DONA GIOCONDA

DONA GIOCONDA

– …O Amor é calmaria que sucede a tempestade da Paixão, é o tédio inevitável.

De antemão, perdoo-lhe o ceticismo, mas quem emitiu essa frase tão elaborada foi uma antiga rameira, veterana da Vila Mimosa, nos tempos em que esse meretrício ficava no Estácio, próximo ao que hoje é a estação do metrô.

Dona Gioconda, assim ela ficou conhecida na Vila, uma prostituta que devia navegar pelos sessenta anos e continuava na ativa. Diziam que ela não fazia mais programas, que havia alcançado a fama com o apelido que recebeu dos intelectuais de prostíbulo: o oráculo da zona.

Seu talento como psicanalista de bordel espalhava-se, de boca em boca, entre os neuróticos e amantes desiludidos da Grande Tijuca, encontraram nela uma terapia alternativa para os destemperos da vida. Contava-se que os clientes a procuravam somente para desabafar e ouvir conselhos.

Dona Gioconda ganhou vulto de conselheira sentimental para homens, seu consultório funcionava numa baia dentro da própria Mimosa. Registra a lenda que ela tinha formação superior em psicologia, mas preferiu continuar ali, naquele covil do sexo, o grande celeiro de perturbados, seu manicômio particular.

Eu ainda não poderia imaginar que, ao descer em carreira desgovernada por uma ruela do morro do Tuiuti, estaria iniciando o meu caminho até essa senhora.

O episódio começa num sábado à noite, dia em que eu me esgueirava pelos Forrós do Rio, cumprindo a sina de predador sexual.

Poucos conseguiriam superar o estilo brega que eu, um carioca, criei na minha fase de forrozeiro. Eu vestia meu uniforme de caça: o tom era sempre escuro (preto ou cinza, a camuflagem da noite), camisa social fechada até o último botão da gola, calça de linho, sapatos brilhando na graxa e um blazer para completar o visual. Fico quente só de lembrar. Às vezes, aparecia alguém para me perguntar se eu era pastor.

Os forrós do Rio, no meu tempo, não tinham ar-condicionado e, com essa indumentária, no verão, eu virava uma massa liquida, empapado de suor, circulando pelo salão sob a trilha sonora do triângulo e da sanfona.

Eu estava abraçado com a cerveja e esperando o Teixeirinha, que nunca era certeza de aparecer. No nosso último contato, ele avisou que iria negociar a compra de uma coleção de discos do Cauby Peixoto com um camelô de Copacabana.

O Teixeirinha é um conservador, sua filosofia consiste em crer que só as antiguidades possuem virtudes. Tem repulsa ao moderno, seu carro é um Corcel dourado antiquíssimo e seus discos são os velhos longplays. Trata com aversão os CDs, só ouve vinil ou fita cassete.

Beijava a terceira garrafa de cerva quando percebi uma fêmea quase ao meu lado. Meu fetiche por mulheres altas e esguias ativou todos os alarmes. Uma morena de cabelos cacheados que desabavam pelas costas, calça justíssima delineando suas ondas perfeitas e um sorriso largo à Julia Roberts. Apelei para a falta de criatividade e pratiquei o uso da lábia cretina.

– Oi, eu juro que não é cantada, mas eu tenho certeza de que conheço você, estou aqui tentando lembrar… A gente não se conhece?

– Não sei, quase não venho ao Rio, sou de Cabo Frio.

– Hum… Qual seu nome?      

– Suzana.       

– Toma uma cerveja comigo, Suzana?         

– Pode ser.     

A receptividade foi total. Essa era a vantagem dos forrós, não havia mulher impossível.

O período da conversa durou por umas quatro garrafas de cerveja e alguns segundos do Martini que ela pediu para arrematar. Suzana era boa de copo. Ela me disse que precisava ir embora e perguntei qual seria o seu destino.

– São Cristóvão, na São Luiz Gonzaga, quase chegando em Benfica, Largo do Pedregulho.

– Posso levar você? Não estou de carro, mas vamos de táxi, moro perto.

– Ah! Não é preciso, eu volto com uma amiga, de ônibus.

– Que isso! Vou com você. Está muito tarde e é perigoso andar de ônibus.

– Tudo bem! Vou falar com a minha amiga e já volto.

Regressou sem a amiga, que estava encarrapitada a um cearense e não pretendia deixá-lo. Saímos nós dois.

Chegamos à rua e vejo o meu herói, o Teixeirinha, enlaçado a uma garrafa de batida e recostado no seu Corcel salvador. Era a minha carona! Levamos Suzana até São Cristóvão e conquistei a recompensa de alguns beijos que devoraram parte do meu coração.

Entrei em casa apaixonado, passei toda a semana seguinte pensando em Suzana, tentei encontrá-la no telefone que havia me deixado, era um número para recados, mas ela nunca me retornava. Fiquei obcecado.

Na noite de sexta-feira, insisti com o Teixeirinha para que ele me levasse a São Cristóvão, onde a menina falou que morava. Eu ia tentar a sorte.

Confesso que tive uma impressão sombria do Largo do Pedregulho, a única referência deixada por Suzana para que eu pudesse tentar localizá-la.

Estacionamos em frente a uma barraca de cachorro-quente, constatei que seria quase impossível rever minha musa. Foi quando o milagre aconteceu e o Teixeirinha, numa intervenção divina, interrogou a dona de um carrinho de hot-dog.

– A senhora conhece uma garota chamada Suzana, ela mora por aqui? É alta, magra, cabelos cacheados…

– Suzana? Conheço sim! Ela mora do outro lado, tem que subir aquela entradinha ali.

A entradinha era um acesso ao morro do Tuiuti. É engraçado como nomes inocentes tomam a dimensão de uma placa com o aviso de “afaste-se”. No geral, alguns nomes de morros sempre me pareceram ter um som atemorizante: Borel, Juramento, Chapéu Mangueira, Complexo do Alemão, Urubu, Jacarezinho etc. Quem batizou esses lugares?

Sob os protestos do Teixeirinha, decidi subir. A moça do cachorro-quente indicou que era o primeiro sobrado rosa do caminho, que não tinha perigo. Confiei!

Toquei uma campainha e ouvi uma voz feminina vindo de cima, de um terraço.  

– Quem é?      

– Eu estou procurando a Suzana.

– Quem quer falar com ela?

– Um amigo.

– Mas a Suzana daqui é a mulher do Lobão! É com ela mesmo que deseja falar?

– Huumm, Ahmm, Huumm… Acho que estou no endereço errado. Desculpe! – gelei e fui tomado pela súbita consciência de que estava, literalmente, na toca do lobo.

Em seguida, passa ventando por mim, numa correria ruidosa, uma fila de homens com cara de poucos amigos. Desciam a ladeira numa marcha tribal e assustadora. Não me viram. Decidi segui-los no mesmo ritmo, como se fosse um deles.

Desemboquei no Largo do Pedregulho novamente, suava frio.

– Teixeirinha, liga o caro. Vamos vazar daqui, vamos vazar!

O susto havia me devolvido a razão, não queria mais saber daquela história. Eu havia descoberto que vivia num mundo onde ovelhas se casavam com lobos.

– Cara, sai dessa depressão! – dizia o Teixeirinha tentando me consolar durante o percurso para Tijuca – vou te levar pra falar com uma pessoa que me ajudou na época que briguei com a Carla (namorada do Teixeirinha).

– Pô, amigo! Não quero falar com ninguém sobre isso. Passou! Vamos embora!

Quando vi, estávamos parando o carro perto da Vila Mimosa.

