CLUBE 119 - RUA DA ALFÂNDEGA, 119 - CENTRO
Enviado: Sáb Set 12, 2026 8:50 am
Eu andava sem pressa sob aquelas lâmpadas brancas, penduradas como dentes maltratados nos postes do Largo da Carioca. A noite despencava rápido, como um funcionário público correndo para não perder o último ônibus — ou talvez como alguém que esqueceu de pagar a conta de luz e já espera o corte.
Tinha acabado de sair de um encontro com a moça de codinome “Chaveirinho”. Simpática, agradável, mas não foi suficiente para aplacar completamente os meus instintos vencidos. Minha libido, que anda aparecendo de forma esporádica como cometa perdido, resolveu dar as caras: veio feroz, esfomeada, desejando o imprevisível.
Enquanto isso, o mundo seguia na Rua da Uruguaiana: engravatados correndo atrás de ônibus, metrô, gente sonhando com o sofá, todos em linha reta, escravos do relógio. Eu não. Eu preferi arrastar o passo, como se a vida fosse uma vitrine barata e eu tivesse crédito para olhar, mas não comprar. Um cheiro de pastel, perfume, suor — tudo isso entrando no meu nariz como se fosse poesia maldita. “É preciso saber viver”, já dizia a música. Pois é, continuo em estágio probatório, mesmo sendo um idoso.
Dobrei na Alfândega e vi o toldo verde do Clube 119. Verde triste, desbotado, como quem fumou três décadas de cigarros sem filtro. A entrada era estreita, quase um convite para desistir. Mas aí veio o som da boate — um batimento cardíaco eletrônico ecoando das escadas, como se o prédio inteiro tivesse bebido antes de mim. Apoiei a bota no primeiro degrau, respirei fundo e pulei dentro do caos.
A pista fervia como dia de domingo em rodízio de carne. Eu, um homem grande demais para caber em mim mesmo, tentava me enfiar por entre aquela massa compacta de corpos suados e ansiosos. O ar era um sopro viciado, carregado de feromônios que quase me estrangulavam; não era uma boate, era uma câmara de gás — só que em vez de matar, excitava.
Cheguei ao bar como quem alcança a margem depois de quase se afogar. Pedi uma Ice, dessas que misturam o doce e o cortante como beijo de puta. O líquido desceu pela garganta como navalha caramelizada. Por alguns segundos, senti o alívio: escapei da engrenagem infernal. Mas bastava olhar em volta para lembrar: aquilo não era só uma festa, era a maquete do inferno suavizada pela alcunha de Inferninho — e o demônio, claro, cobrava entrada.
E então ela surgiu. No meio do salão, devorava a boca de um cliente como um Nosferatu de biquíni, chupando-lhe a vida pela jugular. O pobre-diabo estava entregue, olhos revirados, convulso como um santo em êxtase — mas não subiu aos céus. Ao contrário: pela postura desajeitada, a sentença estava escrita: o homem estava duro, não de tesão, mas de miséria — sem grana, entregue à vergonha pública como quem exibe as próprias tripas.
Natália o largou sem remorso, como quem desova um cadáver numa sarjeta qualquer. Ninguém aplaudiu, ninguém protestou: a boate seguia como se aquilo fosse trivial, espetáculo de toda noite.
Foi nesse momento que avancei. Segurei seu braço ainda quente da caça. Perguntei seu nome. Ela olhou de lado, quase rindo, e respondeu com a naturalidade de quem confessa um pecado venial: Natália.
Linda. Uma dessas joias raras que a vida fabrica no descuido, seja no asfalto imundo ou nos bordéis de quinta categoria. Fiz a entrevista de praxe, aquelas perguntas que não dizem nada. Nem precisei tocar no assunto do beijo — porque ela não beijava, ela sequestrava almas pela boca, abduzia como um demônio de batom barato.
Pediu uma Ice. Paguei, claro. Eu pagaria mais: casa, comida, roupa lavada. Mas ela riu da minha devoção súbita e disse a verdade nua e cínica: bastava pagar o programa.
Pedi uma alcova e subimos. Os degraus até o andar dos quartos exalavam o fedor barato da perdição, misturado ao desinfetante que nunca vencia a sujeira. Aqui começa o fim — ou melhor, aqui se conclui um relato que não terá direito a censura. O que virá não é romance. Não será poupado das cenas esquisitas, da pornografia banal, da tragédia doméstica que se encena atrás de cada porta fechada.
