Ebony

EBONY

APOCALIPSE

Envelhecer me incomoda. Infelizmente, só descobrimos os efeitos psicológicos e físicos do envelhecimento quando alcançamos esse patamar. A juventude e a jornada até os quarenta anos nos blindam com uma arrogância intrínseca que serve de muro para que não avistemos o que há do outro lado.

Sempre fui crítico e autocrítico, atualmente sou muito mais. Uma pessoa crítica precisa estar atenta para não resvalar em direção aos preconceitos. Ao mesmo tempo, não consigo me libertar do senso de ridículo. Jamais serei um desses velhotes exibindo-se sem camisa, ansioso por ostentar o corpo enrugado tal qual uma vedete de teatro de revista. Não vou por aí, não me atrevo a expor as minhas protuberâncias adiposas e, mesmo que eu fosse um Schwarzenegger, não cometeria esse delito que só cabe aos pavões que nascem com a genética do espalhafato. Carrego a alma de um britânico discreto perdido nestes trópicos de manadas obtusas.

A questão é que a velhice, além da degradação física, nos empurra para um exílio involuntário. Existe uma contradição que se impõe com o avançar da idade, é quando o corpo definha e a mente remoça. Não nos sentimos velhos, mas somos. Mesmo o espelho nos mente com a ilusão de que não estamos tão mal assim. Queremos mentir para nós mesmos e não conseguimos.

Mulheres jovens começam a nos olhar mais com repulsa do que com desejo. Fica estranho entrarmos em determinados locais onde só o fulgor da juventude frequenta. Dizer eu te amo soa como um tango composto por algum argentino cafona. Um velho é aquele que caminha às margens do precipício sabendo que em algum momento imprevisto terá que saltar. Envelhecer é ganhar a consciência da finitude de muitos aspectos da vida.

INSURGENTE

Tornei-me um velho com senso de ridículo extremo. Ao mesmo tempo, em contradição com a minha essência discreta, carrego um DNA gaúcho que me faz um insurgente. Tenho preferência por mulheres jovens, frequento lugares de jovens, não me importo de me sentar sozinho em qualquer que seja o lugar, não fico deprimido bebendo sem companhia e sou tomado por ondas de euforia quando estou só. Nunca serei um desses idosos que se sentem solitários, pois sou apaixonado pelo flerte com meus próprios pensamentos.

Eu estava ensopado de todas essas reflexões quando uma música emergiu de um boteco, tocou meus tímpanos e me arremessou bruscamente ao passado, ao meu auge, me vi flanando no imaginário da década de 80.

CARELESS WHISPER

INTERSEÇÃO TEMPORAL

A pior doença da meia idade é a nostalgia.

O relógio marcava quase duas horas da madrugada quando pisei com minhas botas sobre a pista da Rua Ceará. A região estava escura, sombria, mais do que o habitual. Nesta época em que celebramos as luzes, lugares como a Vila Mimosa se alimentam da luz da mesma forma que buracos negros espalhados pelo universo.

Se há um ponto geográfico na cidade que me viu jovem e agora me vê em decomposição é a Vila Mimosa, é a minha interseção temporal. Eu a conheci ainda no Estácio, como a última resistência da Zona do Mangue, estravamos nela por uma rua chamada Miguel de Frias, que foi extinta pelas obras do metrô. Era literalmente uma vila, quando ainda labutavam muitas prostitutas das antigas. Foi lá que degustei uma das loiras mais fabulosas que conheci.

No segundo dia de 2024, pois na madrugada já se erguia o dia dois, a zona estava deserta. Eu podia ouvir o estalar dos meus passos reverberando no silêncio que devorava os arredores da Rua Sotero Reis. Dentro da Vila transitavam algumas mulheres e uns poucos homens perdidos, mais perdidos do que as mulheres perdidas.

Para frear a melancolia que aquele cenário causava, emparelhei o meu celular com os aparelhos auditivos e deixei que a adrenalina do Captain Hollywood Project, com Impossible, me impulsionasse pelos corredores da luxúria. A música é a minha companheira na noite. Noite sem música é mulher mutilada.

IMPOSSIBLE

Sentei-me no bar de uma das casas que estavam abertas, pedi uma bebida qualquer e entrei no meu habitual estado de contemplação. Não sei por quanto tempo fiquei bebendo, o sentido das horas despareceu até que surgisse a mulher que eu possuiria naquela noite.

EBONY

Negra, com uma bunda vastíssima, cinturinha de pilão, um rosto de traços finos, bonita e exótica em comum acordo. Apresentou-se como Ebony, disse ser o seu nome verdadeiro, explicou que a mãe é fã de Paul McCartney. A vida é incrível, ainda me surpreende com essas histórias romanescas.

A Vila Mimosa é um lugar que passei a renegar, a prometer que nunca mais irei, mas acabo cedendo e volto a pisar sobre os paralelepípedos libidinosos. Não consigo mais fazer sexo naquelas alcovas insalubres, mas combinei com Ebony um boquete completo, ela não expressou restrições. Trancamo-nos num dos buracos lúbricos da casa.

Acertei na escolha, Ebony me arrebatou com um boquete quase sobrenatural. Senti como se o meu combalido pênis estivesse mergulhado em uma chaleira de água quente, ao mesmo tempo em que me relaxou, senti as ondas vulcânicas do orgasmo se manifestarem rápido. Gozei hectolitros na boca da menina, que engoliu tudo e ainda lambeu os lábios. Em menos de quinze minutos eu estava de volta aos paralelepípedos. Percebi que o céu ganhava um tom sutil de claridade.

Caminhei para o Sucatão, acionei o motor, introduzi um CD aleatório e deixei que a música inundasse a cabine do carro.

I’M GOOD

O ano de 2024 é uma combinação de números que me remete aos filmes de ficção científica. Não importa, enquanto os pneus do meu velho automóvel rangiam sobre o negrume do asfalto, eu mandava um recado para o tempo: Dante is alive.

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Jornalista. Professor de Língua Portuguesa, Escrita e Literatura. Editor. Escritor.

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