– Teixeirinha, vai pegar mulher aqui?

– Você vai conhecer uma amiga minha.

– Que amiga?! E, por acaso, você tem amiga na Zona?

– Nunca lhe contei, mas tem uma mulher aqui que é um espanto. Dona Gioconda! Conversa com ela, você vai gostar de conhecer.

A casa era logo no início da Vila. O Teixeirinha anunciou no balcão do bar que desejava uma consulta. Dona Gioconda estava ocupada, teríamos que esperar.

Nossa vez! O Teixeirinha me mostrou o caminho. A baia da Dona Gioconda era algo semelhante a uma loja de produtos esotéricos. O cheiro de incenso dominava a atmosfera. Havia uma cama de solteiro repleta de almofadas e com uma poltrona ao lado. Budas, Gnomos, crucifixos, imagens de São Jorge e da Nossa Senhora de Aparecida espalhavam-se por todos os cantos.

Dona Gioconda era uma mulata cinquentona, gordinha, entalada num espartilho preto, os cabelos num corte Chanel e pintados de um loiro platinado que davam um toque futurista a sua imagem.

– É a primeira vez comigo, meu filho?

– É sim.          

– Sabe que aqui a cama é para a conversa, não é, meu filho?         

– Sei, me disseram – o Teixeirinha havia me adiantado o esquema.

– Deita, meu filho – deitei e ela recostou-se ao meu lado, me fazendo cafuné – o que está incomodando o seu coração, menino?

Dona Gioconda tinha uma voz rouca e maternal, fazia você ter vontade de se abrir.

– Está tudo dando errado, Dona Gioconda. Nada dá certo. Não consigo firmar com nenhuma mulher.

Dona Gioconda então se levantou e ligou um toca-fitas, um som de batuque invadiu o ambiente.

– Vou chamar o “Dr. Fróidi” pra conversar com você, moço. Relaxa que vou chamar o Dr. – e o som do batuque que exalava do toca-fitas ficava cada vez mais frenético.

Imaginei que ela fosse chamar outra pessoa para entrar no quarto, mas não era isso.

Dona Gioconda realizava um ritual em que acreditava ser possuída por Freud. Isso mesmo! Ela baixava Sigmund Freud!  Sentava na poltrona ao lado da cama, fechava os olhos, balançava o corpo no ritmo da batucada e ele descia: o “Dr. Fróidi”.

– A Gioconda me disse que seus relacionamentos são sempre fracassados. Por que você acha que isso acontece? – o Dr. havia chegado, a voz de Dona Gioconda era outra, tinha sotaque e tudo.

– Não sei, acho que sou inseguro – respondi com voz trêmula.

– Você não deve declarar guerra aos seus complexos, rapaz! Deve entrar em acordo com eles – eu estava sendo analisado por Freud dentro da Zona. Era o apocalipse!

– Eu só quero encontrar uma mulher que aconteça, Dr.! Uma mulher pra amar, formar família… – Entrei no clima.

– Somos feitos de carne, meu jovem, mas temos que viver como se fôssemos de ferro. Para que amar? Viva suas paixões, elas são a vida. O amor é calmaria que sucede a tempestade da paixão, é o tédio inevitável.

A mulata sacudiu o corpo, soltou um suspiro longo e estava de volta. O “Dr. Fróidi” se foi.

– Falou com o Dr., meu filho? Ele ajudou? 

– Falei! Ajudou! Obrigado!  

– Vá em paz, meu menino.

O velho Shakespeare tem razão: “há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia.”

Dona Gioconda era dublê de Freud.

Fiquei grato ao Teixeirinha por me proporcionar tal visita. Foi a loucura que me trouxe equilíbrio às ideias.

Segui minhas paixões sem nunca mais esquecer daquela enfática lição: o amor é o tédio inevitável…

DIÁRIO DE BORDO

DANTE E BEATRIZ

Se um drone realizasse uma panorâmica aérea, veríamos um minúsculo ponto se deslocando pelas calçadas semidesertas do Centro da Cidade, habitado somente por almas esquecidas dormitando sob as marquises. O minúsculo ponto é o libertino que caminha indômito, como quem cumpre uma missão, descobrir novos prazeres, encontrar novos bordeis, indo aonde o homem comum jamais esteve. Eis que vemos o libertino acompanhado da sua solidão, da sua essencial solidão, da sua indissociável solidão.

Saí tarde da bucólica Tijuca, a Lua cheia ia alta, imponente no céu, refletindo seu brilho prateado no verde adormecido dos alpes tijucanos. Acelerei o Sucatão e o ronco do motor abriu caminho através da poeira negra do asfalto. Insiro o pen drive no aparelho de som do carro e a música que brota das caixas é a mesma que ouvi dias antes na boate Palácio de Cristal, na Lapa.

I Wanna Go

Abro as janelas e deixo que o vento morno me atravesse, o corpo balança com as batidas do som, a vida passa como num filme frenético se descortinando no para-brisa. Quem pensou que eu desistiria, fracassou. Dante is alive. Estaciono na deserta rua Buenos Aires e finco minhas botas na calçada em direção a 65, na rua do Rosário. Quando fui me aproximando da entrada da Termas, tudo me pareceu tão desolado que desisti, dei meia volta e espichei meus passos até a Uruguaiana.

Subo os degraus do sobrado 210 e encontro a casa com pouquíssimo movimento, com mais carrancas do que mulheres. Uma mulata, que foi colossal no passado, que tanto maltratou meu coração, se aproxima para me cumprimentar, mal a reconheço, gordinha, cabelos desgrenhados, um ar de melancolia… o mundo gira e é redondo. Vejo uma novinha bunduda, bonita de rosto, pergunto se faz programa fora, pois não suporto os quartos da 210. Não faz. Não sobrou nada para ver na 210, ganho novamente as ruas.

Caminho até a rua da Alfândega, o relógio marcava 21h. Vou até o Clube 119, subo os infinitos degraus, quando alcanço o salão, quase as vias de um infarte, não havia ninguém, nenhuma mulher, apenas um sujeito com semblante depressivo bebendo à beira do balcão. Corri dali. Voltei ao Sucatão e à bucólica Tijuca. Entro em uma pizzaria e substituo os prazeres da carne pelo sabor de uma pizza brotinho de muçarela. Segunda-feira, definitivamente, não é dia de puteiro. Uma melodia transpirava como música ambiente: Moby – Extreme Ways.

Extreme Ways

Dante is alive.

O CLONE

O CLONE

— O senhor não é aquele ator da Globo? Aquele… Aquele antigo… Antigo, mas o senhor está bem de aparência, tá?… Francisco Cuoco. É o senhor, né? Tira uma selfie comigo?

Olhei ao redor para confirmar se mais alguém ouvia o absurdo que a menina de topless estava cometendo, não havia ninguém olhando. Aceitei fazer a selfie como Francisco Cuoco. Por que eu iria estragar um sonho?

— Minha vó não perdia as suas novelas. Até hoje ela comenta sobre o senhor.

Como o assédio começou a ficar um pouco inconveniente, dei boa tarde e subi ao próximo andar. Havia um movimento grande no local; uma quantidade maior de mulheres também, desde a minha última visita. O número de garotas jovens exibindo peitinhos-agulha é enorme. O topless virou um atrativo diferencial na Rua Uruguaiana, 24. Fui procurar uma garota com quem eu saí diversas vezes antes da pandemia, infelizmente não a encontrei. Trashes mais pesados como o 24 da Uruguaiana são um risco para o libertino idoso, muitas garotas ali fazem sexo como quem prepara um sanduíche de mortadela, vai no automático. Eu, no entanto, estava disposto a arriscar.