Natália me deixou no quarto e pediu um minuto, como se fosse a dona do tempo. Fiquei de pé, imóvel, porque se deitasse corria o risco de apagar. Essa é a covardia da velhice: tudo serve de pretexto para dormir, para sonhar, para fugir. O corpo implora descanso, mas não é piedade — é sentença. A cronologia humana é um carrasco impiedoso, e o mundo não tem paciência com sucatas que ainda respiram.
Então, a menina voltou. Trancou a porta e, sem aviso, começou a saltar. Braços e pernas abrindo e fechando, um polichinelo febril, como se estivesse possuída por algum ataque epilético. Não parava. Pulava como uma insana, e só de assistir já me roubava o ar, como se meu coração fosse um tambor velho prestes a rasgar.
Perguntei o motivo daquele espetáculo grotesco. Ela, ofegante mas sorrindo, disse que estava inquieta, cheia de energia acumulada — como se a luxúria tivesse virado ginástica.
Um idoso lúcido teria corrido porta afora, talvez agradecendo o milagre da fuga. Eu, claro, fiquei. Porque a ruína tem seu fascínio, e a burrice do desejo sempre vence a inteligência da idade.
Óbvio que não dei conta. Natália me arrancou o sêmen: primeiro com aqueles beijos de traqueia, covardes e assassinos, depois com um boquete celestial, desses que fariam até anjo perder as asas. Há mulheres que ressuscitam cadáveres; Natália me trouxe de volta à vida só para me matar outra vez — e sem piedade.
Saí do bordel como um sobrevivente dispensável e ganhei as ruas desertas do Centro do Rio. Bueiros cuspindo esgotos, ratos atravessando becos, mendigos encolhidos sob as marquises: o cenário perfeito da tragédia. O espelho sujo da decadência.
Minhas botas batiam no asfalto com a obstinação de um réquiem, me empurrando adiante, como se já soubessem o caminho.
Emparelhei os meus aparelhos auditivos com o celular (sim, sou surdo) e deixei que a música me consolasse.
Depeche Mode - Personal Jesus
Entrei num táxi, sem olhar para trás, e desapareci — mais um fantasma da madrugada carioca.Eu andava sem pressa sob aquelas lâmpadas brancas, penduradas como dentes maltratados nos postes do Largo da Carioca. A noite despencava rápido, como um funcionário público correndo para não perder o último ônibus — ou talvez como alguém que esqueceu de pagar a conta de luz e já espera o corte.
Tinha acabado de sair de um encontro com a moça de codinome “Chaveirinho”. Simpática, agradável, mas não foi suficiente para aplacar completamente os meus instintos vencidos. Minha libido, que anda aparecendo de forma esporádica como cometa perdido, resolveu dar as caras: veio feroz, esfomeada, desejando o imprevisível.
Enquanto isso, o mundo seguia na Rua da Uruguaiana: engravatados correndo atrás de ônibus, metrô, gente sonhando com o sofá, todos em linha reta, escravos do relógio. Eu não. Eu preferi arrastar o passo, como se a vida fosse uma vitrine barata e eu tivesse crédito para olhar, mas não comprar. Um cheiro de pastel, perfume, suor — tudo isso entrando no meu nariz como se fosse poesia maldita. “É preciso saber viver”, já dizia a música. Pois é, continuo em estágio probatório, mesmo sendo um idoso.
Dobrei na Alfândega e vi o toldo verde do Clube 119. Verde triste, desbotado, como quem fumou três décadas de cigarros sem filtro. A entrada era estreita, quase um convite para desistir. Mas aí veio o som da boate — um batimento cardíaco eletrônico ecoando das escadas, como se o prédio inteiro tivesse bebido antes de mim. Apoiei a bota no primeiro degrau, respirei fundo e pulei dentro do caos.
A pista fervia como dia de domingo em rodízio de carne. Eu, um homem grande demais para caber em mim mesmo, tentava me enfiar por entre aquela massa compacta de corpos suados e ansiosos. O ar era um sopro viciado, carregado de feromônios que quase me estrangulavam; não era uma boate, era uma câmara de gás — só que em vez de matar, excitava.
