ISA — SOBRE AS ILUSÕES DO ROMANCE

ISA — SOBRE AS ILUSÕES DO ROMANCE

Passei as últimas semanas com pensamentos engasgados. Eu precisava fazer este último relato, o último registro. As palavras brotaram dos meus dedos como a música que jorra sob a batuta de um maestro. Peço que sejam tolerantes com este velho escriba e que me perdoem por qualquer pieguice indefensável.

Foram quase nove meses, cerca de duzentos e quarenta dias, que me dediquei a estar com uma única mulher. Desde junho de 2022 até janeiro de 2023. 

Confesso que me esforcei mais para ser mais amigo de Isa do que simular algo semelhante a um namoro. Ao final, fui levado a compreender, de supetão, que um namoro seria impossível. Sem problemas, meu afeto nunca mudou, manteve-se firme.

Ontem, vi que o anúncio da Isa no ar saiu do ar e senti uma pontada de melancolia. Para o maior entendimento de todos, Isa é uma garota de programa, o que na minha visão nunca foi demérito.

Foram oito meses em que ela me telefonava todas as manhãs, muitas vezes a tarde e algumas à noite. Oito meses em que me acostumei a esperar sua última mensagem antes de dormir. Oito meses de conversas longas, às vezes divertidas, outras vezes tensas. Habituei-me, ela não.

Não conseguia tirá-la muito da sua ilha, da sua pequena sala, para onde me dirigi por incontáveis tardes vadias, durante inenarráveis semanas consecutivas. 

Acostumei-me a levar pão, frios e café da padaria da esquina para tomarmos juntos. Admito, o sexo se tornou secundário, meu carinho por Isa era o carinho por uma menina que eu poderia querer cuidar por oitenta meses e por muito mais do que duzentos e quarenta dias.

Desde que voltei a escrever crônicas eróticas, foi a mulher que mais permiti que visitasse a minha Fortaleza da Solidão na bucólica Tijuca. Foi a única que brincou com a minha cachorrinha e se apegou a ela. Lembro-me de um fim de tarde em que fomos para o meu escritório, confidenciamos e escutamos juntos as nossas músicas favoritas. Como esquecer?

Eu a chamo de menina porque havia nela uma face pueril, um ciúme fútil e dissimulado, uma vontade de se conectar que, ao mesmo tempo, era malograda pela necessidade imperiosa de se proteger, de se resguardar e de desconfiar. 

A ilha de Isa era um castelo quase inexpugnável. Muitos sabiam da história pessoal que ela compartilhava, mas pouquíssimos foram os que souberam de fato onde encarnavam as raízes dos seus verdadeiros amores.

Era doce, era feroz, era infinitamente atenciosa e aplacava a própria carência se apoiando em quem escolhia como referência na sua rotina de trabalho. Não sei se era somente para mim que ela telefonava todos os dias, se era só a mim que ela convocava para as tardes inesquecíveis ao seu lado e em sua pequena caverna. Preferi me convencer de que eu possuía esse privilégio, que eram somente meus esses gestos tão imensuráveis de atenção.

Estar com Isa por tanto tempo significava velejar por um lago sereno, sob um céu azul imaculado, ou naufragar nas ondas de um mar furioso e devastador. Tudo era intenso. A alegria por estar em sua companhia foi afogada, em muitas ocasiões, pelas marés da inconstância do seu temperamento. Felizmente, nunca nenhuma turbulência foi capaz de sufocar a minha perseverança.

A única frustração intelectual que senti ao seu lado ocorreu quando anunciei o relançamento de um dos meus livros e ela não exibiu qualquer interesse pela parceria para me ajudar. Porém, isso não a fez pior para mim. Nada era imperdoável.

Nas últimas semanas antes das suas férias, pressenti pela primeira vez que estávamos nos harmonizando, no afeto e na intimidade. As névoas pareciam se dissipar. Ela ria mais ao meu lado, cismava menos, demonstrava confiança e o desejo de criar um elo. Ou, quem sabe, nada disso aconteceu e eu é que me entreguei aos delírios da ansiedade. Seja como for, sou um otimista e sempre creio no melhor da vida.