Subir todos os andares do prédio, girando naquelas escadas em caracol, é tarefa dura para os meus precários músculos cardíacos, mas fui indo. Cheguei a me imaginar levando uma barraca de camping para poder dar um intervalo de descanso entre um andar e outro. Este trash da Uruguaiana é um Pico Everest do sexo. A vontade, quando se chega ao último andar, é fincar uma bandeira e comemorar explodindo uma Chandon. De repente, vejo uma loirinha com um par de seios que pareciam um photoshop vivo, ela também me vê e sorri. Não precisei me aproximar, ela se aproximou (a coisa tá feia).

— Nossa. Como o senhor parece com aquele “repórti” da “Grobo”.

Tá de sacanagem, ser confundido com terceiros duas vezes no mesmo dia é demais, o florista vai dizer que é mentira. Acredite, forista sem fé, é verdade. Não é a primeira vez que acontece comigo.

— Que repórter, minha filha? — tento descobrir, mas já sei quem é.

— Num lembro o nome dele.

— André Luiz Azevedo? É esse?

— Esse! Esse! É o senhor??? Tá sumido.

Quando ela disse “está sumido”, não entendi. Se referia sumido da Globo ou do 24? Preferi não esticar o assunto e emendei na entrevista. A moça se mostrou receptiva, confirmou oral sem capa, beijo na boca e um anal se a ereção permitisse. Amélia é o nome que usa. É, você leu certo, o nome é Amélia. Decidi me embrenhar com ela numa das baias da boate. O problema do 24 é que as baias ficam no mesmo espaço da pista, então você faz sexo com trilha sonora, geralmente é Belo, Chitãozinho e Xororó, Anitta e outros bichos. É necessário manter uma concentração sobre-humana para a peteca não cair.

A menina iniciou o assunto com um boquete espetacular, viajei na Enterprise, entrei em velocidade de dobra e quase usei o teletransporte para o Éden antes do tempo. Segurei a onda dela antes que me causasse ejaculação precoce. Pedi para que ficasse de quatro. Quando eu ia meter, aumentaram o volume do som lá fora.

”Prepara que agora é a hora
Do show das poderosas
Que descem e rebolam…”

Puta que pariu. Dei uma rateada, mas Pikachu conseguiu reestabelecer a força auxiliar e alcancei a sagrada penetração. A menina gemia no ritmo do “Show das Poderosas” e eu fazia um exercício budista para não perder o pau ereto. Meti afobadamente, o objetivo era gozar com aquela batida sonora na minha cabeça, um desafio olímpico. Gozei. A menina se levanta, sai da cabine sem dizer nada (de praxe nesses locais) e eu me visto para ir embora.

Ganho as ruas e o anonimato, respiro aliviado. Caminho até a Casa do Café Capital, na nostálgica Av. Marechal Floriano, peço um cafezinho e me sento para contemplar a vida. Do outro lado do salão, um velhinho me encara como se me conhecesse…

— Porra. De novo não. 

CEMITÉRIO DO CAJU

CEMITÉRIO DO CAJU

O número dos que nos invejam confirma as nossas capacidades.

—Oscar Wilde

O silêncio se erguia tão absoluto que poderia ser comparado ao eco de um abismo insondável. Fazia frio, eu vestia um antigo sobretudo que me cobria quase até os joelhos, as botas reverberavam meus passos sobre a calçada e a noite cinza insinuava rejeitar o brilho das lâmpadas sobre o asfalto. Sozinho, sem saber o que procurar, eu fugia da maldição da insônia. Talvez, não procurasse uma mulher, mas um espelho que me obrigasse à redescoberta de mim mesmo, que me resgatasse daquela deriva urbana. O libertino não é alguém que atravessa a noite, ele é a noite, a sombra, a calmaria que camufla o caos, é alma derivante que busca, mas jamais encontra um porto. O libertino é um corsário do sexo.

Há anos não me arriscava por aquele perímetro do cemitério onde conheci Gisa, uma ruiva quase albina que marcou minha memória e o meu combalido pênis com o seu boquete sobrenatural. Acredite, forista sem fé, não se esquece uma mulher como Gisa, você pode tentar evita-la, mas um dia retorna ao local do crime. Se eu não tenho medo de andar por lugares como o Caju? É claro que tenho receio, mas como revelei por diversas vezes, atualmente o meu prazer está mais na adrenalina do que no gozo. A mesmice serve bem aos que não chegaram aonde cheguei, eu tento restaurar o mistério e o pulso acelerado que habitaram a juventude da luxúria.

— Que isso, Dante? Existe ponto de putas perto do cemitério? — pergunta-me o forista cético.

Afirmo que sim, existe há muitos anos. Os poucos que se aventuraram me escreveram surpresos por terem realmente encontrado mariposas rondando no território da última página de todos os homens, mulheres que se movem em revoada pelo entorno do campo santo. O cético enxerga o céu, mas duvida das nuvens. Vá e veja. É um ponto destinado aos caminhoneiros e taxistas que transitam por ali. Os uivos não brotam das assombrações, emergem da garganta de alguma criatura destemida que atingiu a ejaculação pelos lábios de uma puta carpideira.

Estacionei o Sucatão próximo a uma floricultura em que estavam descarregando coroas de flores. Nas ocasiões anteriores, sondei o local de dentro do carro, não desembarquei, mas desta vez preferi ir a pé e ver por outro ângulo as moças que trabalham nos arredores do Caju. Não pense que eu seja um valente, afeiçoado forista, sinto medo, mas é o medo que bombeia o sangue, dilata as pupilas, é ele que me excita. Avistei uma pequena colônia de putas quase em frente à entrada do Cemitério de São Francisco Xavier, percebi olhares que estranharam um homem bem-vestido vagando na área, meu faro me empurrou em direção a uma menina de corpo curvilíneo e seios à mostra. Apressei-me para abordá-la.

— Como eu faço para sair com você?

— Anjo, é setenta o boquete e cem o programa.

— Pode ser no carro? Estou estacionado na floricultura.

— Pode, mas melhor parar em frente a marmoraria.

Reparei que o estacionamento da marmoraria onde fiquei com a Gisa pela primeira vez ainda funcionava.

— Qual seu nome? — perguntei.

— Kelly e o seu?

— Dante, me chamo Dante. Vamos? Aceito o boquete.

De topless, Kelly caminhou comigo até o Sucatão; ao nosso lado, as grades vazadas do cemitério revelavam covas, jazigos e anjos heroicos. Não identificava imagens do demônio, ele estava ao meu lado. Entramos no carro, Kelly me ofereceu os seios irretocáveis e mamei como um moribundo imaginando beber a ambrosia dos Deuses, a menina fechou os olhos, gemeu, girou as mãos sobre a minha calça, afrouxou o cinto, abriu o zíper, pegou meu combalido pênis e o engoliu com ânsia. Um boquete inenarrável, sem preguiça, que dissimulava tesão legítimo. Escalava a minha glande com a língua e despencava como uma praticante de rapel até a raiz do meu pau. Eu estava em delírio, vendo crucifixos imensos e torres góticas despontarem diante do para-brisa. Gozei num último suspiro, meus espermatozoides flutuaram como fantasmas, lambuzaram os lábios de Kelly, o painel do carro e o meu abdômen. Paguei a garota, ela saiu e eu tentei controlar a respiração para recuperar o fôlego.