Cheguei ao bar como quem alcança a margem depois de quase se afogar. Pedi uma Ice, dessas que misturam o doce e o cortante como beijo de puta. O líquido desceu pela garganta como navalha caramelizada. Por alguns segundos, senti o alívio: escapei da engrenagem infernal. Mas bastava olhar em volta para lembrar: aquilo não era só uma festa, era a maquete do inferno suavizada pela alcunha de Inferninho — e o demônio, claro, cobrava entrada.
E então ela surgiu. No meio do salão, devorava a boca de um cliente como um Nosferatu de biquíni, chupando-lhe a vida pela jugular. O pobre-diabo estava entregue, olhos revirados, convulso como um santo em êxtase — mas não subiu aos céus. Ao contrário: pela postura desajeitada, a sentença estava escrita: o homem estava duro, não de tesão, mas de miséria — sem grana, entregue à vergonha pública como quem exibe as próprias tripas.
Natália o largou sem remorso, como quem desova um cadáver numa sarjeta qualquer. Ninguém aplaudiu, ninguém protestou: a boate seguia como se aquilo fosse trivial, espetáculo de toda noite.
Foi nesse momento que avancei. Segurei seu braço ainda quente da caça. Perguntei seu nome. Ela olhou de lado, quase rindo, e respondeu com a naturalidade de quem confessa um pecado venial: Natália.
Linda. Uma dessas joias raras que a vida fabrica no descuido, seja no asfalto imundo ou nos bordéis de quinta categoria. Fiz a entrevista de praxe, aquelas perguntas que não dizem nada. Nem precisei tocar no assunto do beijo — porque ela não beijava, ela sequestrava almas pela boca, abduzia como um demônio de batom barato.
Pediu uma Ice. Paguei, claro. Eu pagaria mais: casa, comida, roupa lavada. Mas ela riu da minha devoção súbita e disse a verdade nua e cínica: bastava pagar o programa.
Pedi uma alcova e subimos. Os degraus até o andar dos quartos exalavam o fedor barato da perdição, misturado ao desinfetante que nunca vencia a sujeira. Aqui começa o fim — ou melhor, aqui se conclui um relato que não terá direito a censura. O que virá não é romance. Não será poupado das cenas esquisitas, da pornografia banal, da tragédia doméstica que se encena atrás de cada porta fechada.
Natália me deixou no quarto e pediu um minuto, como se fosse a dona do tempo. Fiquei de pé, imóvel, porque se deitasse corria o risco de apagar. Essa é a covardia da velhice: tudo serve de pretexto para dormir, para sonhar, para fugir. O corpo implora descanso, mas não é piedade — é sentença. A cronologia humana é um carrasco impiedoso, e o mundo não tem paciência com sucatas que ainda respiram.
Então, a menina voltou. Trancou a porta e, sem aviso, começou a saltar. Braços e pernas abrindo e fechando, um polichinelo febril, como se estivesse possuída por algum ataque epilético. Não parava. Pulava como uma insana, e só de assistir já me roubava o ar, como se meu coração fosse um tambor velho prestes a rasgar.
Perguntei o motivo daquele espetáculo grotesco. Ela, ofegante mas sorrindo, disse que estava inquieta, cheia de energia acumulada — como se a luxúria tivesse virado ginástica.
Um idoso lúcido teria corrido porta afora, talvez agradecendo o milagre da fuga. Eu, claro, fiquei. Porque a ruína tem seu fascínio, e a burrice do desejo sempre vence a inteligência da idade.
Óbvio que não dei conta. Natália me arrancou o sêmen: primeiro com aqueles beijos de traqueia, covardes e assassinos, depois com um boquete celestial, desses que fariam até anjo perder as asas. Há mulheres que ressuscitam cadáveres; Natália me trouxe de volta à vida só para me matar outra vez — e sem piedade.
Saí do bordel como um sobrevivente dispensável e ganhei as ruas desertas do Centro do Rio. Bueiros cuspindo esgotos, ratos atravessando becos, mendigos encolhidos sob as marquises: o cenário perfeito da tragédia. O espelho sujo da decadência.
Minhas botas batiam no asfalto com a obstinação de um réquiem, me empurrando adiante, como se já soubessem o caminho.
