LUNNA RIZZO - (21) 96429-8378 - CENTRO
Enviado: Qui Jul 16, 2026 4:00 pm
FILOSOFIA DE BOTEQUIM
No Amarelinho da Cinelândia, sentado como um homem que aparentemente não tem mais o que fazer da vida, eu contemplava. É o tipo de atividade que a juventude chama de tédio e a maturidade reembala como sabedoria. Nenhuma das duas versões é particularmente honesta, mas a segunda pelo menos tem melhor marketing. Emparelhei meus aparelhos auditivos com o celular — sim, sou surdo e há uma certa ironia elegante em precisar de tecnologia para ouvir o mundo — deixei que a música transbordando para os meus tímpanos cansados fizessem a trilha sonora do momento.
RADIOHEAD – CREEP
Era uma sexta-feira, talvez. A memória, sempre seletiva, guarda a atmosfera e descarta os detalhes administrativos. Havia um caos urbano ao redor do restaurante, como se a turba comemorasse o fim dos ataques de gangues que perduraram nas últimas semanas. Policiais a postos eram o motivo concreto da felicidade abstrata. Fiquei pensando que havia algo de profundamente carioca nisso: celebrar que, pelo menos hoje, ninguém te matou.
MEU DESTINO É PECAR
Uma menina magrinha do famigerado “Espigão do Sexo” — alcunha como o prédio da rua Álvaro Alvim, 37 é conhecido na região — me deixou chupando o dedo na tentativa de um segundo encontro com ela, marcado vinte e quatro horas antes. Aceitei as desculpas da mocinha pelo imenso atraso, mas preferi buscar outra opção.
Comentando com um amigo a desventura, ele me sugeriu a messalina que usa nome de personagem de telenovela italiana: Lunna Rizzo. Dei sorte, o contato foi rápido e ela tinha agenda aberta para uma hora depois. Aceitei. Eu precisava ejacular e o desespero é um negociador pragmático, prefere o acordo com a incerteza do que à impossibilidade indiscutível. O valor de 250 reais do cachê me travou um pouco, mas quando você está se afogando não pode escolher o que é perfeito, você agarra o que flutua. Agarrei a Lunna como se fosse a mulher escolhida para tirar a minha virgindade.
A JORNADA DO HERÓI
O endereço era na Rua das Marrecas, via que guarda um passado de boys, travestis e gays clandestinos que habitavam as sombras porque as sombras eram o único lugar que não os expulsava. Hoje não precisam mais disso. E por sinal, não existem mais sombras na Rua das Marrecas. A rua está iluminada como palco de teatro, holofotes em cima de tudo. Tive dificuldade para encontrar o número do prédio, todos os velhos viram discípulos involuntários do Mister Magoo, farejando o mundo a centímetros do nariz..
Finalmente, avistei o endereço. Do alto de uma guarita — aquela espécie de trono de plástico e vidro onde os porteiros exercem seu pequeno poder soberano — um homem me olhou de cima para baixo com a autoridade de quem controla o único acesso ao paraíso e perguntou-me aonde eu iria, informei a sala e ele liberou a entrada.
Durante o primeiro contato com Lunna, através do WhatsApp, fiz a rotineira entrevista básica de praxe e perguntei, principalmente, se ela beijava na boca. Pode parecer piada de mau gosto, não é. A boca é o que resta aos idosos após a longa jornada libidinosa que percorreram. É o último território sensível, o órgão que envelhece mais devagar, que ainda quer, que ainda sabe o que quer. O resto vai embora em silêncio, sem cerimônia, sem se despedir direito.
— E o pênis? — perguntaria um jovem com aquela ansiedade de quem ainda acredita que tudo gira em torno do pênis.
O pênis, meu jovem, é um cadáver que você carrega na virilha depois de certa idade. Um monumento à glória passada. Uma estátua de praça que ninguém visita mas que a prefeitura insiste em manter por razões sentimentais.
A libido não desaparece — mas se transforma. Deixa de ser onda física, aquela urgência bruta e burra da juventude, e vira outra coisa. Algo mais parecido com espiritualidade. Com psicologia. Com a necessidade estranha e humana de ainda ser tocado por alguém que, pelo menos por uma hora, finge que você existe.
Diante da pergunta sobre o beijo, Lunna questionou-me...
— Você não leu meus relatos no fórum?
Não, não li. Simplesmente porque no Rio não existem mais fóruns, se transfiguraram em sites de classificados poluidíssimos visualmente — e essa palavra, classificados, cheira a jornal de domingo e apartamentos para alugar em bairros sem graça. A liturgia mudou, o negócio é o mesmo.
Os relatos são mala direta corporativa disfarçada de depoimento espontâneo. Alguém adorou, diz que foi incrível, que voltará com certeza. Os textos têm a temperatura emocional de um manual de liquidificador e a credibilidade de um político em ano eleitoral. Garantia de satisfação ou seu dinheiro de volta — quando na verdade não garantem nenhuma das duas promessas.