Refeito, girei a chave do automóvel, pisei na embreagem, acelerei e ganhei a Avenida Brasil. Inseri um disco aleatório no cd-player, um som nada celestial inundou a cabine e minha cabeça dançou desafiando a finitude. A vida não tem reprise.

Culture Beat – Mr. Vain

O Sucatão zunia contra o vento frio que vinha de todos os lados. Se existe vida após a morte, ela faz ponto em frente ao cemitério. Creia, a partir de agora qualquer aventura é possível.

#Libertine-se

CARTA DE UMA PROSTITUTA SUICIDA

CARTA DE UMA PROSTITUTA SUICIDA

1

Há pouco, caminhei pela areia até a beirada da praia, sempre gostei de sentir as lambidas das marolas cansadas molhando meus pés, a água está morna e convidativa.

Nunca apreciei escrever, mas decidi improvisar estas palavras, rascunhar meus últimos pensamentos num guardanapo. Toda vida é um rascunho.

Nasci aos 27 anos, quando cheguei de Juiz de Fora para morar em Copacabana. Quem me pariu foi a maresia da praia do Leme. O mar me deu consciência do mundo, plantou em mim o infinito, a minha alma.

Havia economizado algum dinheiro, era pouco. Consegui me instalar no quarto de um apartamento na Barata Ribeiro, a dona era uma loira com olhos de ganância, se chamava Vera. Pelas mãos dela, fui levada às boates e às luzes da noite. Rápido, me acostumei ao toque lascivo dos homens, aprendi a cobrar pelo prazer que eu podia lhes proporcionar. Um dia me chamaram de prostituta e descobri o que eu era.

Falavam da minha beleza, elogiavam meus olhos, meu corpo, meus cabelos…  Deram-me um nome e esqueci meu próprio nome. Virei outra.

Conheci os vícios, aqueles que nos fazem conseguir ser o que não somos.

Um dejà-vu me atormenta, tudo me parece irreal. É a solidão. A solidão é o prefácio do existir. Só me estranho quando estou sozinha.

Daqui da areia vejo os prédios que margeiam a orla, pontos de luz que fogem pelas janelas, denunciando vidas que não são a minha, constelações artificiais sobre o asfalto. Eu fracassei. Queria alguém agora que me chamasse de prostituta, eu precisava lembrar-me do que eu era.

Aos 35 anos, conheci Omar, foi Vera quem nos apresentou. Ele quis reescrever meu rascunho. Levou-me para uma quitinete, me deu uma aliança e disse que cuidaria de mim. Chamava-me de filha. Era velho, nunca recebeu uma visita. Zelei por ele durante dois anos e o encontrei morto numa tarde de sábado. Ele me deixou seus bens: sua quitinete, uma mísera pensão e uma poupança modesta.

Certo dia, reencontrei Vera no calçadão, fazia uma década que não nos víamos. Ela se emocionou, me abraçou forte e tocou meus lábios num beijo roubado. Estremeci como se um projétil houvesse me atingido. Nunca nenhum toque me abalara tanto. Marcamos de nos ver no dia seguinte, mas ela não apareceu, jamais descobri seu paradeiro. Normal para quem é da vida. Prostitutas evaporam como a água que entra em ebulição.

O espelho revelou meus olhos confusos, perdidos entre sulcos e rugas de um rosto precocemente arado pelos anos. O tempo me fez outra novamente. Necessitava de alguém que me reconhecesse como prostituta. Nunca compreendi o fim da minha beleza.

Sou um calendário de dias vazios, todos iguais. Dejà-vu do nada num caldeirão de néon em Copacabana. Como não sei o que virá pela frente, vou descrever como imagino o meu epílogo…

2

Depois de alguns devaneios, ela ingere alguns comprimidos com aquela serenidade de quem se decidiu. Entra no mar e sente o carinho aconchegante das ondas. Lembrou-se do abraço forte de Vera a puxando para junto de si, sente o beijo que a fez pensar ter descoberto a paixão. Ficou boiando alguns minutos, parada, quis apenas sentir a sedução da água envolvê-la. De um lado, havia o negrume de um horizonte escondido. Do outro, a praia e o brilho do asfalto. Quis lembrar-se de alguma coisa, mas a mente já embotava. Só a recordação de Vera e do beijo insistiam em ser seu epitáfio. Os seus membros iam sendo dominados pela dormência, ela reagiu com braçadas fortes em direção a escuridão. Uma paralisia a tomou, avistou o céu e as verdadeiras estrelas, sua visão escureceu. O oceano gelou… Do calçadão, quem olhava para o mar não via ou ouvia nada além do breu pontilhado pela pálida espuma das vagas que quebravam surdas na areia. O silêncio era a luz da escuridão…

CANCELA PRETA (BANGU)

CANCELA PRETA (BANGU)

E assim, ao sair de mais uma visita à Vila Mimosa, decido imbicar pela Leopoldina e percorrer a Av. Brasil, para conferir a dica de um amigo Taxista, um lugar chamado Cancela Preta.

A Cancela Preta não chega a ser outro Planeta, mas é quase um Satélite da Terra, tal sua distância. Fica no limbo, embolada entre Padre Miguel, Realengo e Bangu. Não sei especificar sua localização, mas chega-se lá pela árida Av. Brasil e é indicada pelas sinalizações.

Quando caí no acesso da Brasil que desembocava na penumbrosa Cancela Preta, me dei conta que talvez fosse um lugar mais propício para caçar Vampiros do que mulheres. Não tinha jeito, após meia hora cruzando o asfalto, eu estava na Cancela Preta e, logo de cara, tive uma visão.

Creia, leitor sem fé! Num recuado de pista, dentre várias meninas, havia uma loira saradíssima, vestida com top e calça de ginástica, fazendo ponto num local batizado como Cancela Preta. Eu nem sei se acredito em mim mesmo quando conto isso, mas é a mais pura, translúcida e nutritiva verdade.

Seu nome é Laura, pedi que entrasse no carro e começamos a conversar.

Com este corpão, você deve fazer academia todos os dias! – Inicio minhas perguntas cretinas.

Não tenho dinheiro para a Academia. Comprei uns pesos na Casa & Vídeo e malho em casa.

Impressionante! A força de vontade faz milagres! Não me emocionou pelo rosto, mas pelo corpaço.

Tratei com ela o presente. O Sucatão mergulha no breu até o Motel Carbonara, também na Brasil, altura de Bangu. Peço um apartamento simples.

Introduzo a chave, abro a porta do quarto, acendo a luz e ouço um grito estridente… Era a menina que berrava e corria desesperada para o banheiro, perseguida por uma nuvem de mosquitos canibais que despertou quando entramos. Ao verem o primeiro ataque frustrado, a mosquitada partiu raivosa para cima de mim, agora era eu quem gritava e corria. Protegi-me com o cobertor, ao mesmo tempo, agitava o travesseiro para espantá-los. Consegui abrir a janela e ligar o ar-condicionado.

Em poucos segundos, fui semidevorado pelos hematófagos, mas venci uma das sete pragas da Cancela Preta.

Exausto, bati à porta do banheiro para avisar que a mosquitada havia feito um recuo estratégico. Laura abre a porta e sai de calcinha minúscula e com os pequenos seios durinhos expostos. Que delícia!

Uma perna malhada da moça devia dar duas da minha; barriga tanquinho; bunda de pedra e arrebitada; braços fortes e pele macia.

Começamos nos beijando, ela tem um beijo gostoso. Depois, desceu lambendo minha barriga, abocanhou meu membro e sugou-me como os mosquitos hematófagos que tentaram secar meu sangue.

