Página 1 de 1

SÓCIO DA LIGHT

Enviado: Dom Set 13, 2026 9:50 pm
por Madruguinha
Estava vivendo. Aprovado na universidade federal, tudo era novidade. Viagens, eventos, passeios e encontros: a monotonia havia brigado feio comigo. Os dias, independentemente da estação, me entregavam o clima gostoso que só um outono tem. Vi o perfil de Angela, uma menina branca, magrela e de cabelos claros, e gastei o superlike diário a que tinha direito.

Em poucos minutos, recebo uma mensagem dela perguntando o "porquê" do superlike e o que de tão interessante eu tinha visto nela para tal. O início, diferente dos cumprimentos protocolares, me agradou de imediato. A conversa se estabelecia e, em poucos minutos, já pude notar que ali não tinha só um rostinho gracioso, mas também um conteúdo acima da média. Passamos a conversar sobre tudo diariamente e a inteligência dela me encantava. Uma vírgula era suficiente para ela tecer opiniões sobre assuntos dos mais variados. E, embora eu nem sempre concordasse, achava possível construir algo sólido e conviver bem com as nossas diferenças.

O meu interesse por ela crescia, mas ela ou não notava, ou fingia não perceber. Sabendo que ela estava conhecendo outra pessoa, respeitei o espaço, não consegui ser mais direto e acabei sendo colocado na sua friendzone. Saímos umas três vezes como amigos. De igreja evangélica a pontos turísticos da cidade, era legal estar em sua companhia, apesar de não poder beijá-la. Até que um dia, quando ela buscou um conselho sobre o "relacionamento" que estava vivendo, vi uma brecha para falar umas verdades, que pouco tempo depois saberia que a deixaram meio balançada. Após isso, ficamos o restante do dia sem trocar uma palavra, o que não era comum.

No dia seguinte, para a minha surpresa, ela tocou no assunto inacabado e disse que precisávamos conversar. Não era a primeira vez na vida que eu era o único elo da amizade interessado em algo mais. Já estava preparado para ouvir da boca dela que eu havia confundido as coisas e que ela só conseguia me ver como um bom amigo. Formada na área da saúde e estudante de comunicação social, sugeriu que nos encontrássemos no meu endereço depois do serviço dela — que nada tinha a ver com as duas formações.

Mesmo aguardando o pior, fiz questão de deixar a casa o mais cheirosa e arrumada possível para recebê-la. Separei dois DVDs que eu sabia que nos agradariam e fui buscá-la no ponto de ônibus mais próximo. Angela, apesar de inteligente, tinha dificuldade para ouvir opiniões contrárias. Achava que todos precisavam pensar e agir como ela. Eu já havia notado isso, mas ingenuamente acreditava que poderia ajudá-la a melhorar. Quando entrou na minha casa, a primeira coisa que fez foi perguntar se eu era sócio da companhia de energia elétrica para manter todas as luzes acesas, ocasionando o primeiro momento desconfortável da noite.

Após isso, como se nada tivesse acontecido — parecia que para ela ser inconveniente era natural —, aproximou-se e me beijou. Eu, surpreso e incrédulo, fiquei sem saber o que fazer. Apesar de passar semanas querendo aquilo, imaginava que, se rolasse alguma coisa, seria diferente. Esperava uma conversa sobre o que havia lhe falado no dia anterior, mas o que vi foi uma garota cheia de atitude, querendo chegar aos finalmentes primeiro e, talvez, ouvir depois.

O problema é que não sou o melhor dos beijoqueiros, ainda mais naquele ambiente de pressão. Quem já ficou comigo, sabe. Algumas reclamam do olho aberto — sendo que a maioria dos homens beija assim — e outras do pouco uso da língua. Mas uma coisa é você fazer isso no momento e no tom certos, podendo até ser de forma descontraída, e outra coisa é fazer como ela fez. Angela conseguiu reclamar das duas coisas com a maior naturalidade enquanto me prensava no sofá:

— Por que você não fecha os olhos para beijar?
— Cadê a língua nesse beijo? Não gosta ou não sabe?

O anticlímax estava instalado. Ela me achando um péssimo amante e eu tendo a certeza de que havia me interessado pela garota mais ranheta com quem já dividi o metro quadrado. Se nas preliminares era assim, imagina no sexo? Pensei. Aliado ao comentário sem noção sobre as luzes acesas de antes, perdi totalmente a vontade. Para não magoá-la, preferi ser taxado de inseguro ou emocionado, dizendo que ainda estava tentando assimilar tudo e que era melhor irmos com mais calma. Angela bem que acreditou e entendeu, não conseguindo disfarçar a feição de aborrecida e decepcionada. Pediu licença e foi se banhar, fazendo questão de passar de calcinha e sutiã na minha frente para ver se eu mudava de ideia.

No retorno, deitamos e dividimos a cama como dois irmãos até amanhecer o dia. Como precisávamos pegar a mesma estação de trem para cada um ir para a sua universidade, acompanhei-a e tentei ser o mais cavalheiro possível. Em dado momento, fazendo carinhos no cabelo dela, vejo surgir uma fera reclamando e retirando a minha mão, só porque não havia sido comida na noite anterior. Não entendia por que o sócio da Light não podia ser também o sócio da CEG. O destino dela vinha antes e ela desceu primeiro. Despedimo-nos sem beijo e nunca mais tornamos a nos ver.

No aludido dia, pela tarde, ela avisou que, saindo do serviço, viria até a minha casa de novo, pois precisávamos conversar sobre o que havia acontecido na noite anterior. Graças a Deus e à minha torcida, acabou desistindo.