A loira do Tinder

A LOIRA DO TINDER

Meu lábio superior começou a tremer involuntariamente, eu não conseguia controlá-lo enquanto via o vulto se aproximar de mim em passos lentos e firmes. Farei aqui uma pausa para contar a história desde o início.

Fevereiro foi um mês de decepções pessoais imensas para mim, nessas ocasiões sempre me sinto empurrado para o doce abismo da caça sexual. Como já contei, não gosto muito do sexo no esquema delivery, esta coisa de chamar pelo zap para agendar o sexo pago. Sempre necessitei do tempero da adrenalina, do mistério que envolve um encontro.

Tudo aconteceu a partir de um match no Tinder, ela me passou o whatsapp, eu chamei e começamos a nos falar. Laura é o seu nome, suas fotos não eram nítidas, mesmo aquelas que me enviou, não conseguia ver o rosto, mas o corpo me pareceu interessante. Conversamos durante uma semana inteira antes de finalmente marcarmos o encontro, senti a menina muito curiosa por me conhecer, repetia que apreciava homens inteligentes, tento não me envaidecer. Saímos das limitações do zap e nos falamos diretamente ao telefone, ela tinha uma voz envolvente, sexy. Toda essa situação nos excitava.

Como ela não revelou o rosto, a minha insegurança sobre a aparência de Laura se mantinha. Disse morar no Meier, na rua Dias da Cruz, mencionou trabalhar como modelo fotográfico (detalhe que atiçou ainda mais a minha curiosidade) e que não exibia o rosto para evitar exposição desnecessária, garantiu ser bonita. Acertamos nos encontrar à noite, num dia útil da semana. O local seria o próprio Meier, ficava melhor para ela, na esquina da Travessa Miracema.

Na década de 90, funcionava um bordel de luxo na tal Travessa, chamava-se Termas 2001, uma espécie de Centaurus da Zona Norte. A lembrança desse fato não me pareceu um bom sinal, mas eu estava motivado, a garota realmente me despertou o interesse. Apesar de estar evitando dirigir, minha visão à noite não é mais a mesma, sacudi o Sucatão da garagem, acionei o motor adormecido e mergulhei no negrume do asfalto.

Quando embico na 24 de maio, saindo da rua Barão do Bom Retiro, encaixo um CD no aparelho e o som de Radiohead toma a cabine do carro de assalto…

Aquela melodia teve o efeito de uma porrada no meu peito, lançou-me para trás no tempo de uma forma tão brusca que quase perdi o foco na direção do automóvel. Era perto das oito da noite, mas a pista fluía no ritmo suave de um rio descompromissado com o destino.

Sucatão seguia em velocidade de cruzeiro, ladeando as margens castigadas da linha do trem, até dobrarmos à esquerda na rua Dias da Cruz, a Travessa Miracema fica logo no começo, dobrei a direita e estacionei. Pisei com minhas botas naquele território que há tento tempo parei de frequentar, olhei para a direção onde ficava o antigo bordel e nada mais existe ali, fora as lembranças remotas e os fantasmas que emergem das boas memórias.

Posicionei-me na esquina combinada, enviei mensagem avisando sobre a minha chegada. Não demorou, logo avistei uma loira alta, vestida em um macacão branco, cabelos compridos, escorridos e soltos, uma mulher absurda de linda. É verdade, ela só podia ser modelo fotográfica, sua imagem tinha a força de uma explosão nuclear, de um abalo sísmico. Meu aparelho auditivo sincronizou com o meu celular e obrigou os meus ouvidos a vibrarem com uma das minhas músicas pré-programadas.

A música, aquele vulto de um dourado reluzente se aproximando, meu lábio superior começou a tremer involuntariamente, eu não conseguia controlar. Minhas pernas bambearam, não esperavam esbarrar com aquela fêmea descomunal, um match do Tinder… Fiquei ali, esperando que ela chegasse diante de mim, com a sensação de quem estava com a cabeça aguardando a queda da guilhotina. Velho, barrigudinho, imaginei que ela passaria direto, me ignorando. Sinceramente, eu teria ficado aliviado caso ela escolhesse essa opção.

— Você é o Dante? — ela questionou assim que quase colou o corpo no meu.

— Sou, sou, sou eu. Sou o Dante — por pouco, não gaguejei.

— Mesmo com a sua foto, eu te imaginava diferente.

— Eu também — retruquei.

— Melhor ou pior?

— Laura, você é um assombro de linda.

Sugeri que fôssemos dar uma volta de carro, perguntei se ela topava beber um chope na Urca. Aceitou. Entramos no Sucatão, virei a chave e os pneus deslizaram pelo asfalto morno do subúrbio. No meu som, INXS nos brindou com os acordes de Disappear.