Peço a minha posição favorita e ela fica de quatro. A visão daquela bunda trabalhada com pesos da Casa & Vídeo me deixou atordoado. Comecei a meter, a garota não gemia, arfava. Senti que ainda resistiram alguns mosquitos desertores da tropa que invadiu o quarto, volta e meia eu era assolado por picadas, mas o tesão era forte e gozei sem medo.

Deixamos o hotel e eu desovei a Laura novamente na Cancela Preta.

De volta à Av. Brasil, acelero o Sucatão. Tive a impressão de ver uma nuvem de insetos nos seguindo. Não, não podia ser! Era o trauma da situação vivida que me iludia. Voamos de volta para casa!

Até o próximo episódio…

Boate Sinônimo (Lapa)

BOATE SINÔNIMO (LAPA)

*Adentrando pela velhice, quando num dia tardio eu desaparecer, restarão os arquivos dessas memórias escritas nos fóruns e no livro que deixei sobre a vida mundana (O Paraíso de Dante). A morte de um Highlander nunca pode ser descartada, vi foristas falecerem de súbito, boêmios que hoje são lembrados somente por aqueles que compartilharam da companhia de quem muitas vezes levava uma vida dupla. Somos folhas caindo da árvore da existência.

Estava aos pés da madrugada tomando meu conhaque num pé-sujo na esquina da obscura Rua Ubaldino Amaral com Mem de Sá, na Lapa. O movimento intenso da calçada era ignorado pelos bêbados do balcão, todos debruçados sobre a vitrine de ovos coloridos e de uma gordurosa rabada que prometia um infarto fulminante a quem a ingerisse. Eu estava feliz agarrado ao copo, observando o entorno, misturado à alienação dos ébrios. Certa vez, um ancião de alto teor etílico me ensinou que o dia é a rotina, o trabalho, a preguiça da praia; já a noite é o imprevisível, o gozo, a pele em contato libidinoso, é o mistério, a perversão.

Eu tinha bebido tanto que começava a sentir dificuldade em focar os olhos num ponto fixo. A felicidade do álcool atordoa, obstrui os sentidos. O meu estado de suspensão animada não me impediu de ver a mulata que passou me encarando, quase me desafiando para um duelo sexual. Paguei esbaforido a bebida e saí no encalço da menina que pingava sensualidade a cada rebolado que a impulsionava para frente. Confesso, afeiçoado forista, eu fazia um esforço sobre-humano para me manter em linha reta, lutei heroicamente contra a sinuosidade dos meus pés. A garota parou em frente a um sobrado rosa, entregou um papel e entrou. Avancei na intenção de permanecer no seu encalço.

O sobrado rosa era uma boate de nome “Sinônimo” (a criatividade dos nomes ainda me espanta). Comprei um ingresso, entreguei ao porteiro, fui revistado e entrei. Gays, simpatizantes e provavelmente alienígenas me aguardavam no interior. O lugar tinha dois andares, dois ambientes. No térreo ficava o bar com música ao vivo, gente apinhada, um cara perto do caixa me mostrou a língua como se fosse uma serpente erótica. Assustador. Por alguma dessas coincidências sacanas do destino, o caixa da “Sinônimo” era um antigo barman da Mosaico, precisei de uns dez minutos para convencê-lo de que eu não pertencia ao mundo gay e que estava ali por acidente de percurso. Não sei se ele acreditou. Subi ao segundo andar à procura da mulata e até hoje não me esqueço, tocava uma música do The Cure (Lullaby).

Acredite, forista sem fé, não achei a mulata, mas avistei uma ruiva de cabelos cacheados, pele alvíssima e um corpo estonteante executando o que meu amigo Teixeirinha chama de “a dança da enguia”. A menina se contorcia, se agachava quase se arrastando no chão, levantava com as mãos os cabelos vermelhos num coque sexy. Vestia um top e uma calça justíssima de um tecido preto e brilhoso que devia ser couro. Fiquei hipnotizado, talvez até apaixonado. Como já expliquei, amigo forista, dileto companheiro dessas viagens psicodélicas pelas noites cariocas, o libertino não é aquele que não ama, o verdadeiro libertino ama demais, numa sequência quase vertiginosa de paixões que nascem e morrem. O libertino é um náufrago de amores interrompidos.

Quando estou bêbado, sou cara de pau. Não tirei mais os olhos da ruiva e esperei o momento conveniente para me aproximar. Assim que ela se afastou um pouco da muvuca, cheguei junto e perguntei se ela topava beber comigo. O noturno imprevisível aconteceu, ela aceitou. Seu nome era Raquel e sua primeira pergunta foi para saber se eu era gay, bissexual ou coisa que o valha. Novamente, me peguei explicando que eu não era gay, que havia entrado ali por acidente, para procurar uma pessoa. Não adiantou, amigo forista. Quando você entra numa arena gay, ninguém crê que você não seja gay. Relaxei, mas com receio de em algum momento Raquel me convencer a me assumir. Seria inusitado se isso acontecesse, me tornar o Seu Peru da Tijuca. Sentados num canto reservado da boate, ficamos conversando. A menina não teve pudor em me revelar que era bi.

As horas passaram, dançamos rodeados por monas, gays e travestis eufóricos. Foi uma baita experiência. Ela me apresentou a alguns amigos ou “amigas”. Bebemos todos. Estava perto de inventar que meu nome era Dantielle Morgan, só para não me sentir deslocado. Quase as quatro da manhã ela me disse que ia embora, me ofereci para levá-la. Andamos até o Sucatão e partimos. A menina morava sozinha numa quitinete da Rua República do Peru, em Copacabana (o destino é ou não é um sacana?).

– Quer subir pra saideira? – Ela pergunta.

O apartamento minimalista tinha metade do seu espaço tomado por uma mesa de passar roupa aberta. Sentei-me num pequeno sofá e ela entrou numa área reservada que devia ser o quarto avisando que iria ficar mais à vontade. Pediu que eu tirasse os sapatos. Voltou do quarto flutuando num parco baby-doll e acomodou-se no meu colo. Sim, profético forista, a transa aconteceu e foi magnífica ou ao menos é assim que me recordo dela.

Deixei o prédio trôpego e entrei no Sucatão. Começava a amanhecer e a sensação de ressaca se insinuava em minha cabeça. Desconheço se a boate Sinônimo ainda funciona. Passei um bom tempo sem conseguir contato com Raquel, mas um dia ela me ligou perguntando se eu poderia pegá-la no Grajaú. Fui. Depois disso nunca mais nos vemos. O libertino é um náufrago de amores que surgem como miragens e desaparecem no horizonte inalcançável.

ISA — SOBRE AS ILUSÕES DO ROMANCE

ISA — SOBRE AS ILUSÕES DO ROMANCE

Passei as últimas semanas com pensamentos engasgados. Eu precisava fazer este último relato, o último registro. As palavras brotaram dos meus dedos como a música que jorra sob a batuta de um maestro. Peço que sejam tolerantes com este velho escriba e que me perdoem por qualquer pieguice indefensável.

Foram quase nove meses, cerca de duzentos e quarenta dias, que me dediquei a estar com uma única mulher. Desde junho de 2022 até janeiro de 2023. 

Confesso que me esforcei mais para ser mais amigo de Isa do que simular algo semelhante a um namoro. Ao final, fui levado a compreender, de supetão, que um namoro seria impossível. Sem problemas, meu afeto nunca mudou, manteve-se firme.

Ontem, vi que o anúncio da Isa no ar saiu do ar e senti uma pontada de melancolia. Para o maior entendimento de todos, Isa é uma garota de programa, o que na minha visão nunca foi demérito.