No Rio, os foristas desapareceram, foram substituídos por monetizadores de sites, trabalham felizes como quem descobriu uma vocação, sem qualquer contrapartida. Querem ser mestres, mitos, lendas e para alcançar a ilusão renunciam à inteligência, na verdade é possível que nem tenham precisado abrir mão. Há uma ambição curiosa nisso — a necessidade de construir uma homenagem a si mesmo num território onde ninguém assina o nome verdadeiro. O anonimato como pedestal. A reputação de mentira. Todo homem quer ser rei de alguma coisa.
Então não, Lunna. Não li seus relatos.
Li você, diretamente.
E foi melhor assim.
O ENCONTRO
Toquei a campainha, a porta se abriu e não vi ninguém, pois as garotas que nos recebem nessas salas sempre estão estrategicamente atrás da porta invisíveis, como boas surpresas deveriam ser. Não tive tempo de pensar. De suspirar. De respirar. Lunna me tascou o beijo. Não o beijo dos relatos que eu não li — o beijo real, o beijo de verdade, de língua feroz e saliva honesta, de conjunção de bocas e lábios que sabem o que estão fazendo. Beijo de traqueias. Foi o suficiente para saber que sairia dali feliz.
Lunna é uma profissional com sensibilidade, ela realmente quer nos oferecer o que esperamos dela. Se empenha. Quer nos provocar o gozo que não seja somente mais um gozo vulgar, ela quer nos dar prazer. Virtude escassa entre as contemporâneas do ofício. O beijo da Lunna é tão profundo que não temos vontade de parar de beijá-la. Eu poderia ter passado o programa inteiro só beijando, mas ela queria o meu sémen, mas o meu pênis nesse dia preferiu o descanso eterno.
Nos atracamos, nos roçamos, nos incendiamos. Lunna é mulher que se entrega.
Não gozei, não por culpa da menina, O réu era outro, e ele estava em silêncio, inerte. O meu pênis se aposentou por invalidez sem aviso prévio. No entanto, fui acometido da sensação de que aquela mulher seria capaz de ressuscitar até defunto — como diz o ditado popular. Marquei e retornei no dia seguinte.
LEVANTA-TE, LÁZARO
Lunna se surpreendeu. Não esperava que eu voltasse — poucos voltam, preferem a vergonha discreta do sumiço ao esforço da honestidade. Mas eu voltei.
E ela operou o milagre que só as melhores conseguem.
Levanta-te, Lázaro.
E no segundo dia do pecado, ejaculei.
LAZARUS – BOWIE
No Amarelinho da Cinelândia, sentado como um homem que aparentemente não tem mais o que fazer da vida, eu contemplava. É o tipo de atividade que a juventude chama de tédio e a maturidade reembala como sabedoria. Nenhuma das duas versões é particularmente honesta, mas a segunda pelo menos tem melhor marketing. Emparelhei meus aparelhos auditivos com o celular — sim, sou surdo e há uma certa ironia elegante em precisar de tecnologia para ouvir o mundo — deixei que a música transbordando para os meus tímpanos cansados fizessem a trilha sonora do momento.
RADIOHEAD – CREEP
Era uma sexta-feira, talvez. A memória, sempre seletiva, guarda a atmosfera e descarta os detalhes administrativos. Havia um caos urbano ao redor do restaurante, como se a turba comemorasse o fim dos ataques de gangues que perduraram nas últimas semanas. Policiais a postos eram o motivo concreto da felicidade abstrata. Fiquei pensando que havia algo de profundamente carioca nisso: celebrar que, pelo menos hoje, ninguém te matou.
MEU DESTINO É PECAR
Uma menina magrinha do famigerado “Espigão do Sexo” — alcunha como o prédio da rua Álvaro Alvim, 37 é conhecido na região — me deixou chupando o dedo na tentativa de um segundo encontro com ela, marcado vinte e quatro horas antes. Aceitei as desculpas da mocinha pelo imenso atraso, mas preferi buscar outra opção.
Comentando com um amigo a desventura, ele me sugeriu a messalina que usa nome de personagem de telenovela italiana: Lunna Rizzo. Dei sorte, o contato foi rápido e ela tinha agenda aberta para uma hora depois. Aceitei. Eu precisava ejacular e o desespero é um negociador pragmático, prefere o acordo com a incerteza do que à impossibilidade indiscutível. O valor de 250 reais do cachê me travou um pouco, mas quando você está se afogando não pode escolher o que é perfeito, você agarra o que flutua. Agarrei a Lunna como se fosse a mulher escolhida para tirar a minha virgindade.
A JORNADA DO HERÓI
O endereço era na Rua das Marrecas, via que guarda um passado de boys, travestis e gays clandestinos que habitavam as sombras porque as sombras eram o único lugar que não os expulsava. Hoje não precisam mais disso. E por sinal, não existem mais sombras na Rua das Marrecas. A rua está iluminada como palco de teatro, holofotes em cima de tudo. Tive dificuldade para encontrar o número do prédio, todos os velhos viram discípulos involuntários do Mister Magoo, farejando o mundo a centímetros do nariz..
