dívidas com o destino, quando ela entrou.
Pernas longas, olhos mais escuros que a minha ficha criminal, e um justíssimo vestido preto que parecia costurado com pecado. Ela caminhou até mim como quem tem o mundo nas mãos — e sabe usar. O nome dela? Não seria relevante. Chamá-la de perdição já bastava. Porém, se anunciou como Milena.
Ela sorriu com os olhos, mas era um sorriso que escondia uma faca na liga da meia. Sentou-se à minha frente e cruzou as pernas como quem dispara uma arma.
Minutos depois, o uísque tinha acabado, e o silêncio entre nós estava intenso demais para ser ignorado. Decidi pedir uma alcova. Andamos juntos como cúmplices de um crime que ainda não tinha acontecido. No quarto, a luz fraca da luminária fazia sombras dançarem nas paredes como testemunhas discretas.
Ela tirou a roupa com a lentidão de um cigarro queimando. Eu a beijei com a urgência de quem sabe que vai se arrepender depois. Ela tinha gosto de chuva e mentiras.
De repente, montou sobre mim como uma amazona do apocalipse, Milena se movia com uma cadência que parecia ensaiada no inferno. Seus quadris ditavam um ritmo ancestral, como se dançasse ao som de um jazz que só ela ouvia — um jazz feito de suor, luxúria e promessas que ninguém ia cumprir.
Cada gemido era uma sentença. Cada rebolada, um acerto de contas com os fantasmas que me visitavam nas madrugadas insones. Eu apertava seus quadris como quem tenta segurar o próprio destino escorregando pelos dedos. E ela, entregue, balançava-se como se o mundo estivesse acabando sob nossos pés.
Milena era um furacão: passava, devastava e partia sem olhar para trás.
Quando a ausência de palavras finalmente prevaleceu, não havia mais certezas. Apenas nossos corpos exaustos, o cheiro agridoce do prazer saciado e a certeza de que aquilo não era sexo — era algo mais perigoso. Algo que deixaria cicatriz.
Ela se enrolou numa toalha sem dizer palavra, como se a noite não tivesse acontecido. Saiu do quarto da mesma forma que entrou, dona de uma liberdade selvagem.
Deixei a boate após confirmar na recepção que meu camarada é que acertaria a despesa. Entrei em um táxi que estava parado em frente à saída. O motorista me olhava pelo retrovisor com a paciência exata de quem já viu muita coisa e não quer saber de mais nada. Ditei o rumo
— Chegamos, doutor — disse com voz de ressaca poucos minutos depois.
Paguei, desci e caminhei pela calçada molhada como quem retorna de um lugar que não deveria ter deixado. A Tijuca ainda dormia sob os escombros da madrugada — só os morcegos, os medigos e os bêbados pareciam de prontidão.
Subi os três andares do prédio pelas escadas e, ao entrar no apartamento, o silêncio me saudou como um velho cúmplice. Abri a janela e fiquei ali, olhando para o céu que ainda ameaçava chorar mais um pouco.
Liguei o som e deixei que a melodia tomasse conta da penumbra do quarto...
BB KING
No fundo, sabia que mulheres como Milena não aparecem por acaso. Elas surgem quando a alma está fraca e a carne mais fraca ainda. São tempestades com pernas longas e falsas esperanças nos lábios. E quando passam, não levam só o que temos — levam também o que fingíamos ter esquecido.
Sim, meu amigo deve ter pagado caro para me proporcionar aquele encontro. Mas certos pecados valem o preço.