The Cure

The Cure

SOLUM

Acometido por uma insônia insistente, arremessei-me às ruas como um detento que foge do cárcere. Um dia útil qualquer da semana. A intermitente chuva fina concedia o brilho pálido das luzes de vapor de mercúrio ao asfalto e às calçadas. Chamei um táxi e pedi ao motorista que me deixasse no Boteco Bacurau, uma nova versão do falecido Bar das Quengas.

Gosto dessa parte mais desterrada da Lapa. De um lado o Boteco Bacurau e do outro o Beco da Noite, um moderno e o outro enraizado na decadência dos tempos idos, mas que ainda finca os pés em uma boêmia que o mantém aberto 24 horas. Sentei-me sozinho na parte externa e pedi o meu uísque.

Aprecio beber e deixar fluir os pensamentos pelo efeito do álcool. Sobre o sexo, já provei tudo que minha libido me apontou, nunca fui homem de preconceitos quando a missão se resumia a buscar o prazer.

Atravessei muitas fases da noite do Rio, conheci a Lapa obscura, decaída, frequentada por fantasmas traiçoeiros que vagavam pelas esquinas. Conheci os forrós, celeiro de mulheres oferecidas; as boates da zona sul, da Barra, de São Conrado; descobri os swings desde o surgimento deles; me aventurei por todos as vielas e pelos recantos que me prometessem um novo orgasmo.

Certa vez um forista me chamou de Highlander, talvez eu seja, envelheci, não estou em forma, mas ainda não me cortaram a cabeça. O prêmio disso é que me restou pouco para desvelar e o tédio me assombra incansável neste último ciclo da minha jornada.

Sou um personagem movido pelo imprevisto, por isso não é surpresa o fato de que nunca aderi ao matrimônio, essa ilusão monogâmica que fabrica os nebulosos adúlteros. Sou passional, mas não sou prisioneiro. Com a visceral convicção de me manter livre, também evitei procriar. O preço dessas escolhas foi a contemplação de uma liberdade abissal que muitas vezes me oprime. A solidão é uma mulher possessiva.

Por todos esses motivos, me surpreende quando leio indivíduos escrevendo relatos reincidentes com as mesma garotas, algumas que eu conheci e em nenhuma delas identifiquei qualquer virtude que me motivasse a reencontrá-las. Suponho que eu já esteja em outro patamar, uma posição que o contexto da vida não permitiu que esses sujeitos de falsas alianças alcançassem. Provavelmente, é o melhor para eles.

Nunca bebo destilados sem ingerir goles generosos de água simultaneamente. Tornei-me imune à ressaca, mas não aos efeitos inebriantes do álcool. Depois de não sei quantos copos de Black Label, não conseguia mais focar os olhos com precisão, o corpo imbui-se de uma leveza descoordenada, as pernas presumiram flutuar ao invés de tocar o chão. Paguei a conta e admito que deixei o bar cambaleando, em avançado estado ébrio.

TENEBRIS

Não me agradava seguir em direção ao miolo da Lapa. Emparelhei o celular com o aparelho auditivo e escolhi a música que pudesse me despertar os sentidos anestesiados…

THE CURE – LOVE SONG

A melodia me fez entrar em uma conexão catártica com o êxtase da madrugada. Atravessei a Avenida Mem de Sá, passei ao lado do Beco da Noite e segui pela rua transversal. Não ouvia qualquer outro som que não fosse o The Cure inundando os meus tímpanos. Um gato me fitou da janela de um edifício carcomido pelas eras. Nada em volta. Tudo era vácuo. Prossegui pisando no concreto com as botas acorrentadas às minhas pernas impulsionadas por ideias abstratas.

Eu estava vestido de preto, tenho predileção por tons escuros. Sou uma alma gótica. Ia camuflado, me embrenhando pelas ruelas profundas do Centro da Cidade. Se sou corajoso? Não, nunca fui e é por isso que me arrisco, sou movido a adrenalina, o único antídoto que me faz sobreviver ao meu próprio fastio pelo mundo.

Avistei duas mulheres paradas em frente a um portão quase dissolvido pela ferrugem e decorado por uma lâmpada vermelha, elas também me viram e me encararam. Estanquei o passo. O que é o destino, afeiçoado leitor? E como ele prega peças nos homens sem fé.

Uma das mulheres me pareceu bonita, uma morena de longos cabelos cacheados, encaixada em uma minissaia justíssima que não nos poupava de salivar pelas coxas grossas que exibia sem pudor. Ela me fez um sinal e me aproximei. Como eu disse, meus olhos estavam com dificuldade para focar imagens estáticas, mas me esforcei.

— Quer gozar, amor?

De algum ponto da rua, subitamente, rompeu uma voz potente gritando como se fosse para mim…

— É TRAVESTI, COROA!

Sinceramente, não posso acreditar que fosse. A concentração dos travestis da Lapa fica, justamente, nos arredores da Rua Gomes Freire, no entorno dos Arcos e eu estava distante desse ponto. A mulher transbordava feminilidade, a voz adocicada, a pele de cetim. Não que travestis não possam ser femininas, não cultivo essas discriminações, mas não duvidei do gênero da persona à minha frente, mesmo que a embriagues pudesse embaçar o discernimento.

VOLUPTAS

— E aí? Quer gozar, meu bem?

— Quanto e onde? Estou sem carro — respondi.

— É cem reais aqui no meu local. Quer ver?

Puxou-me pelo braço, atravessamos o portão de ferrugem enfeitado com a luz vermelha, circundamos um espaço que suspeitei ser uma garagem, desembocamos nos fundos de um sobrado a beira do desabamento e entramos. O cheiro de mofo quase me despertou do porre, a menina me conduziu por dois lances de escadas e me vi em um salão imenso ornado por colchonetes no piso ancestral, sem nenhuma divisória.

— Que lugar é esse? — derramei a curiosidade irrefreável.

— É a Calígula — lembrei-me de um inferninho daquela rua, mas não exatamente com o nome que ela citou.

A garota me disse que ali funcionou uma antiga boate e que ela e algumas amigas tentavam reabrir. Não havia vestígio de boate, só ruínas não identificáveis de algo subterrâneo que existiu no local. Não sei como, mas a luz funcionava, a água idem. Lavei o rosto na pia amarelada de um banheiro em destroços e enxuguei-me com a camisa.

A garota me conduziu a um dos colchonetes, me deitei. Vi que em um canto mais distante um outro sujeito transava com um vulto feminino que estava de quatro. Disse a menina que eu desejava somente um boquete, ela abriu o meu cinto, arriou minha calça e me abocanhou com força. O pileque me faz mais sensível, gozei rápido, paguei e me recompus. Perguntei o nome da moça: Michele.

Retornei às ruas sombrias, acionei novamente o meu celular e deixei que outra melodia me embalasse de volta para casa.

THE CURE – A FOREST

O libertino vive.

Jornalista. Professor de Língua Portuguesa, Escrita e Literatura. Editor. Escritor.

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