Até o último dia em que trabalhou, nos falamos diariamente. Na última semana antes da licença, não consegui visitá-la. Não me aborreci por isso, a dedicação ao trabalho proporcionaria a ela um descanso merecido e sem preocupações. Assim pensei.

Logo nos primeiros dias das férias, Isa silenciou. Minhas manhãs não se iluminaram mais pela sua voz; minhas tardes deixaram de ser temperadas pelo pão-francês, café e frios em sua companhia; meus sonhos se esvaziaram sem as mensagens de boa noite. Tudo cessou. Sem nenhuma explicação, nenhum retorno. Simplesmente desapareceu, como uma estranha que não me reconhecia.

Por que não confessar que sou um velho sentimental? Eu sou. A falta de qualquer sinal de Isa me entristeceu, me ressentiu. Não me desapontei apenas por ter o orgulho ferido ao concluir que fui um mero objeto descartável, lamentei por toda a idealização e deferência pelas quais eu a enxergava.

Isa foi uma das raras mulheres que desejei admirar, é difícil entender o porquê de ela ter preferido se revelar como miragem no último capítulo. Restou-me retornar à aridez da promiscuidade.

Tudo o que era sólido se desmancha no ar, tudo o que era sagrado é profanado — escreveu Marx.

O propósito deste relato, para ser considerado um relato, está em contar que nas últimas semanas, antes do desolador sumiço. Eu e Isa nos conectamos. Se não foi real, não nego que acreditei que fosse. Estávamos próximos, arrisco-me a dizer que estávamos felizes por finalmente dividirmos emoções em comum. Pela primeira vez, em oito meses, ela me presenteou com dois livros comprados em uma visita que fizemos juntos a Biblioteca Nacional.

Como somos duas criaturas que encontram prazer na luxúria, fomos mais do que nunca uma dupla nas brincadeiras libertinas. Mergulhamos nas provocações eróticas. Foi divertido para mim e creio que para ela também.

Nossa fronteira eram os limites da sua sala. As restrições que cercavam Isa se mostravam intransponíveis, tanto pelas dificuldades burocráticas como pela aparente falta de vontade dela em se libertar. As barreiras, no entanto, nunca me impediram de continuar cultivando a ternura.

Como eu disse, sou um velho sentimental. Diante do maremoto do desgosto, sempre escolho guardar as melhores lembranças: o sorriso que me iluminava, o olhar delicado que me observava.

Quem sabe, na minha ingenuidade, eu ainda não esteja esperando para descobrir que entendi tudo errado, que tudo foi real, que nada é miragem. A porta pode se fechar, mas mantenho as janelas abertas para permitir que entre alguma aragem capaz de me consolar.

Que me julguem como ridículo, mas os maiores orgasmos que experimentei na vida derramaram-se do coração.

Se eu não sinto falta dela? Ainda sou um homem que não perdeu a sensibilidade, sinto falta do hábito que tínhamos de conversar, de nos vermos de vez em quando. O que ficou agora é aquele vazio de quem acreditava no outro e o tempo vai mostrando que o sentimento era unilateral. É provável que tudo fosse uma mentira erguida por Isa, um momento de diversão para preencher o tédio entre um programa e outro, a pequena tragédia estava na minha crença de que era real.

Não tem problema, eu transformo decepções em arte. Que se destaque neste texto o valor irrevogável que dou ao afeto e aos que se tornam próximos de quem eu sou. Que a memória seja infinita enquanto dure…

Jornalista. Professor de Língua Portuguesa, Escrita e Literatura. Editor. Escritor.

Uma resposta para “ISA — SOBRE AS ILUSÕES DO ROMANCE”

  1. Lamento pela sua frustração. Esse sentimento de impotência diante de algo que não podemos controlar, é mesmo devastador. Mas a tristeza passa, sempre. Em breve, o velho Dante, libertino de guerra, estará de volta, livre da melancolia, em busca de novas aventuras. Força!

    Acredita que, coincidentemente, ou, diria até, ironicamente, enquanto lia seu relato, tocava no rádio “Come back to me”, da Janet Jackson?!

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