Cine Íris

Cine Íris

“O amor de bordel é uma calculada competição entre trapaceiros.”
—by Dante

Foi no verão do ano de 2023 que estive nesta icônica ruína que já foi referência cultural e arquitetônica em tempos melhores do Centro da Cidade. Não me recordo o motivo que me fez não escrever o relato, talvez pelo imperdoável preconceito que nos ronda e pode nos possuir se não estivermos atentos. Não nego, minha curiosidade por entrar no Cine Íris sempre existiu, não tanto pela degradação sexual que habita o seu interior, mas sim pelo desejo de guardar o registro das imagens históricas na memória.

O fim de tarde se aproximava, os tons suaves da luz vespertina começavam a recobrir a desvalida Rua da Carioca, acentuando a melancolia das lojas fechadas, dos sobrados abandonados e adormecidos nas fileiras das calçadas inertes que perderam o brilho da vida.

Há anos existem os shows de strippers anunciados sem pudores na entrada do estabelecimento. Desde o seu declínio definitivo, é disso que sobrevive o Íris, mas ele também já foi palco das grandes festas eletrônicas de Dj’s por um breve período. Através de um amigo, ouvi falar que seria possível pegar mulheres lá dentro, justamente algumas das que se apresentavam nos conhecidos espetáculos de nudismo. Sou um homem de boa-fé, acreditei.

Novamente, o preconceito me causou um certo constrangimento quando parei na entrada do Íris para comprar o ingresso. Superei o desconforto e entrei. Há uma entrada para o salão na lateral da parte de baixo e uma escada que nos leva ao balcão do antigo cinema. Iniciei a exploração pelo primeiro andar.

O lugar se mostrou previsivelmente escuro. Uns poucos vultos circulavam como almas penadas em busca da improvável redenção. O entra e sai do banheiro parecia mais intenso do que a quantidade dos presentes. Vi alguns crossdressers em postura de caça. O Íris é, teoricamente, um cinema, mas não existe tela no seu interior, o que vemos é um grande palco improvisado.

Encostei-me num canto discreto, um observador, quis ganhar tempo para adaptar os meus olhos à penumbra espessa e mapear com mais segurança a geografia intimidadora do local. Subitamente, o som de música explode altíssimo e preenche toda aquela caverna.

Earned It

As luzes do palco piscam antes de se firmarem em um brilho fortíssimo. Sinto batidas pesadas se aproximando e vejo uma mulher de cabelo roxo, pesando uns noventa quilos, surgindo rebolativa, coberta por trajes mínimos e com ares de atriz decadente de Hollywood. Acontecia o primeiro show.

Busquei uma das poltronas para me sentar, todas elas estavam estranhamente vazias, somente um coroa aparentava estar bem acomodado em uma das últimas fileiras. Sentei-me e senti que não havia forração no estofado, estava cru, na espuma. Quando tentei me ajeitar, para ficar mais confortável, a coluna inteira de cadeiras ameaçou tombar impulsionada pelo meu peso. O cheiro de mofo emanava mais forte na área das poltronas.

Envergonhando do quase tombo, dei uma pausa por ali mesmo. O show da pesada mulher de cabelos roxos mais me assustava do que excitava. A moça retirou os pedaços de pano sobre a pele para revelar as grandes proporções desnudas, carnudas e afrontantes da sua estrutura física. O espetáculo não durou muito se fosse marcado pelo relógio, mas me deixou uma sensação de eternidade.

Quando meus olhos se acostumaram à escuridão, avistei um velhinho se entregando com ardor de paixão a uma trans. Levantei-me e decidi ir conhecer o andar superior. É nesse andar, onde supostamente ficava o balcão do cinema, é onde também se localiza um dos banheiros. O movimento é maior ali, vultos masculinos e presumivelmente femininos entram e saem pela mesma porta, deslizam como entidades que guardam segredos inconfessáveis.

Não que houvesse tensão no ambiente, mas eu estava tenso. Ocorreu outro show, dessa vez com uma mulher tão magra que me fez lembrar um faquir indiano. Dançou, despiu-se e saiu de cena. Minha vontade de continuar no Íris estava se esgotando. Identifiquei um sujeito que me pareceu colaborador ou frequentador habitual e me aproximei para perguntar sobre a possibilidade de um amasso remunerado com alguma das mulheres que se apresentaram.

— Ah! Sim, sim. Dá sim. Faz o seguinte, o senhor se senta lá embaixo que vou desenrolar pra uma delas chegar junto — o sotaque de malandro de subúrbio me deixou ressabiado. Muito solícito, porém, o sujeito me causou a impressão de ser atendente de delivery.

Quando as luzes do palco se apagam, o breu toma conta do Cine Íris. Alcancei uma poltrona antes que as trevas absolutas me alcançassem. Quem me conhece sabe que sou surdo e enxergo mal, sou pior do que o Mister Magoo em lugares com pouca iluminação.

Sinto um toque de dedos no meu ombro direito, olho e identifico um vulto presumivelmente feminino. Ouço um sussurro muito baixo me perguntando se pode sentar ao meu lado. Assenti e ela se acomodou.

— O Carlos falou que o senhor queria um boquete — a voz baixíssima, beirando o inaudível, me informa como quem pede um novo consentimento.

— Pode ser — respondi.

Ela diz o valor do cachê.

— Ok — respondo.

As mãos camufladas pelo blecaute do salão começaram a afrouxar meu zíper, uma delas puxou meu combalido pênis para fora e o abocanhou com a habilidade da experiência. Digo a você com toda sinceridade, eu não enxergava nada neste instante. Exausto, não me importava mais com o estado insalubre das poltronas (que atualmente, me disseram, estão interditadas). Veio então o inusitado, o impensável, o imprevisível…

As luzes do palco voltaram a piscar até se estabilizarem num brilho de cegar os olhos. Ergue-se uma música altíssima…

“Conheço este som” — pensei.

Uma loira vestida de vermelho e oculta por uma máscara adentra o tablado, a música sobe ainda mais.

SAW

Reconheci os acordes, era o tema de “Jogos Mortais“. Estremeci de terror. Foi como se tudo ganhasse sentido. Fugi.

Tal qual o nobre colega que se aventurou antes de mim, me prometi: Nunca mais! Nunca mais!…

Game over.

Jornalista. Professor de Língua Portuguesa, Escrita e Literatura. Editor. Escritor.

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