Finalmente, avistei o endereço. Do alto de uma guarita — aquela espécie de trono de plástico e vidro onde os porteiros exercem seu pequeno poder soberano — um homem me olhou de cima para baixo com a autoridade de quem controla o único acesso ao paraíso e perguntou-me aonde eu iria, informei a sala e ele liberou a entrada.
Durante o primeiro contato com Lunna, através do WhatsApp, fiz a rotineira entrevista básica de praxe e perguntei, principalmente, se ela beijava na boca. Pode parecer piada de mau gosto, não é. A boca é o que resta aos idosos após a longa jornada libidinosa que percorreram. É o último território sensível, o órgão que envelhece mais devagar, que ainda quer, que ainda sabe o que quer. O resto vai embora em silêncio, sem cerimônia, sem se despedir direito.
— E o pênis? — perguntaria um jovem com aquela ansiedade de quem ainda acredita que tudo gira em torno do pênis.
O pênis, meu jovem, é um cadáver que você carrega na virilha depois de certa idade. Um monumento à glória passada. Uma estátua de praça que ninguém visita mas que a prefeitura insiste em manter por razões sentimentais.
A libido não desaparece — mas se transforma. Deixa de ser onda física, aquela urgência bruta e burra da juventude, e vira outra coisa. Algo mais parecido com espiritualidade. Com psicologia. Com a necessidade estranha e humana de ainda ser tocado por alguém que, pelo menos por uma hora, finge que você existe.
Diante da pergunta sobre o beijo, Lunna questionou-me...
— Você não leu meus relatos no fórum?
Não, não li. Simplesmente porque no Rio não existem mais fóruns, se transfiguraram em sites de classificados poluidíssimos visualmente — e essa palavra, classificados, cheira a jornal de domingo e apartamentos para alugar em bairros sem graça. A liturgia mudou, o negócio é o mesmo.
Os relatos são mala direta corporativa disfarçada de depoimento espontâneo. Alguém adorou, diz que foi incrível, que voltará com certeza. Os textos têm a temperatura emocional de um manual de liquidificador e a credibilidade de um político em ano eleitoral. Garantia de satisfação ou seu dinheiro de volta — quando na verdade não garantem nenhuma das duas promessas.
No Rio, os foristas desapareceram, foram substituídos por monetizadores de sites, trabalham felizes como quem descobriu uma vocação, sem qualquer contrapartida. Querem ser mestres, mitos, lendas e para alcançar a ilusão renunciam à inteligência, na verdade é possível que nem tenham precisado abrir mão. Há uma ambição curiosa nisso — a necessidade de construir uma homenagem a si mesmo num território onde ninguém assina o nome verdadeiro. O anonimato como pedestal. A reputação de mentira. Todo homem quer ser rei de alguma coisa.
Então não, Lunna. Não li seus relatos.
Li você, diretamente.
E foi melhor assim.
O ENCONTRO
Toquei a campainha, a porta se abriu e não vi ninguém, pois as garotas que nos recebem nessas salas sempre estão estrategicamente atrás da porta invisíveis, como boas surpresas deveriam ser. Não tive tempo de pensar. De suspirar. De respirar. Lunna me tascou o beijo. Não o beijo dos relatos que eu não li — o beijo real, o beijo de verdade, de língua feroz e saliva honesta, de conjunção de bocas e lábios que sabem o que estão fazendo. Beijo de traqueias. Foi o suficiente para saber que sairia dali feliz.
Lunna é uma profissional com sensibilidade, ela realmente quer nos oferecer o que esperamos dela. Se empenha. Quer nos provocar o gozo que não seja somente mais um gozo vulgar, ela quer nos dar prazer. Virtude escassa entre as contemporâneas do ofício. O beijo da Lunna é tão profundo que não temos vontade de parar de beijá-la. Eu poderia ter passado o programa inteiro só beijando, mas ela queria o meu sémen, mas o meu pênis nesse dia preferiu o descanso eterno.
Nos atracamos, nos roçamos, nos incendiamos. Lunna é mulher que se entrega.
Não gozei, não por culpa da menina, O réu era outro, e ele estava em silêncio, inerte. O meu pênis se aposentou por invalidez sem aviso prévio. No entanto, fui acometido da sensação de que aquela mulher seria capaz de ressuscitar até defunto — como diz o ditado popular. Marquei e retornei no dia seguinte.
LEVANTA-TE, LÁZARO
Lunna se surpreendeu. Não esperava que eu voltasse — poucos voltam, preferem a vergonha discreta do sumiço ao esforço da honestidade. Mas eu voltei.
E ela operou o milagre que só as melhores conseguem.
Levanta-te, Lázaro.
E no segundo dia do pecado, ejaculei.
LAZARUS – BOWIE