Barriga 4X4

BARRIGA TAMANHO 4X4

— Adoro homem barrigudinho.

Enquanto desenvolvia a apologia à minha inconstante obesidade, a menina dava uns tapinhas carinhosos no meu abdômen. Velhos são sentimentais, não nego que me comovi com o elogio da moça, quase a ponto de sentir os meus olhos marejarem de emoção. Em um mundo que enaltece a frivolidade das barrigas tanquinho, a minha pança se sentiu finalmente acolhida pela simulação do afeto. A mentira é um emplastro que anestesia as realidades devastadoras da vida.

Eu estava na 4X4, lugar pelo qual desenvolvi certo nível de aversão, tanto pelos preços quanto pela má vontade ostensiva que as mulheres demonstram quando entram no quarto, um contraste com o mel que elas nos derramam quando tentam nos capturar no salão da boate. Como justifico a minha presença em uma casa que afirmo não gostar e que nos cobra os olhos da cara? Explico a minha decisão com base na absoluta ausência de boas opções noturnas. Fora os trashes, a 4×4 é o único bordel que sobrevive às ruínas do Centro, talvez persista por ter sobrevivido à própria incineração que a acometeu há alguns anos. O fato é que eu estava lá, incrédulo por estar lá.

Não satisfeita em estapear a minha barriga, a mulher avançou para abraçá-la, o que me gerou algum constrangimento. Tratava a minha pança como um ser vivo autônomo, separado do meu conjunto físico. É possível, caso ela pudesse optar, que dispensasse a minha presença e subisse à alcova somente com a minha barriga ovalada, que por sua vez me pediria impudicamente para que eu a esperasse retornar da conjunção carnal.

Para mudar o foco, perguntei o nome da aficionada em buchos protuberantes.

— Valéria. E o seu?

— Dante. Meu nome é Dante.

Sentamo-nos em um canto discreto e empreendi a entrevista básica, sem pretensão de escalar as escadas até o quarto. Ocorreu que a Valéria foi aprovada com louvor nas respostas aos meus questionamentos, com uma única estranha ressalva, a menina continuamente desviava os olhos dos meus olhos para encarar o meu umbigo, que se exibia assanhado por uma fresta do roupão puído que me ofereceram no vestiário. Valéria não parecia ter somente uma preferência pelos barrigudos, a situação começava a se revelar como uma tara.

Barrigas não possuem glamour, mas a minha deve ter neurônios, pois pressenti a preocupação dela reverberando no estômago e no intestino. Literalmente, senti um frio na barriga quando a garota, mais uma vez, tentou abraçá-la enquanto estávamos sentados e conversando. Que psicopatia seria essa?

Desisti de pensar sobre o assunto. Afinal, foi na 4X4 que uma das messalinas me ofereceu um kit de Herbalife num passado não muito distante. Criaturas exóticas me perseguem.

GOL DE BARRIGA

Com Pikachu — o Breve — sentindo-se desprezado, decidi oferecer a minha barriga ao sacrifício. Não me perguntem o porquê, mas o fetiche da cortesã se mostrava tão intenso que terminou me excitando pela curiosidade científica de investigar o fenômeno com mais atenta profundidade. Pedi uma alcova.

Já no quarto, tomei um banho e desnudei-me. Valéria já me esperava nua na cama, um corpo interessante, curvilíneo e com relevos atraentes. Deitei-me, a menina saltou sobre o meu tronco e agarrou-me como a ferocidade de um bicho-preguiça, fiquei imobilizado. A mulher lambeu meus mamilos, desceu com a língua deslizando sobre a minha barriga e mergulhou no meu umbigo como se sorvesse um prato fundo de sopa. O nível da perversão dela por determinados itens do corpo alheio é assustador.

O tempo era curto e Pikachu não dava sinais de entusiasmo. Prestes a encerrar o encontro, Valéria voltou a lamber o meu umbigo enquanto me masturbava. Gozei de medo e nos despedimos.

A VIDA PULSA

Trajando roupas escuras — minha predileção — misturei-me às penumbras noturnas do desértico Centro da Cidade e resgatei o Sucatão num ponto remoto da Rua Buenos Aires. Retornei à bucólica Tijuca.

Passava das 22h quando estacionei o carro na Praça Xavier de Brito. Caminhando em direção ao meu chalé, cruzo com uma ninfeta despudoradamente comprimida em uma malha de Crossfit, passeava com um cachorro. O meu combalido pênis saltou pressionando a minha calça de dentro para fora. Até que o tempo me castre definitivamente, a vida pulsa e o libertino vive.

Jornalista. Professor de Língua Portuguesa, Escrita e Literatura. Editor. Escritor.

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