Foram oito meses em que ela me telefonava todas as manhãs, muitas vezes a tarde e algumas à noite. Oito meses em que me acostumei a esperar sua última mensagem antes de dormir. Oito meses de conversas longas, às vezes divertidas, outras vezes tensas. Habituei-me, ela não.

Não conseguia tirá-la muito da sua ilha, da sua pequena sala, para onde me dirigi por incontáveis tardes vadias, durante inenarráveis semanas consecutivas. 

Acostumei-me a levar pão, frios e café da padaria da esquina para tomarmos juntos. Admito, o sexo se tornou secundário, meu carinho por Isa era o carinho por uma menina que eu poderia querer cuidar por oitenta meses e por muito mais do que duzentos e quarenta dias.

Desde que voltei a escrever crônicas eróticas, foi a mulher que mais permiti que visitasse a minha Fortaleza da Solidão na bucólica Tijuca. Foi a única que brincou com a minha cachorrinha e se apegou a ela. Lembro-me de um fim de tarde em que fomos para o meu escritório, confidenciamos e escutamos juntos as nossas músicas favoritas. Como esquecer?

Eu a chamo de menina porque havia nela uma face pueril, um ciúme fútil e dissimulado, uma vontade de se conectar que, ao mesmo tempo, era malograda pela necessidade imperiosa de se proteger, de se resguardar e de desconfiar. 

A ilha de Isa era um castelo quase inexpugnável. Muitos sabiam da história pessoal que ela compartilhava, mas pouquíssimos foram os que souberam de fato onde encarnavam as raízes dos seus verdadeiros amores.

Era doce, era feroz, era infinitamente atenciosa e aplacava a própria carência se apoiando em quem escolhia como referência na sua rotina de trabalho. Não sei se era somente para mim que ela telefonava todos os dias, se era só a mim que ela convocava para as tardes inesquecíveis ao seu lado e em sua pequena caverna. Preferi me convencer de que eu possuía esse privilégio, que eram somente meus esses gestos tão imensuráveis de atenção.

Estar com Isa por tanto tempo significava velejar por um lago sereno, sob um céu azul imaculado, ou naufragar nas ondas de um mar furioso e devastador. Tudo era intenso. A alegria por estar em sua companhia foi afogada, em muitas ocasiões, pelas marés da inconstância do seu temperamento. Felizmente, nunca nenhuma turbulência foi capaz de sufocar a minha perseverança.

A única frustração intelectual que senti ao seu lado ocorreu quando anunciei o relançamento de um dos meus livros e ela não exibiu qualquer interesse pela parceria para me ajudar. Porém, isso não a fez pior para mim. Nada era imperdoável.

Nas últimas semanas antes das suas férias, pressenti pela primeira vez que estávamos nos harmonizando, no afeto e na intimidade. As névoas pareciam se dissipar. Ela ria mais ao meu lado, cismava menos, demonstrava confiança e o desejo de criar um elo. Ou, quem sabe, nada disso aconteceu e eu é que me entreguei aos delírios da ansiedade. Seja como for, sou um otimista e sempre creio no melhor da vida.

Até o último dia em que trabalhou, nos falamos diariamente. Na última semana antes da licença, não consegui visitá-la. Não me aborreci por isso, a dedicação ao trabalho proporcionaria a ela um descanso merecido e sem preocupações. Assim pensei.

Logo nos primeiros dias das férias, Isa silenciou. Minhas manhãs não se iluminaram mais pela sua voz; minhas tardes deixaram de ser temperadas pelo pão-francês, café e frios em sua companhia; meus sonhos se esvaziaram sem as mensagens de boa noite. Tudo cessou. Sem nenhuma explicação, nenhum retorno. Simplesmente desapareceu, como uma estranha que não me reconhecia.

Por que não confessar que sou um velho sentimental? Eu sou. A falta de qualquer sinal de Isa me entristeceu, me ressentiu. Não me desapontei apenas por ter o orgulho ferido ao concluir que fui um mero objeto descartável, lamentei por toda a idealização e deferência pelas quais eu a enxergava.

Isa foi uma das raras mulheres que desejei admirar, é difícil entender o porquê de ela ter preferido se revelar como miragem no último capítulo. Restou-me retornar à aridez da promiscuidade.

Tudo o que era sólido se desmancha no ar, tudo o que era sagrado é profanado — escreveu Marx.

O propósito deste relato, para ser considerado um relato, está em contar que nas últimas semanas, antes do desolador sumiço. Eu e Isa nos conectamos. Se não foi real, não nego que acreditei que fosse. Estávamos próximos, arrisco-me a dizer que estávamos felizes por finalmente dividirmos emoções em comum. Pela primeira vez, em oito meses, ela me presenteou com dois livros comprados em uma visita que fizemos juntos a Biblioteca Nacional.

Como somos duas criaturas que encontram prazer na luxúria, fomos mais do que nunca uma dupla nas brincadeiras libertinas. Mergulhamos nas provocações eróticas. Foi divertido para mim e creio que para ela também.

Nossa fronteira eram os limites da sua sala. As restrições que cercavam Isa se mostravam intransponíveis, tanto pelas dificuldades burocráticas como pela aparente falta de vontade dela em se libertar. As barreiras, no entanto, nunca me impediram de continuar cultivando a ternura.

Como eu disse, sou um velho sentimental. Diante do maremoto do desgosto, sempre escolho guardar as melhores lembranças: o sorriso que me iluminava, o olhar delicado que me observava.

Quem sabe, na minha ingenuidade, eu ainda não esteja esperando para descobrir que entendi tudo errado, que tudo foi real, que nada é miragem. A porta pode se fechar, mas mantenho as janelas abertas para permitir que entre alguma aragem capaz de me consolar.

Que me julguem como ridículo, mas os maiores orgasmos que experimentei na vida derramaram-se do coração.

Se eu não sinto falta dela? Ainda sou um homem que não perdeu a sensibilidade, sinto falta do hábito que tínhamos de conversar, de nos vermos de vez em quando. O que ficou agora é aquele vazio de quem acreditava no outro e o tempo vai mostrando que o sentimento era unilateral. É provável que tudo fosse uma mentira erguida por Isa, um momento de diversão para preencher o tédio entre um programa e outro, a pequena tragédia estava na minha crença de que era real.

Não tem problema, eu transformo decepções em arte. Que se destaque neste texto o valor irrevogável que dou ao afeto e aos que se tornam próximos de quem eu sou. Que a memória seja infinita enquanto dure…

Andarilho da Lapa

O ANDARILHO DA LAPA

Cansado… é a palavra que me vem à mente muitas vezes, quando estou prestes a entrar em uma sala do AA37 ou quando estou perambulando pelo Centro. Compreenda, entrei no meu primeiro bordel em 1980, depois disso me tornei um lobo desgarrado buscando saciar a fome da libido. Acredite, forista sem fé, mais do que uma necessidade, toda fome é um vício.

Foi a última noite em que saí para caçar, a mais recente, antes da invasão da falsa alegria do Carnaval. Confesso que sempre fui um velho misantropo, bem antes de me tornar um velho pela idade. Nunca gostei de muvuca, de calor humano ao meu redor, sofro de antropofobia. A única vez em que me senti bem no meio de uma multidão foi no Comício das Diretas em 1984, havia um romantismo idealista que unia e confortava quem esteve no miolo daquela turba.

