VILA MIMOSA - R. SOTERO REIS - PÇ DA BANDEIRA
Enviado: Ter Jul 14, 2026 11:38 am
A música nas caixas de som faziam a trilha sonora...
MORE AND MORE
Já passava da meia-noite quando me acomodei num canto discreto do Boteco Bacurau, na Lapa. Existem lugares que não escolhemos — eles nos aceitam. Aquele bar, na divisa da Lapa com a Praça da Cruz Vermelha, me adotou sem cerimônia. É ali que me entrego às minhas filosofices, aos devaneios de sempre, que testo minha fidelidade diante do ciúme da minha amante chamada Solidão. Àquelas mesas, invariavelmente depois da terceira dose de uísque, eu viro um homem feliz. Não é muito, mas é o que há.
Perto de uma da madrugada, decidi seguir para a Vila Mimosa. Não havia outro ponto de meretrício disposto a me receber naquele horário. A Vila é o porto seguro de fantasmas noturnos como eu, cravada no centro de uma cidade traiçoeira, sempre pronta a levar não só o que você carrega no bolso, mas também o que ainda resta da alma dos incautos.
*****
Liguei o motor do Sucatão e tracei a rota para o baixo meretrício. As ruas vazias sustentavam um silêncio espesso, desses que sussurram misérias humanas. Uma das faces do grande relógio da Central do Brasil marcava a hora errada. Não me incomodei. Na minha idade, todas as horas estão erradas, sempre inconvenientes. O certo seria o tempo parar. Mas ele não para — alertava Cazuza.
Estacionei na Rua Ceará e segui a pé até a Sotero Reis. A rua da zona leva o nome de um filólogo maranhense, alguém que estudou a língua pátria e acabou transformado em símbolo sexual decadente. Existe ironia. E existe escárnio. O som das minhas botas nos paralelepípedos poderia ser confundido com o arrastar metálico de correntes nos pés de um condenado. Acredite, forista sem fé: atravessei a vida assim, condenado pela libido, pela luxúria, uma pena que nunca termino de cumprir.
*****
A Vila estava vazia. Nos corredores do sexo pago, viam-se homens com expressão de fracasso e mulheres com um olhar de ressentimento que transformava qualquer pênis numa nota de cem reais. Não há amor nem compaixão na zona. Só desejo mal resolvido.
Quando estava prestes a dobrar para o segundo corredor, vi uma morena bronzeada, encaixada num biquíni mínimo, cabelos cacheados escorrendo pelas costas, um corpo que poderia levá-la à delegacia de São Cristóvão, detida por atentado ao pudor, mesmo desfilando naquela arena de obscenidades. Ao cruzar comigo, cheguei a salivar. Girei nos calcanhares e fui atrás.
No caminho, ela foi parada três vezes por homens com cara de quem mal tinha dinheiro para comer um podrão na esquina, quanto mais para pagar por aquela mulher excessiva. Apertei o passo e consegui alcançá-la quase na rua.
— Preciso falar com você, senão não vou conseguir dormir hoje — minhas cantadas são patéticas, filhas da minha incapacidade de improviso.
— Ah, é? — ela respondeu, simpática. — E o que um homem elegante como você faz aqui?
Percebi a habilidade em me fisgar pela vaidade. No fundo, ela tinha razão. Sou uma alma britânica exilada nesses trópicos obtusos.
— Acho que vim conhecer você — completei, com outra tirada vergonhosa.
— Então vamos nos conhecer sem roupa — ela disse.
— Quanto? — perguntei.
— Cento e vinte, amor. Sem anal.
Ou seja, nem todo pênis vale cem reais. Alguns rendem mais.
*****
Aceitei após uma breve entrevista. Ela me puxou pela mão até a última casa à esquerda do primeiro corredor em U. Subimos uma daquelas escadas de ferro em caracol que deixam a cabeça leve. O quarto era pequeno. A cama tinha um lençol gasto sobre o colchão. Um espelho enorme, de moldura dourada, estava encostado na parede em frente.
— Qual seu nome? — perguntei, tarde demais.
— Milena. E o seu?
— Dante. Me chamam Dante.
— Espera um minutinho. Vou pegar minhas coisas. Vai tirando a roupa pra eu te pegar.
*****
De repente, eu estava nu diante daquele espelho grande de bordas douradas. Não vi um corpo. Vi uma devastação: barriga saliente, cavanhaque branco, cabelos ralos e grisalhos. Espelhos são sádicos. Sempre foram.
Milena voltou e nos agarramos. A pele dela estava quente, tão quente quanto o cubículo onde mal conseguíamos nos mexer. Ela me beijou sem economia, a cama rangia, um ventilador velho e empoeirado girava no chão como se estivesse prestes a dar o último suspiro. Os seios dela eram pequenos, firmes, bonitos, com auréolas rosadas e um biquinho saliente.
Ela não me deu descanso. Engoliu meu membro cansado com dedicação, alternou com a mão e me fez gozar mais rápido do que eu gostaria. Já estava pago. Nos despedimos. Ela ainda teve a delicadeza de me beijar no rosto e dizer a frase mais broxante do mundo: “vai com Deus”. Isso, na zona, depois de uma trepada paga. O pecado reina sem concorrência.
Voltei para o carro com a mesma sensação de arrastar correntes nos pés. Um fantasma entre fantasmas. Um condenado entre condenados. Girei a chave, o motor respondeu, acelerei. Os pneus rasgaram o asfalto. Para onde vamos? Não sei. Nunca sabemos.
