BOMBEIRINHO - R. DA CONCEIÇÃO, 114 - CENTRO
Enviado: Ter Jul 14, 2026 11:52 am
Entardecia. Eu estava à deriva no Boteco Bacurau, um dos meus portos habituais, ilha onde naufrago. Uísque Black é a única bebida alcoólica que não me causa mal-estar e ainda me deixa mais feliz. Era o que eu bebia naquela tarde que começou com tentativas fracassadas de contato com mulheres. As doses de Black iam, aos poucos, recuperando meu ânimo.
O primeiro contato fiz às oito horas da manhã, com uma menina de anúncio que só me respondia de hora em hora. Chamei às oito, respondeu às nove. Perguntei sobre a agenda às nove, respondeu às dez. Tentei sondar outro horário às dez, e ela só me retornou às onze da manhã, alegando que não poderia me atender. Sinceramente, marcar um café com a Marina Ruy Barbosa deve ser mais fácil — e a ruiva ainda tem status.
Na segunda tentativa, chamei outra moça pelo WhatsApp e retornou uma resposta automática, com uma série de protocolos e regras que eu deveria seguir para marcar o encontro. Filha, eu só desejava uma hora de sexo, não estava me alistando para o serviço militar. Talvez essa garota devesse enviar currículo para um cartório; está mais para tabeliã do que para profissional do sexo. E algumas ainda querem cobrar 300 reais prestando um pré-atendimento horroroso. Não dá.
Façam um cursinho no SEBRAE.
**********
Nessa mesma semana, fiz um tour sexual com um camarada veterano dos fóruns. Diante das frustrações às quais fui submetido, decidi refazer o périplo pelos lugares que me pareceram mais interessantes quando os visitamos.
Sou de outra geração de foristas, venho de outra escola, e digo com sinceridade: não aprecio muito sair com freelancers que atendem em salas que já foram escritórios ou consultórios, nem com mulheres de privês. Sempre fico com a impressão de que, quando abrem a porta, me recebem com cara de professora de datilografia do Curso Remington. A sensação é de que terei uma experiência mecânica, e não de prazer. O que me atrai é a adrenalina, a possibilidade real de escolha, a aventura do flerte — mesmo que seja dissimulado.
**********
Decidi visitar o Bombeirinho. Entrei no Sucatão, acionei o motor e parti rumo àquele ponto decadente da Rua da Conceição. Estacionei o carro num buraco da Rua do Acre e fui caminhando pela Avenida Marechal Floriano. O fim de tarde já imperava. Entrei na rua suja, isolada por aldeias de cracudos. Não é um lugar bonito, não é campo onde o Forista de Sapatilha ouse pisar. Existem viagens que só cabem aos ousados — que o digam Colombo, Cabral e os vikings.
**********
Ali, dois bordeis convivem pacificamente, lado a lado: o 114 e o 116 (o famigerado Bombeirinho). O pior dos trashes, por serem sobrados antiquíssimos, são as escadarias. Quando a minha bota pisou no quarto degrau, senti a madeira afundar e ranger como se pedisse socorro. Prossegui a escalada.
O salão estava cheio. Cheio de ninguéns, como diria um antigo amigo de humor ácido. Putas seminuas pululavam pela pista com sangue nos olhos. Nos bordeis, você entra para caçar, mas também é caçado. É onde o ditado popular se torna mais verdadeiro: “um dia é da caça, outro do caçador.”
Peguei uma Ice e sondei o ambiente. O Bombeirinho passou por uma reforma, ficou menos sombrio. Agora, as paredes ostentam símbolos de religiões de matriz africana. Eu me senti em um terreiro. A imagem de Zé Pelintra estava por todos os lados. Posso afirmar que ficou melhor do que era; antes da obra, parecia uma caverna habitada por neandertais.
**********
De repente, uma fêmea colossal entra desfilando pela boate. Meus olhos saltam da órbita. Uma negra belíssima, com cabelos loiros trançados escorrendo pelos ombros e olhos castanho-claros hipnóticos. Fiquei enfeitiçado por aquela presença, e corri para abordá-la antes que fosse tarde demais.
— Oi. Queria falar com você? — meu script no primeiro contato.
— Pode falar.
— Qual seu nome? — pergunto. Aqui começam os primeiros passos do suplício.
— Daenerys.
Acredite, Forista sem fé. O barulho do lugar interferia no bom funcionamento do meu aparelho auditivo (para quem desconhece, sou surdo). Não entendi o que ela disse; parecia aramaico.
— Não entendi, princesa. Qual seu nome? — insisti.
— Daenerys.
Que porra é essa?! — pensei.
Percebendo meu semblante confuso, a garota teve a gentileza de me explicar, como se falasse com um idoso com Alzheimer:
— É o nome da mãe dos dragões. Game of Thrones.
Lembrei-me então da personagem de Emilia Clarke e finalmente compreendi o nome de guerra que ela escolheu. Naquele inferno repleto de peões e trabalhadores de baixa renda, deve sofrer todos os dias para que entendam o codinome que inventou para si.
Fiz a entrevista básica. Aprovei. Subimos ao andar das alcovas.
