Verena

Verena

A luz do Sol castigava a cidade, incinerava pensamentos, queimava hereges imprudentes nas esquinas vadias. Durante o dia, o Rio de Janeiro é um balneário incandescente que não consegue mais esconder sua vocação gótica. Eu detesto o Sol, detesto o calor, detesto as cores fumegantes refletidas pela areia das praias, pelo colorido deselegante das roupas. Minha alma é cinza e fria como a de um britânico exilado nestes trópicos de manadas obtusas.

Sintonizo meus aparelhos auditivos com o celular e deixo que a playlist escorra pelos meus tímpanos…

COLD EYES

Dancinha

Cold eyes… Olhos gélidos cruzavam com a minha presença excêntrica e deslocada. A luz da tarde não me reconhece, despreza personagens noturnos. Saí de um almoço na Churrascaria Carretão, na caótica Copacabana, e fui caminhar pelo calçadão. Calça comprida, camisa social, eu era um eclipse diante da solar paisagem oceânica.

Decidi entrar em um bar aleatório. Arrisquei pedir um Hi-Fi com a certeza de que o garçom não saberia do que se tratava. Enganei-me, minutos depois me chegava um copo volumoso e alaranjado, o odor do álcool me causou euforia, bebi quase todo o líquido gelado e rascante num único gole. Pedi outro, pedi um terceiro. As pupilas se dilatam, os brilhos se intensificam, a felicidade me invade como uma batida da Polícia Federal às 6h da manhã. Resistir é inútil.

Há um prazer que é mais avassalador do que as repetições insaciáveis do orgasmo, é este prazer marginal de quebrar a rotina, de se libertar dos grilhões das responsabilidades, de chutar o balde e desviar-se para si mesmo, escolher existir em um dia em que você também escolheu se reencontrar.

Comecei a fuçar o telefone, anúncio de mulheres, sites, fóruns. Foi quando a imagem inesperada atravessou minhas retinas, uma garota com tantas tatuagens que faziam dela uma galeria de arte, os olhos góticos que os meus olhos góticos imediatamente reconheceram, o rosto semelhante ao da atriz Mel Lisboa. A semelhança foi decisiva, tenho fissura pela Mel Lisboa, nem tanto por ser uma conterrânea gaúcha ou talvez por isso. É linda e Verena também me pareceu linda.

Fiz contato e o destino se mostrou favorável. Verena foi atenciosa, a agenda me agraciou com um horário disponível, marquei em um hotel. Paguei a conta do bar, gritei evoé para as ondas libidinosas da praia e entrei trôpego em um táxi.

playlist prosseguia, não escutei nem uma palavra sequer do motorista que puxava assunto. Os cenários se descortinavam na velocidade de rotação dos pneus, como filigranas de um filme de ação. O som das batidas no meu ouvido me envolvia, me embriagavam mais.

YOU PT 12

Dancinha

O corpo transpirava fetiches, meus cabelos rebelavam-se embaralhados pelo vento da orla, minha mente tentava encontrar o centro do meu próprio labirinto. O automóvel deslizava na sincronia do trânsito e tudo em volta soava irreal, impalpável. Eu me sentia à deriva diante do GPS do carro, precisei repetir o meu nome para despertar daquele torpor incômodo. Dante, meu nome é Dante.

O táxi entrou em uma garagem, desembarquei, peguei a chave na recepção e entrei no quarto lascivo com ânsia de me banhar. Foi o que fiz. Depois, deitei-me na cama e meus olhos se apagaram na falência do sono. Despertei subitamente com a campainha gritando estridente. Abri a porta…

Atordoado, jurei que era a Mel Lisboa que rompia a alcova naquele momento. Foi como se um desejo considerado impossível se realizasse. Foi necessário nos apresentarmos, conversamos um pouco para que a conexão acontecesse entre nós. Enquanto Verena despia-se, suas tatuagens surgiam como hieroglifos egípcios, erguiam-se na pele como o desafio da Esfinge de Tebas: decifra-me ou te devoro.

Acredite, forista sem fé, eu não queria decifrar nada, escolhi ser devorado.

Beijos de língua, corpos ardendo na fricção, mãos que mapeiam a geografia do outro, relevos, declives, o pênis ereto, a vagina úmida e morna. Embolados sobre o colchão, dois corpos unidos por um nó cego. Confesso a vocês, talvez pela falha causada por uma amnésia alcoólica, não sei como gozei, mas gozei. Vi a camisinha inchada do sêmen branco e reluzente envolvendo o meu membro. Esbarrei com o olhar provocante de Verena me encarando. Para mim, não era Verena, era uma desejada miragem da Mel Lisboa.

É possível que eu remarque, quero ter mais lembranças vivas de Verena. Bela, sexy e misteriosa. A sensação que ficou foi boa, muito boa. Quero voltar e sentir a pele e os lábios da musa tatuada. Após o encontro, recordo-me que anoiteci na Lapa, caminhando a esmo, entrando no restaurante Nova Capela, pedi um chope e um aperitivo. Sozinho.

Quando deixei o restaurante, a noite estava mais densa e as sombras que pairavam sobre todas as coisas insistiam em me inquirir sem trégua: decifra-me ou te devoro.

Devoraram-me.

A vida pulsa, o libertino vive…

Jornalista. Professor de Língua Portuguesa, Escrita e Literatura. Editor. Escritor.

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