Emparelhei os meus aparelhos auditivos com o celular (sim, sou surdo) e deixei que a música me consolasse.
Depeche Mode - Personal Jesus
Entrei num táxi, sem olhar para trás, e desapareci — mais um fantasma da madrugada carioca.
Tinha acabado de sair de um encontro com a moça de codinome “Chaveirinho”. Simpática, agradável, mas não foi suficiente para aplacar completamente os meus instintos vencidos. Minha libido, que anda aparecendo de forma esporádica como cometa perdido, resolveu dar as caras: veio feroz, esfomeada, desejando o imprevisível.
Enquanto isso, o mundo seguia na Rua da Uruguaiana: engravatados correndo atrás de ônibus, metrô, gente sonhando com o sofá, todos em linha reta, escravos do relógio. Eu não. Eu preferi arrastar o passo, como se a vida fosse uma vitrine barata e eu tivesse crédito para olhar, mas não comprar. Um cheiro de pastel, perfume, suor — tudo isso entrando no meu nariz como se fosse poesia maldita. “É preciso saber viver”, já dizia a música. Pois é, continuo em estágio probatório, mesmo sendo um idoso.
Dobrei na Alfândega e vi o toldo verde do Clube 119. Verde triste, desbotado, como quem fumou três décadas de cigarros sem filtro. A entrada era estreita, quase um convite para desistir. Mas aí veio o som da boate — um batimento cardíaco eletrônico ecoando das escadas, como se o prédio inteiro tivesse bebido antes de mim. Apoiei a bota no primeiro degrau, respirei fundo e pulei dentro do caos.
A pista fervia como dia de domingo em rodízio de carne. Eu, um homem grande demais para caber em mim mesmo, tentava me enfiar por entre aquela massa compacta de corpos suados e ansiosos. O ar era um sopro viciado, carregado de feromônios que quase me estrangulavam; não era uma boate, era uma câmara de gás — só que em vez de matar, excitava.
Cheguei ao bar como quem alcança a margem depois de quase se afogar. Pedi uma Ice, dessas que misturam o doce e o cortante como beijo de puta. O líquido desceu pela garganta como navalha caramelizada. Por alguns segundos, senti o alívio: escapei da engrenagem infernal. Mas bastava olhar em volta para lembrar: aquilo não era só uma festa, era a maquete do inferno suavizada pela alcunha de Inferninho — e o demônio, claro, cobrava entrada.
E então ela surgiu. No meio do salão, devorava a boca de um cliente como um Nosferatu de biquíni, chupando-lhe a vida pela jugular. O pobre-diabo estava entregue, olhos revirados, convulso como um santo em êxtase — mas não subiu aos céus. Ao contrário: pela postura desajeitada, a sentença estava escrita: o homem estava duro, não de tesão, mas de miséria — sem grana, entregue à vergonha pública como quem exibe as próprias tripas.
Natália o largou sem remorso, como quem desova um cadáver numa sarjeta qualquer. Ninguém aplaudiu, ninguém protestou: a boate seguia como se aquilo fosse trivial, espetáculo de toda noite.
Foi nesse momento que avancei. Segurei seu braço ainda quente da caça. Perguntei seu nome. Ela olhou de lado, quase rindo, e respondeu com a naturalidade de quem confessa um pecado venial: Natália.
Linda. Uma dessas joias raras que a vida fabrica no descuido, seja no asfalto imundo ou nos bordéis de quinta categoria. Fiz a entrevista de praxe, aquelas perguntas que não dizem nada. Nem precisei tocar no assunto do beijo — porque ela não beijava, ela sequestrava almas pela boca, abduzia como um demônio de batom barato.
Pediu uma Ice. Paguei, claro. Eu pagaria mais: casa, comida, roupa lavada. Mas ela riu da minha devoção súbita e disse a verdade nua e cínica: bastava pagar o programa.
Pedi uma alcova e subimos. Os degraus até o andar dos quartos exalavam o fedor barato da perdição, misturado ao desinfetante que nunca vencia a sujeira. Aqui começa o fim — ou melhor, aqui se conclui um relato que não terá direito a censura. O que virá não é romance. Não será poupado das cenas esquisitas, da pornografia banal, da tragédia doméstica que se encena atrás de cada porta fechada.