**********
Daenerys me conduziu a um dos quartos e pediu para que eu esperasse um minuto enquanto pegava seus apetrechos.
— Vai tirando a roupa, meu bem. Já volto.
Esse mau hábito de chamar cliente de “meu bem” me soa extremamente brochante. Minha vontade foi cancelar o programa e ir embora, mas preferi relevar.
**********
Eu sentia calor. Tirar a roupa foi uma libertação. Vi que o chuveiro era elétrico e ansiei por sentir a água morna me lavando da poeira urbana. Nu e livre, entrei no pequeno box, girei a torneira e fui contemplado por um único pingo d’água, que parecia estar contaminado por grãos de terra marrons. Girei a torneira até o fim e nada.
Puta que pariu — sussurrei em revolta.
A menina voltou ao quarto.
— Ainda não tomou banho, meu bem?
Nesse segundo “meu bem”, quase tive uma síncope.
— Tá sem água — respondi.
— Ai, meu Deus. Peraí que dou um jeito — e Daenerys saiu do quarto novamente.
Fiquei de pé, nu e frustrado, enquanto aguardava o retorno da mãe dos dragões. Eis que ela reaparece com uma toalha branca e úmida nas mãos.
— Deixa que eu vou te dar banho, meu bem — me avisou.
Então, ela coloca a toalha sobre o meu peito. A porra da toalha estava enxarcada com uma água geladíssima. Deve ter embebido aquele pano no isopor de gelo das bebidas. Fui transportado instantaneamente para a Patagônia. Trinquei os dentes, não conseguia falar. E Daenerys, subitamente, mete a toalha congelada no meu combalido pênis e esfrega. Digo com sinceridade, afeiçoado Forista, naquele instante o meu pau se transformou em uma estalactite.
Do pau, passou a toalha na temperatura de zero grau nas minhas costas. Comecei a sentir um frio glacial, temi uma convulsão térmica. Talvez, percebendo que minha pele foi ficando azulada, a menina parou com a tortura. Era como se eu tivesse entrado em uma cápsula criogênica.
— Você está bem? — me perguntou.
— Mais ou menos. Acho que não vai rolar mais nada.
— Por que, meu bem?
— Perdi o clima. Desculpe.
— Como assim? — ela insiste.
O que Daenerys ignorava é que meus espermatozoides viraram flocos de neve, meu saco um iglu e meu pau uma estalactite morta pendurada no meu corpo.
**********
Preferi me despedir sem ressentimentos. Creio que a menina tentou agradar, mas quase me causou um choque térmico. Caminhei pelas ruas em busca do Sucatão, embarquei, liguei o ar quente do carro e acelerei sobre o asfalto. “Um dia é da caça, outro do caçador” — o ditado ecoava na minha mente. Liguei o rádio e fui buscar um novo destino, longe do Zé Pelintra...
SYMPATTHY FOR THE DEVIL
O primeiro contato fiz às oito horas da manhã, com uma menina de anúncio que só me respondia de hora em hora. Chamei às oito, respondeu às nove. Perguntei sobre a agenda às nove, respondeu às dez. Tentei sondar outro horário às dez, e ela só me retornou às onze da manhã, alegando que não poderia me atender. Sinceramente, marcar um café com a Marina Ruy Barbosa deve ser mais fácil — e a ruiva ainda tem status.
Na segunda tentativa, chamei outra moça pelo WhatsApp e retornou uma resposta automática, com uma série de protocolos e regras que eu deveria seguir para marcar o encontro. Filha, eu só desejava uma hora de sexo, não estava me alistando para o serviço militar. Talvez essa garota devesse enviar currículo para um cartório; está mais para tabeliã do que para profissional do sexo. E algumas ainda querem cobrar 300 reais prestando um pré-atendimento horroroso. Não dá.
Façam um cursinho no SEBRAE.
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Nessa mesma semana, fiz um tour sexual com um camarada veterano dos fóruns. Diante das frustrações às quais fui submetido, decidi refazer o périplo pelos lugares que me pareceram mais interessantes quando os visitamos.
Sou de outra geração de foristas, venho de outra escola, e digo com sinceridade: não aprecio muito sair com freelancers que atendem em salas que já foram escritórios ou consultórios, nem com mulheres de privês. Sempre fico com a impressão de que, quando abrem a porta, me recebem com cara de professora de datilografia do Curso Remington. A sensação é de que terei uma experiência mecânica, e não de prazer. O que me atrai é a adrenalina, a possibilidade real de escolha, a aventura do flerte — mesmo que seja dissimulado.
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Decidi visitar o Bombeirinho. Entrei no Sucatão, acionei o motor e parti rumo àquele ponto decadente da Rua da Conceição. Estacionei o carro num buraco da Rua do Acre e fui caminhando pela Avenida Marechal Floriano. O fim de tarde já imperava. Entrei na rua suja, isolada por aldeias de cracudos. Não é um lugar bonito, não é campo onde o Forista de Sapatilha ouse pisar. Existem viagens que só cabem aos ousados — que o digam Colombo, Cabral e os vikings.