Subitamente, quando engato a quarta marcha, Laura põe uma das mãos na minha perna direita. Acredite, forista sem fé, quase tive uma ejaculação precoce. Ela foi puxando assunto, perguntou sobre como tinha sido o meu dia, o meu trabalho, eu me sentia tão intimidado pela sua escandalosa beleza que respondia em monossílabos. Falou sobre o trabalho de modelo, das fotos que faz para anúncios e lojas, da faculdade de Biomedicina que está concluindo.

— Qual sua idade? — perguntei.

— Vinte e cinco e você?

— Sou velho. Não digo a minha idade, pois irei me sentir ainda mais velho se disser.

Laura riu, um riso contido. A mulher, além de linda, possuía um charme espontâneo. Na Urca, sugeri que parássemos em frente a Praia Vermelha, ela gostou da ideia. Estaciono o Sucatão, giro o pescoço para admirá-la e nos beijamos. Foi um beijo faminto, enlevado por uma libido selvagem, nossos lábios disputavam para ver quem engolia quem.

Enquanto nossas línguas se enroscavam, ousei, passei mão sobre um dos seus seios, Laura emitiu um gemido baixinho, jogou a mão sobre o meu combalido pênis. Ousei mais, enfiei a mão sob o macacão e senti a textura da pele dos seus peitos duros, bicudinhos. Ela não fez menção de censurar. O carro queimava, nossos corpos quase em chamas, mas nos agarrávamos mais, nos sarrávamos mais. Eu estava próximo de outra ameaça de ejaculação precoce, lancei meus pensamentos para temas aleatórios, pensei no zoológico, na Quinta da Boa Vista, no incêndio do Museu Nacional. Resisti, mas resistir é inútil, já nos ensinavam os Borgs de Star Trek.

Minha playlist nos envolveu com One, do U2.

— Adoro U2 — ela interrompe o amasso para me confessar sua preferência.

Laura começou a tentar soltar meu cinto, forçar minha calça, ela queria me abocanhar. Transtornado e estabanado, quase tirei a calça pela cabeça. Libertei Pikachu e a garota o abocanhou como se fosse o último pênis do planeta Terra (que tragédia se fosse).

O escritor mais talentoso em qualquer língua não conseguira descrever o boquete de Laura. Ela passava a língua desde a raiz do saco até a cabeça do pênis. Lambia como se chupasse um sorvete. De repente, engolia o pau inteiro e apertava com delicadeza os meus testículos. Eu pressenti que a qualquer momento ia me autoejetar do carro de tanto tesão. Tentei inutilmente fazê-la interromper o boquete, a garota não chupava para agradar, ela gosta, gosta demais.

Com a boca no meu pênis, ela desbotoou a parte de cima do macacão e permitiu que seus seios escapassem. Duas esferas perfeitas com bicos rosados em que ela esfregou meu pau enquanto o devorava. Eu tentei, tentei, porém, não consegui mais. Gozei as entranhas na garganta da menina, ela engolia a minha seiva como quem executa um ritual diabólico. Os vidros do Sucatão embaçados, o oxigênio se esvaiu da cabine, eu precisava respirar.

Recompostos, fomos andar próximo à areia. Ela de mãos dadas comigo. Inebriado, enlouquecido, não conseguia parar de contemplar aquela beldade. O cheiro do mar, as palmeiras, a visão do oceano. Sim, eu poderia me apaixonar por aquela mulher. Infelizmente, no mundo libertino nada é perfeito e eu sempre costumo crer que o meu celibato não é uma opção, mas uma imposição do destino.

Laura me contou que tem namorado, mas que curte encontros casuais, que o parceiro sabe e que praticam o poliamor, um nome moderno para a poligamia. Gentil, afirmou que gostou de mim, que nos veríamos de novo, mas não acredito que aconteça. Retornamos ao Meier, ela desembarcou no ponto em que a encontrei, nos despedimos com um beijo feroz que arranhou nossas línguas.

Antes de nos despedirmos, perguntou se eu poderia dar um “presentinho”, para dar uma força. Eu hipotecaria o meu chalé na bucólica Tijuca por ela. Dei o que eu tinha na carteira e ela partiu.

Manobro o Sucatão, acelero, ligo o som e a cabine afoga-se na voz de Tina Turner com Golden Eye

Os pneus do Sucatão dançavam rasgando a penumbra das luzes de vapor de mercúrio no retorno à bucólica Tijuca. Meu nome? Dante, me chamo Dante. E a partir de agora, qualquer aventura é possível.

Jornalista. Professor de Língua Portuguesa, Escrita e Literatura. Editor. Escritor.

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