Natália me deixou no quarto e pediu um minuto, como se fosse a dona do tempo. Fiquei de pé, imóvel, porque se deitasse corria o risco de apagar. Essa é a covardia da velhice: tudo serve de pretexto para dormir, para sonhar, para fugir. O corpo implora descanso, mas não é piedade — é sentença. A cronologia humana é um carrasco impiedoso, e o mundo não tem paciência com sucatas que ainda respiram.
Então, a menina voltou. Trancou a porta e, sem aviso, começou a saltar. Braços e pernas abrindo e fechando, um polichinelo febril, como se estivesse possuída por algum ataque epilético. Não parava. Pulava como uma insana, e só de assistir já me roubava o ar, como se meu coração fosse um tambor velho prestes a rasgar.
Perguntei o motivo daquele espetáculo grotesco. Ela, ofegante mas sorrindo, disse que estava inquieta, cheia de energia acumulada — como se a luxúria tivesse virado ginástica.
Um idoso lúcido teria corrido porta afora, talvez agradecendo o milagre da fuga. Eu, claro, fiquei. Porque a ruína tem seu fascínio, e a burrice do desejo sempre vence a inteligência da idade.
Óbvio que não dei conta. Natália me arrancou o sêmen: primeiro com aqueles beijos de traqueia, covardes e assassinos, depois com um boquete celestial, desses que fariam até anjo perder as asas. Há mulheres que ressuscitam cadáveres; Natália me trouxe de volta à vida só para me matar outra vez — e sem piedade.
Saí do bordel como um sobrevivente dispensável e ganhei as ruas desertas do Centro do Rio. Bueiros cuspindo esgotos, ratos atravessando becos, mendigos encolhidos sob as marquises: o cenário perfeito da tragédia. O espelho sujo da decadência.
Minhas botas batiam no asfalto com a obstinação de um réquiem, me empurrando adiante, como se já soubessem o caminho.
Emparelhei os meus aparelhos auditivos com o celular (sim, sou surdo) e deixei que a música me consolasse.
Depeche Mode - Personal Jesus
Entrei num táxi, sem olhar para trás, e desapareci — mais um fantasma da madrugada carioca.Eu andava sem pressa sob aquelas lâmpadas brancas, penduradas como dentes maltratados nos postes do Largo da Carioca. A noite despencava rápido, como um funcionário público correndo para não perder o último ônibus — ou talvez como alguém que esqueceu de pagar a conta de luz e já espera o corte.
Tinha acabado de sair de um encontro com a moça de codinome “Chaveirinho”. Simpática, agradável, mas não foi suficiente para aplacar completamente os meus instintos vencidos. Minha libido, que anda aparecendo de forma esporádica como cometa perdido, resolveu dar as caras: veio feroz, esfomeada, desejando o imprevisível.
Enquanto isso, o mundo seguia na Rua da Uruguaiana: engravatados correndo atrás de ônibus, metrô, gente sonhando com o sofá, todos em linha reta, escravos do relógio. Eu não. Eu preferi arrastar o passo, como se a vida fosse uma vitrine barata e eu tivesse crédito para olhar, mas não comprar. Um cheiro de pastel, perfume, suor — tudo isso entrando no meu nariz como se fosse poesia maldita. “É preciso saber viver”, já dizia a música. Pois é, continuo em estágio probatório, mesmo sendo um idoso.
Dobrei na Alfândega e vi o toldo verde do Clube 119. Verde triste, desbotado, como quem fumou três décadas de cigarros sem filtro. A entrada era estreita, quase um convite para desistir. Mas aí veio o som da boate — um batimento cardíaco eletrônico ecoando das escadas, como se o prédio inteiro tivesse bebido antes de mim. Apoiei a bota no primeiro degrau, respirei fundo e pulei dentro do caos.
A pista fervia como dia de domingo em rodízio de carne. Eu, um homem grande demais para caber em mim mesmo, tentava me enfiar por entre aquela massa compacta de corpos suados e ansiosos. O ar era um sopro viciado, carregado de feromônios que quase me estrangulavam; não era uma boate, era uma câmara de gás — só que em vez de matar, excitava.