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Ali, dois bordeis convivem pacificamente, lado a lado: o 114 e o 116 (o famigerado Bombeirinho). O pior dos trashes, por serem sobrados antiquíssimos, são as escadarias. Quando a minha bota pisou no quarto degrau, senti a madeira afundar e ranger como se pedisse socorro. Prossegui a escalada.
O salão estava cheio. Cheio de ninguéns, como diria um antigo amigo de humor ácido. Putas seminuas pululavam pela pista com sangue nos olhos. Nos bordeis, você entra para caçar, mas também é caçado. É onde o ditado popular se torna mais verdadeiro: “um dia é da caça, outro do caçador.”
Peguei uma Ice e sondei o ambiente. O Bombeirinho passou por uma reforma, ficou menos sombrio. Agora, as paredes ostentam símbolos de religiões de matriz africana. Eu me senti em um terreiro. A imagem de Zé Pelintra estava por todos os lados. Posso afirmar que ficou melhor do que era; antes da obra, parecia uma caverna habitada por neandertais.
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De repente, uma fêmea colossal entra desfilando pela boate. Meus olhos saltam da órbita. Uma negra belíssima, com cabelos loiros trançados escorrendo pelos ombros e olhos castanho-claros hipnóticos. Fiquei enfeitiçado por aquela presença, e corri para abordá-la antes que fosse tarde demais.
— Oi. Queria falar com você? — meu script no primeiro contato.
— Pode falar.
— Qual seu nome? — pergunto. Aqui começam os primeiros passos do suplício.
— Daenerys.
Acredite, Forista sem fé. O barulho do lugar interferia no bom funcionamento do meu aparelho auditivo (para quem desconhece, sou surdo). Não entendi o que ela disse; parecia aramaico.
— Não entendi, princesa. Qual seu nome? — insisti.
— Daenerys.
Que porra é essa?! — pensei.
Percebendo meu semblante confuso, a garota teve a gentileza de me explicar, como se falasse com um idoso com Alzheimer:
— É o nome da mãe dos dragões. Game of Thrones.
Lembrei-me então da personagem de Emilia Clarke e finalmente compreendi o nome de guerra que ela escolheu. Naquele inferno repleto de peões e trabalhadores de baixa renda, deve sofrer todos os dias para que entendam o codinome que inventou para si.
Fiz a entrevista básica. Aprovei. Subimos ao andar das alcovas.
**********
Daenerys me conduziu a um dos quartos e pediu para que eu esperasse um minuto enquanto pegava seus apetrechos.
— Vai tirando a roupa, meu bem. Já volto.
Esse mau hábito de chamar cliente de “meu bem” me soa extremamente brochante. Minha vontade foi cancelar o programa e ir embora, mas preferi relevar.
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Eu sentia calor. Tirar a roupa foi uma libertação. Vi que o chuveiro era elétrico e ansiei por sentir a água morna me lavando da poeira urbana. Nu e livre, entrei no pequeno box, girei a torneira e fui contemplado por um único pingo d’água, que parecia estar contaminado por grãos de terra marrons. Girei a torneira até o fim e nada.
Puta que pariu — sussurrei em revolta.
A menina voltou ao quarto.
— Ainda não tomou banho, meu bem?
Nesse segundo “meu bem”, quase tive uma síncope.
— Tá sem água — respondi.
— Ai, meu Deus. Peraí que dou um jeito — e Daenerys saiu do quarto novamente.
Fiquei de pé, nu e frustrado, enquanto aguardava o retorno da mãe dos dragões. Eis que ela reaparece com uma toalha branca e úmida nas mãos.
— Deixa que eu vou te dar banho, meu bem — me avisou.
Então, ela coloca a toalha sobre o meu peito. A porra da toalha estava enxarcada com uma água geladíssima. Deve ter embebido aquele pano no isopor de gelo das bebidas. Fui transportado instantaneamente para a Patagônia. Trinquei os dentes, não conseguia falar. E Daenerys, subitamente, mete a toalha congelada no meu combalido pênis e esfrega. Digo com sinceridade, afeiçoado Forista, naquele instante o meu pau se transformou em uma estalactite.
Do pau, passou a toalha na temperatura de zero grau nas minhas costas. Comecei a sentir um frio glacial, temi uma convulsão térmica. Talvez, percebendo que minha pele foi ficando azulada, a menina parou com a tortura. Era como se eu tivesse entrado em uma cápsula criogênica.
— Você está bem? — me perguntou.
— Mais ou menos. Acho que não vai rolar mais nada.
— Por que, meu bem?
— Perdi o clima. Desculpe.
— Como assim? — ela insiste.
O que Daenerys ignorava é que meus espermatozoides viraram flocos de neve, meu saco um iglu e meu pau uma estalactite morta pendurada no meu corpo.
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Preferi me despedir sem ressentimentos. Creio que a menina tentou agradar, mas quase me causou um choque térmico. Caminhei pelas ruas em busca do Sucatão, embarquei, liguei o ar quente do carro e acelerei sobre o asfalto. “Um dia é da caça, outro do caçador” — o ditado ecoava na minha mente. Liguei o rádio e fui buscar um novo destino, longe do Zé Pelintra...
SYMPATTHY FOR THE DEVIL