Foi minha incansável insônia crônica que me jogou nos braços da madrugada, cogitei ir para a Vila Mimosa, mas concluí que seria um destino deprimente, a Av. Francisco Eugênio também não me apeteceu. Aonde ir? Copacabana já era, as frees estariam dormindo ou cuidando dos filhos. O que resta? A Lapa, o último reduto libertino, não que seja um lugar que me motive, apesar de toda a história boêmia que repousa naqueles sobrados. A Lapa continua resistindo às transformações do tempo, morrendo e ressuscitando através dos séculos.

Para o leitor casado ou àquele que está abandonando o casamento na tentativa de recuperar a juventude perdida, que se limita somente aos encontros nas salas dos corredores sombrios da rua Álvaro Alvim ou em prédios decadentes da cidade, para esses ainda é difícil recordarem-se de que o maior tesão do sexo está na adrenalina que o precede, nada que é programado favorece à adrenalina. Talvez, por isso, eu me sinta um pouco entediado atualmente, me deixei contaminar por um ritmo que não é o meu. Retomar a liberdade, o meu desejo por descobertas, é me libertar do bolor sexual dos outros.

Sei que para alguns é complicado crer que existe um mundo mundano além das salas de mulheres com anúncios, não é à toa que um ou outro forista me pergunta, após ler alguns dos meus relatos com mulheres aleatórias: “ela existe mesmo, Dante?” — Foi assim com a Gisele, com o Palácio de Cristal e com outras situações. No caso das minhas visitas ao Palácio de CristaL, dois foristas estiveram lá e me deram retorno, gostaram. No fórum não há essa cultura da rua, da caça aleatória, mesmo que envolva garotas de programa. Essa é a única modalidade que realmente me interessa agora.

Quem frequenta a Lapa com olhos de ver deve ter reparado que não é incomum sermos repentinamente abordados por mulheres que se apresentam como promoters em muitas das casas de diversões que ali estão instaladas, algumas a gente olha e sente a saliva pasma de desejo escorrer pelo canto da boca, são mulheres bonitas. O que pode acontecer é demorarmos para percebermos que algumas dessas mulheres estão ali para jogo.

Larguei um pouco a cachaça Salinas e voltei a abraçar o Black Label, o uísque é a única bebida alcoólica que opera uma transformação psicológica em mim, fico mais eufórico, mais solto, mais descontraído, chego a me sentir feliz. Após rodar para cima e para baixo na Av. Men de Sá, pedindo uma dose do Black em cada esquina em que vi um bar, decido entrar em um estabelecimento que fica entre a rua do Lavradio e a Gomes Freire, na mesma calçada da Up House. Tocava um funk quando passei em frente e me chamou a atenção uma cortina que me impedia de ver o que rolava lá dentro. Fiquei na tocaia, até que alguém saiu, a cortina se moveu e pude observar que o interior do lugar era pequeno e estava lotado. Entrei e fui recepcionado ao som de Michael Douglas…

MICHAEL DOUGLAS

PARTE 2

Saber escrever é perigoso. Você pode despertar admiração, competição ou recalques; pode erguer mundos, descrever cenários, conquistar a eternidade; pode enaltecer ou implodir pessoas; desmascarar mentiras e falsidades; pode dar fama ou relegar ao anonimato qualquer criatura ou situação que sirva como tema. A palavra é poderosa, é a arquiteta do nosso espírito, aprendo e confirmo isso à medida em que me aprimoro na articulação da língua.

É inegável que a idade pesa, mesmo que antes eu não tivesse essa melancólica noção sobre o princípio da velhice. Fui um guerreiro dos mais ativos, minha conta sobre a quantidade de ocasiões em que fiz sexo já se perdeu há tempos. Eu não poderia ter aderido ao matrimônio quando mais novo, pois seria mais um adúltero patético povoando as penumbras envergonhadas da prostituição e não suporto viver uma face de mentiras. Meu único ato de juízo foi me manter como um celibatário.

Hoje, percebo que estou maduro para um relacionamento mais estável. Talvez, por isso, eu esteja também mais suscetível às ilusões sentimentais. A experiência nem sempre nos faz imunes à malícia. Ser uma alma libertina não me priva de ainda possuir um tempero romântico. Sou da velha guarda, da safra dos boêmios que ainda amam.

Afirmo sempre que o libertino não é aquele que não ama, mas é o personagem que não se encaixou em qualquer espécie amor. É um errante, um náufrago do afeto, agarrando-se às pequenas boias que flutuam nesse imenso oceano das miragens, boias que logo afundam e o obrigam a continuar nadando. É uma vida solitária, mas em que a solidão não é castigo, é dádiva. Na ausência do amor, ama-te sem reservas ou pudores.

A passagem do tempo tenta impor aos que envelhecem um tipo de deslocamento geracional, sobrevivem aqueles que sabem se inserir em todas as épocas que testemunham e atravessam. Com o avançar da idade, precisamos escapar dos nossos próprios preconceitos e da armadilha tosca que o etarismo arma para nos encurralar. Após os quarenta anos, é preciso revolucionar-se diariamente para não se tornar um proscrito condenado pela frieza homicida do calendário cristão.

PARTE 3

O que ainda me empurra para a noite? Não tenho certeza, talvez a ansiedade, uma ponta de angústia, o breve incômodo por estar sozinho quando gostaria de me compartilhar com uma mulher que estivesse à minha altura.

O universo da luxúria é frio, principalmente no que diz respeito às mulheres. Uma prostituta tem seu lado social, de família, é onde ela preserva seus melhores sentimentos. Por outro lado, quando está com o homem que paga pela sua presença, não é incomum que assumam uma face maliciosa, que gira pelo interesse monetário, que não se importa com o outro, que quer apenas usar, se divertir com carências de forma muitas vezes implacável. As mulheres que cedem a essa bifurcação do caráter se perdem, se afogam em si mesmas. Nunca vi um final feliz em casos assim. O afeto não salva, mas atrai energias melhores.

Naquele buraco em que entrei, no meio de um bando de jovens saltitantes, envolvido pelo funk nas alturas, me senti um Matusalém. Não querendo ser pernóstico, mas sou um homem clássico, frequentador do Teatro Municipal, da Sala Cecília Meirelles, um adepto da música clássica, leitor sofisticado, me visto com sobriedade, considero-me um exemplar elegante da minha geração e cultivo tudo isso com dedicação. Estar no meio daquela arena selvagem me oprimiu, senti o impacto do choque de gerações, da ruptura com meu próprio tempo. Não suportei ficar cinco minutos naquele ringue juvenil, escapei dali como um presidiário desesperado pelo oxigênio das ruas. Também possuo meu limite de tolerância.

Voltei a perambular pelos descaminhos da Lapa, pensei em revisitar o Palácio de Cristal (PALÁCIO DE CRISTAL), mas a ausência da Gisele acentuaria o meu desânimo. Com as pernas cansadas, os olhos turvos pelo uísque, decidi encostar a carcaça no primeiro abrigo que avistei, um lugar chamado Cavern Pub. Estava cheio, uma banda de rock se apresentava, me embrenhei e pedi mais um Red Label que matei em um único gole. Creio, estimado forista, bebo pouco, mas quando saio para beber costumo compensar todos os dias em que não bebi.

A mágica acontece quando menos esperamos. Uma mulher de uns quarenta anos, trajada em um estilo gótico, surgiu do nada e se aproximou de mim.

— Desculpa perguntar. Você está bem? Achei seus olhos tristes?