Cheguei ao bar como quem alcança a margem depois de quase se afogar. Pedi uma Ice, dessas que misturam o doce e o cortante como beijo de puta. O líquido desceu pela garganta como navalha caramelizada. Por alguns segundos, senti o alívio: escapei da engrenagem infernal. Mas bastava olhar em volta para lembrar: aquilo não era só uma festa, era a maquete do inferno suavizada pela alcunha de Inferninho — e o demônio, claro, cobrava entrada.
E então ela surgiu. No meio do salão, devorava a boca de um cliente como um Nosferatu de biquíni, chupando-lhe a vida pela jugular. O pobre-diabo estava entregue, olhos revirados, convulso como um santo em êxtase — mas não subiu aos céus. Ao contrário: pela postura desajeitada, a sentença estava escrita: o homem estava duro, não de tesão, mas de miséria — sem grana, entregue à vergonha pública como quem exibe as próprias tripas.
Natália o largou sem remorso, como quem desova um cadáver numa sarjeta qualquer. Ninguém aplaudiu, ninguém protestou: a boate seguia como se aquilo fosse trivial, espetáculo de toda noite.
Foi nesse momento que avancei. Segurei seu braço ainda quente da caça. Perguntei seu nome. Ela olhou de lado, quase rindo, e respondeu com a naturalidade de quem confessa um pecado venial: Natália.
Linda. Uma dessas joias raras que a vida fabrica no descuido, seja no asfalto imundo ou nos bordéis de quinta categoria. Fiz a entrevista de praxe, aquelas perguntas que não dizem nada. Nem precisei tocar no assunto do beijo — porque ela não beijava, ela sequestrava almas pela boca, abduzia como um demônio de batom barato.
Pediu uma Ice. Paguei, claro. Eu pagaria mais: casa, comida, roupa lavada. Mas ela riu da minha devoção súbita e disse a verdade nua e cínica: bastava pagar o programa.
Pedi uma alcova e subimos. Os degraus até o andar dos quartos exalavam o fedor barato da perdição, misturado ao desinfetante que nunca vencia a sujeira. Aqui começa o fim — ou melhor, aqui se conclui um relato que não terá direito a censura. O que virá não é romance. Não será poupado das cenas esquisitas, da pornografia banal, da tragédia doméstica que se encena atrás de cada porta fechada.
Natália me deixou no quarto e pediu um minuto, como se fosse a dona do tempo. Fiquei de pé, imóvel, porque se deitasse corria o risco de apagar. Essa é a covardia da velhice: tudo serve de pretexto para dormir, para sonhar, para fugir. O corpo implora descanso, mas não é piedade — é sentença. A cronologia humana é um carrasco impiedoso, e o mundo não tem paciência com sucatas que ainda respiram.
Então, a menina voltou. Trancou a porta e, sem aviso, começou a saltar. Braços e pernas abrindo e fechando, um polichinelo febril, como se estivesse possuída por algum ataque epilético. Não parava. Pulava como uma insana, e só de assistir já me roubava o ar, como se meu coração fosse um tambor velho prestes a rasgar.
Perguntei o motivo daquele espetáculo grotesco. Ela, ofegante mas sorrindo, disse que estava inquieta, cheia de energia acumulada — como se a luxúria tivesse virado ginástica.
Um idoso lúcido teria corrido porta afora, talvez agradecendo o milagre da fuga. Eu, claro, fiquei. Porque a ruína tem seu fascínio, e a burrice do desejo sempre vence a inteligência da idade.
Óbvio que não dei conta. Natália me arrancou o sêmen: primeiro com aqueles beijos de traqueia, covardes e assassinos, depois com um boquete celestial, desses que fariam até anjo perder as asas. Há mulheres que ressuscitam cadáveres; Natália me trouxe de volta à vida só para me matar outra vez — e sem piedade.
Saí do bordel como um sobrevivente dispensável e ganhei as ruas desertas do Centro do Rio. Bueiros cuspindo esgotos, ratos atravessando becos, mendigos encolhidos sob as marquises: o cenário perfeito da tragédia. O espelho sujo da decadência.
Minhas botas batiam no asfalto com a obstinação de um réquiem, me empurrando adiante, como se já soubessem o caminho.
Emparelhei os meus aparelhos auditivos com o celular (sim, sou surdo) e deixei que a música me consolasse.
Depeche Mode - Personal Jesus
Entrei num táxi, sem olhar para trás, e desapareci — mais um fantasma da madrugada carioca.