Godiva de Cascadura

A Godiva de Cascadura

Tarde morna. Cheguei no Largo de Cascadura pelas quatro horas. Não havia muito movimento, uma calmaria de preguiça anunciava o crepúsculo do sábado. O motivo da minha viagem, saindo da bucólica Tijuca até o coração do subúrbio, se resumia em um encontro marcado com uma garota do Tinder que tem o nome de Karina.

Pelas fotos do aplicativo, Karina se mostrava uma ninfeta loira, uns 25 anos de idade, falsa magra, pernas bem torneadas, sorriso estampando um aparelho odontológico e olhos disfarçados por óculos de aro redondo. Não havia beleza extrema em seus traços, mas vibrava na sensualidade de um corpo escandalosamente provocante. 

Estacionei o Sucatão e aguardei. Fiquei surpreso ao reparar que a boate Rout 77 acabou. A menina se atrasou um pouco. Quando surgiu, veio como uma alvorada inesperada e sexy. Emoldurada por um vestidinho branco curtíssimo, pernas à mostra, um top decotado, pele bronzeada, cabelos loiros desaguando em cachos pelas costas… visão de afrontar o fôlego dos pedestres. Ela reconheceu o meu carro pela descrição que ofereci, se aproximou da janela, me tascou um selinho e me convidou para desembarcar do veículo.

— Não seria melhor sairmos daqui para outro lugar em que pudéssemos bater um papo tranquilo? — sugeri.

— Por que não ficamos por aqui mesmo e vamos namorar dentro do cinema? Há muito tempo não namoro num cinema — o cinema ao qual ela se referia é o Cine Regência, um conhecido point de pegação gay às margens da linha de trem.

— Não sei… é estranho — respondi — a menina se revelou agressivamente direta nos seus objetivos, um espírito aventureiro raro de se encontrar atualmente.

Karina silenciou. Com receio de que ela desse alguma sugestão ainda pior, decidi aceitar o cinema. Paguei a nossa entrada, subimos uma antiga e decadente escada em curva, adentramos em um hall espaçoso que formava a última etapa antes da sala de projeção.

Um filme pornográfico na tela, a sala numa escuridão profunda, vultos masculinos transitando pelos corredores laterais como se fossem almas penadas emergindo do passado remoto. Eu não enxergava nada, Karina me conduziu pela mão e sentamo-nos na altura da metade das fileiras de poltronas. Avancei para beijá-la na boca, ela retribuiu colocando a mão sobre o meu combalido pênis.

— Se eu fosse mulher, iria dizer que você é um homem apressado — brinquei.

— Ué? Não é isso que você quer? — ela insistiu nas investidas ousadas.

Voltei a beijá-la enquanto descia o seu top, os seios pequenos, de biquinhos rosados e durinhos, pareciam suplicar para serem mamados. Mamei como um bebê na primeira manifestação da fome. Karina gemia baixo, apertava mais forte o meu pau. Ergui o rosto para beijar novamente sua boca e no trajeto até os seus lábios tive a impressão de avistar um homem fazendo sexo oral em outro homem mais à esquerda de onde estávamos sentados. Nossas línguas se enroscaram alheias às sodomias penumbrosas que nos rodeavam.

Um puxão na minha calça, Karina queria arriá-la. Colaborei, abri o cinto, o zíper, contorci meu corpo e a calça foi ao chão. A mulher pega no meu membro, simula a masturbação e o engole inteiro com um movimento de maxilar que me lembrou um crocodilo faminto. Incansável, me chupou muito, em vários momentos quase me despertou a ejaculação e quando eu estava próximo do gozo supremo senti uma mão pesada alisando o meu ombro. Um velho com olhos de depravação alisava o meu ombro. Levei um susto e brochei. Karina percebeu o velho se insinuando e quis puxar a mão dele para pegar o meu pau.

— Não, não, não. Isso não — cortei o barato inconveniente da moça.

O idoso sentiu que não era bem-vindo e se afastou. Karina levantou o microvestido, tirou a calcinha e montou sobre o meu desconfiado pênis. Começou a rebolar, quicar, gemer. A pornografia da tela despertava menos interesse do que o show que a ninfa improvisou para a pequena multidão LGTBA que nos rodeava. A ousadia feroz da garota, a situação absolutamente inusitada, os movimentos da vagina sobre a minha virilha… Gozei todas as páginas do Kama Sutra.

Depois da inesperada apresentação de sexo ao vivo, deixamos o cinema. Ela entrou comigo no Sucatão.

— Gostou? — fez a pergunta.

— Muito — respondi.

— Então… bem que você podia me dar um presentinho agora, né? — finalmente, ela revelava a única verdade de todos os acontecimentos do nosso encontro.

— Dinheiro? — ainda não sei o porquê de ter feito pergunta tão idiota.

— Bala Juquinha que não é, gato? — ela riu após a justa resposta.

Puxei cem reais e entreguei com receio de que ela reclamasse do valor, mas aceitou com um sorriso.

— Não precisa me levar, eu moro aqui perto — avisou.

Desembarcou do carro e desapareceu numa esquina. Acionei o motor do meu velho companheiro inanimado e os pneus giraram em direção ao viaduto. A noite estava prestes a engolfar a cidade, a cobri-la com a lua e suas estrelas. A vida pulsa e o libertino vive.

Jornalista. Professor de Língua Portuguesa, Escrita e Literatura. Editor. Escritor.

Uma resposta para “Godiva de Cascadura”

  1. Tão interessante quanto o relato da aventura em si, é descobrir que, dentro da cidade onde vivo, ainda existem tantos submundos desconhecidos, voltados para a prática da libertinagem. Conheço um pouco essa parte de Cascadura e jamais imaginei que ali houvesse um estabelecimento desse tipo.

Deixe uma resposta