EXTREME WAYS
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Já passava da meia-noite quando me acomodei num canto discreto do Boteco Bacurau, na Lapa. Existem lugares que não escolhemos — eles nos aceitam. Aquele bar, na divisa da Lapa com a Praça da Cruz Vermelha, me adotou sem cerimônia. É ali que me entrego às minhas filosofices, aos devaneios de sempre, que testo minha fidelidade diante do ciúme da minha amante chamada Solidão. Àquelas mesas, invariavelmente depois da terceira dose de uísque, eu viro um homem feliz. Não é muito, mas é o que há.
Perto de uma da madrugada, decidi seguir para a Vila Mimosa. Não havia outro ponto de meretrício disposto a me receber naquele horário. A Vila é o porto seguro de fantasmas noturnos como eu, cravada no centro de uma cidade traiçoeira, sempre pronta a levar não só o que você carrega no bolso, mas também o que ainda resta da alma dos incautos.
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Liguei o motor do Sucatão e tracei a rota para o baixo meretrício. As ruas vazias sustentavam um silêncio espesso, desses que sussurram misérias humanas. Uma das faces do grande relógio da Central do Brasil marcava a hora errada. Não me incomodei. Na minha idade, todas as horas estão erradas, sempre inconvenientes. O certo seria o tempo parar. Mas ele não para — alertava Cazuza.
Estacionei na Rua Ceará e segui a pé até a Sotero Reis. A rua da zona leva o nome de um filólogo maranhense, alguém que estudou a língua pátria e acabou transformado em símbolo sexual decadente. Existe ironia. E existe escárnio. O som das minhas botas nos paralelepípedos poderia ser confundido com o arrastar metálico de correntes nos pés de um condenado. Acredite, forista sem fé: atravessei a vida assim, condenado pela libido, pela luxúria, uma pena que nunca termino de cumprir.
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A Vila estava vazia. Nos corredores do sexo pago, viam-se homens com expressão de fracasso e mulheres com um olhar de ressentimento que transformava qualquer pênis numa nota de cem reais. Não há amor nem compaixão na zona. Só desejo mal resolvido.
Quando estava prestes a dobrar para o segundo corredor, vi uma morena bronzeada, encaixada num biquíni mínimo, cabelos cacheados escorrendo pelas costas, um corpo que poderia levá-la à delegacia de São Cristóvão, detida por atentado ao pudor, mesmo desfilando naquela arena de obscenidades. Ao cruzar comigo, cheguei a salivar. Girei nos calcanhares e fui atrás.
No caminho, ela foi parada três vezes por homens com cara de quem mal tinha dinheiro para comer um podrão na esquina, quanto mais para pagar por aquela mulher excessiva. Apertei o passo e consegui alcançá-la quase na rua.
— Preciso falar com você, senão não vou conseguir dormir hoje — minhas cantadas são patéticas, filhas da minha incapacidade de improviso.
— Ah, é? — ela respondeu, simpática. — E o que um homem elegante como você faz aqui?
Percebi a habilidade em me fisgar pela vaidade. No fundo, ela tinha razão. Sou uma alma britânica exilada nesses trópicos obtusos.
— Acho que vim conhecer você — completei, com outra tirada vergonhosa.
— Então vamos nos conhecer sem roupa — ela disse.
— Quanto? — perguntei.
— Cento e vinte, amor. Sem anal.
Ou seja, nem todo pênis vale cem reais. Alguns rendem mais.
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Aceitei após uma breve entrevista. Ela me puxou pela mão até a última casa à esquerda do primeiro corredor em U. Subimos uma daquelas escadas de ferro em caracol que deixam a cabeça leve. O quarto era pequeno. A cama tinha um lençol gasto sobre o colchão. Um espelho enorme, de moldura dourada, estava encostado na parede em frente.
— Qual seu nome? — perguntei, tarde demais.
— Milena. E o seu?
— Dante. Me chamam Dante.
— Espera um minutinho. Vou pegar minhas coisas. Vai tirando a roupa pra eu te pegar.
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De repente, eu estava nu diante daquele espelho grande de bordas douradas. Não vi um corpo. Vi uma devastação: barriga saliente, cavanhaque branco, cabelos ralos e grisalhos. Espelhos são sádicos. Sempre foram.
Milena voltou e nos agarramos. A pele dela estava quente, tão quente quanto o cubículo onde mal conseguíamos nos mexer. Ela me beijou sem economia, a cama rangia, um ventilador velho e empoeirado girava no chão como se estivesse prestes a dar o último suspiro. Os seios dela eram pequenos, firmes, bonitos, com auréolas rosadas e um biquinho saliente.
Ela não me deu descanso. Engoliu meu membro cansado com dedicação, alternou com a mão e me fez gozar mais rápido do que eu gostaria. Já estava pago. Nos despedimos. Ela ainda teve a delicadeza de me beijar no rosto e dizer a frase mais broxante do mundo: “vai com Deus”. Isso, na zona, depois de uma trepada paga. O pecado reina sem concorrência.
Voltei para o carro com a mesma sensação de arrastar correntes nos pés. Um fantasma entre fantasmas. Um condenado entre condenados. Girei a chave, o motor respondeu, acelerei. Os pneus rasgaram o asfalto. Para onde vamos? Não sei. Nunca sabemos.
EXTREME WAYS