A orgia perpétua

A orgia perpétua

O BAR

Sábado, quando a vida acontece… Não me perguntem o porquê, relevem o meu tom repetitivo, mas eu adoro aquela parte remota da Lapa, próxima a Praça da Cruz Vermelha. Quando o Bar das Quengas acabou, senti o vácuo de perder o pouso favorito. Quando reinauguraram com o nome de Boteco Bacurau, corri de volta à toca do lobo.

É um ritual. Escolho a mesa mais discreta, sento-me, peço o meu uísque e entro no modo contemplação. É o ponto de partida, o lugar onde sinto a temperatura da noite, onde me enveneno com doses ilimitadas de álcool. O único porém do meu hábito de beber nos fins de semana é que saio sem o Sucatão. O prevenido vale por dois.

Quando alcanço o grau em que o mundo ao redor começa a brilhar mais forte, quando sinto aquela euforia clandestina me invadindo vaporosa como uma fêmea no cio que chega para me arrebatar, quando me vem a vontade de dançar ao ritmo da música que vaza dos meus aparelhos auditivos conectados ao celular, quando tudo isso acontece na sincronia inevitável do ébrio, é a hora em que me levanto e sigo em alguma direção aleatória.

Estranho foi pagar a conta, me erguer da mesa e no mesmo instante a melodia de Billy Idol transbordar para os meus tímpanos…

BILLY IDOL

Acredite, forista sem fé. Senti um tipo de elevação espiritual que já não experimento na mesma constância em que sentia na juventude. Foi quando uma ideia imprudente me tocou o pensamento. Decidi ir sozinho ao swing do Mistura Certa, pois as boas companhias femininas estão raras e inconstantes para essa modalidade mundana.

VIA CRUCIS

A parte remota da Lapa não é para qualquer um, é para os ousados. As ruas são mais desertas, seres estranhos cortam nosso caminho, a Praça da Cruz Vermelha é uma colônia de miseráveis indigentes e a Rua 20 de Abril, onde está o swing, é tenebrosa. O velho puteiro que ficava ali aberto dia e noite, na esquina com Rua do Senado, o bom Feitiço do Tempo, acabou.

Há os suspiros de outras eras que emanam da carcomida casa onde nasceu o Barão do Rio Branco, hoje profanada e em ruínas como todo o resto do Centro da Cidade.

Já citei em outros relatos, não sou corajoso, sou abusado. Ando com o cu na mão por essas vias apartadas da existência, mas também sou alimentado pela adrenalina, o único antídoto para o tédio irreparável que a idade e as vivências excessivas me trouxeram.

Cheguei ileso ao Mistura Certa, mesmo com o caminhar tortuoso do ébrio. Na recepção, pergunto se posso entrar como solteiro. A resposta positiva veio acompanhada do valor para a permissão: 270 reais.

ORGIA PERPÉTUA

Hesitei. O preço excessivo quase me fez ficar sóbrio. Tudo bem, a vida é uma só e eu já estou velho para cacete. Aceitei. Foi a primeira vez que escolhi entrar no swing sozinho. Posso dizer que também foi a última vez que fiz isso.

O Mistura Certa é animado nos fins de semana. A casa estava repleta de casais e alguns solitários como eu. Não posso negar, me invadiu uma incômoda melancolia por estar sem um par naquela noite. A boate é bonita, como já me referi em outros relatos. Assim como o atendimento é satisfatório. Vi uma mulher colossal vestida com um uniforme branco, fiquei na dúvida se era a massagista das noites de sábado, mas a preguiça de perguntar superou a curiosidade. Talvez, tivesse sido a salvação da noite.

Pedi mais umas doses de uísque, foi a única maneira de contornar a depressão causada pela escolha que fiz. Em determinado horário, fui em direção ao labirinto e vaguei pelos corredores. Imagine, afeiçoado, um senhor barrigudinho esperando o milagre de ser assediado por alguma mulher presente. Na cama coletiva, a suruba rolava solta. Um pouco zonzo, aproveitei para sentar-me numa das extremidades mais reservadas do colchão, não reparei o casal que trepava eufórico perto dali.

Subitamente, senti uma fisgada na virilha e percebi a mão que pegava meu pau com brutalidade. Girei o pescoço para ver de onde partia o ataque. Perdoem-me pelo que irei dizer, não gosto de retratar ninguém desse jeito, mas era uma mulher pavorosa, carrancuda, a impressão que tive é de que ela estava com uma máscara carnavalesca de Bate-Bola.

A Bate-Bola insistia em abrir o zíper da minha calça enquanto gemia no vai e vem das estocadas do homem atrás dela. Cansado, bêbado, me veio o pensamento: não tem tu, vai tu mesmo.

Afrouxei o cinto, arriei a calça e a criatura me abocanhou com a fome de uma piranha do rio São Francisco. A mulher era esquisita, mas o boquete se revelou sublime e me nocauteou em velocidade recorde. A surpresa foi que ela engoliu o meu gozo e ainda lambeu os lábios como uma canibal insatisfeita. Se tratando dela, não foi uma visão excitante, fiquei aterrorizado.

Não havendo mais o que fazer ali, desci à recepção, paguei a conta, pedi um táxi e sintonizei meus fones na música epilogal…

THE CURE

O relógio da Central do Brasil despontava embaçado para os meus olhos através da janela do táxi, os ponteiros se aproximavam das 4 da madrugada. Eu me senti sozinho, muito sozinho, mas sempre soube que esse é o preço da liberdade absoluta, é a jornada que constrói a fé em si mesmo. Navegar é preciso…

Jornalista. Professor de Língua Portuguesa, Escrita e Literatura. Editor. Escritor.

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