O destino me pregava mais uma peça. Girei o pescoço para ver quem falava comigo e me deparei com uns olhos azuis que também teriam roubado o paraíso de Adão. A resposta à pergunta que me fez ficou entalada na minha garganta, pois me pareceu a oportunidade exótica de falar sobre toda a minha vida. Ela continuou me encarando. A banda começou a tocar Something, meus olhos quase marejaram…

SOMETHING

FINAL

Sou um insurgente. 

Sim, ao contrário do que alguns insistem em suspeitar, talvez por estarem mergulhados na ignorância da inexperiência, não escrevo ficção por aqui. Tenho na minha face de jornalista a inevitável simpatia por narrar histórias que brotam da vivência verídica do dia a dia ou do noite a noite. Aos que tentam me reprovar por escrever relatos com apelo sexual, respondo com os versos do inigualável poeta português José Régio:

“Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: “vem por aqui!”?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…”

—————————-Continuação—————————————–

— Se quiser conversar, sou psicóloga — me informa a coroa gótica.

O fato de se dizer psicóloga mais me desanimou do que motivou, no entanto, a torrente incessante do destino me oferecia a oportunidade de uma conversa inesperada. Perguntei se eu poderia pagar uma bebida, ela pediu uma caipirinha e aceitei o convite do acaso, despejei minhas infelizes experiências recentes no ouvido da suposta psicóloga. Ao terminar, lembrei-me de que não sabia o nome dela.

— Demmy, não estranhe. Sou filha de americanos — ela me responde.

Pela cor imaculada do azul dos olhos, tomei como verdade a origem do nome. Pareceu-me que estávamos os dois no mesmo patamar de embriaguez, Demmy foi muito simpática, demonstrou uma capacidade rara de ouvir sem julgar. Permanecemos ali, debaixo de um toldo com a inscrição “Boemia da Lapa”, trocando as nossas impressões sobre o vertiginoso ato de existir.

Com a conversa esgotada, me despedi de Demmy e segui no meu périplo noturno pela velha Lapa. Segui até ao Bar das Quengas, que nos meus tempos mais juvenis era um pé-sujo democrático frequentado por putas e travestis lutando pela sobrevivência. Busquei um lugar vago e sentei-me, pedi outro uísque. Sinceramente, perdi a conta de quantas doses de uísque tomei naquela noite, mas eu continuava um ébrio dono da razão.

— Tá sozinho, rapá? — perguntou-me um sujeito na mesa vizinha.

Respondi que sim.

— Tu é carioca? Senta aqui com a gente, somos de Manaus e estamos visitando essa cidade da porra.

A contragosto, mas por cortesia, troquei de lugar e me acomodei na mesa do amazonense, ele estava acompanhado de duas mulheres, uma delas grávida. Falei sobre o Rio, sobre a minha origem gaúcha, ele dissertou sobre Manaus e sobre sua própria vida. Contou-me que já tinha sido morador de rua em São Paulo, mas hoje é um orgulhoso empresário na área de informática. Expansivo, apresentou-se como Edvaldo, apontou para a morena bonita agarrada ao seu ombro, revelou ser sua namorada. Teceu elogios à grávida do meu lado, futura mãe solteira.

O interessante é que não detectei qualquer sotaque nos manauaras, talvez amazonenses não tenham sotaque, foram os primeiros que conheci de perto.

— Conhece algum lugar bom para a gente ir? Para virarmos a noite na farra? — me pergunta Edvaldo.

— Olha o lugar que conheço aqui por perto talvez você não aprove, é uma boate. Uma boate de swing.

O grupo se entreolhou e Edvaldo solta a exclamação.

— Homem, é tudo que a gente queria. Conhecer as sacanagens dessa cidade. Por isso, viemos à Lapa. Vai com a gente? Swing é casal, temos que formar dois casais.

— Mas ela também vai? — apontei para a grávida.

— Claro que eu vou — a própria gestante respondeu.

Quando dei por mim, estávamos os quatro entrando na boate Mistura Certa, com a grávida segurando em meu braço. Chamava-se Kássia, uma loira bonita que me fez lembrar a atriz Cheryl Ladd quando jovem.

Edvaldo encheu a mesa de bebidas. Eu estava entrando no começo desconfortável das vertigens alcoólicas, mas não quis estragar a festa. A namorada do Edvaldo era uma morena realmente lindíssima, cabelos longos, rosto de traços finos, olhos negros e expressivos, um corpaço de parar trânsito. Edvaldo cochichou ao meu ouvido que se tratava de uma garota de programa, amante de um advogado e que topou viajar para o Rio com ele pela “modesta” quantia de sete mil reais.

— E a grávida? — perguntei.

Também era uma garota de programa que deu mole e engravidou de um cliente que se comprometeu a bancar o filho.

No meu íntimo mais profundo, eu pensei: definitivamente, putas e libertinos se atraem como o mercúrio. Depois da Demmy psicóloga, a casualidade quase previsível me coloca no meio de um putanheiro com duas garotas de programa a tiracolo. Quem sabe ainda me livro dessa sina me submetendo a um descarrego?

Edvaldo e a morena fizeram a festa no labirinto da luxúria. Eu, que nunca havia ficado com uma grávida, me meti em uma cabine e recebi um dos boquetes mais arrepiantes da minha carreira, além de uma sequência de beijos na boca capazes ressuscitar Lázaro.

Fim de festa, o excesso de doses de uísque agora me provocava náuseas mais incômodas, preferi me despedir do grupo. Perguntei quanto devia a menina, Edvaldo disse que nada, tudo por conta dele, incluso nos sete mil reais. Por via das dúvidas, puxei duzentos e cinquenta reais e entreguei na mão da gestante, que me deu outro beijaço na boca como agradecimento.

Despedi-me de todos eles. Antes de sair, ouço a derradeira pergunta de Edvaldo.

— Homem, não seu teu nome, nem perguntei.

— Dante, meu nome é Dante.

VINHETA

Fiz sinal para um táxi, desfaleci na minha cama e quando acordei nem eu mesmo acreditei nas memórias que transbordavam em mim

Black Or White

BLACK OR WHITE

“Sou um organismo cibernético, tecido vivo expandido em um endo-esqueleto de metal. Ciborgue T-800, sistema Ciberdyne, modelo 1-0-1. Fui capturado e reprogramado para essa época no ano de 2029, com o objetivo de garantir a sobrevivência de John Connors, líder da resistência humana contra a Skynet. Venha comigo, se quiser viver.” (Terminator)

EXTERMINADOR DO FUTURO

Os pneus do automóvel, com marcas cruas de lanternagem, chiavam sobre o negrume do asfalto, o céu cor de chumbo respingava lágrimas sobre as paisagens esquecidas do Rio de Janeiro. Atravessar a Tijuca em direção ao bairro de Bonsucesso é semelhante a uma viagem de trem fantasma ou a um trailer do Exterminador do Futuro, cuja música não me saiu da cabeça durante o percurso. Um libertino não teme, mas também não perde a noção do perigo. Meu destino era a Black White, onde encontraria outros replicantes da minha mesma espécie.

A passagem pelo bairro do Rocha, Benfica, a travessia pela Avenida Leopoldo Bulhões, um cenário urbano que nos faz pensar que aquelas regiões sofreram alguma hecatombe recente. A penumbra de um semideserto, com velhos casarios em ruínas e prédios malcuidados, erguem-se em sombras de mistério e solidão. A única luz de vida que pude avistar no trajeto veio do bar Velho Adônis, local que ainda preciso conhecer de perto. Favela do Arara e Manguinhos tracejam diante dos meus olhos curiosos.

Chego ao destino. Entro em uma boate vazia, mas que rapidamente foi recheada por muitas mulheres, mas os clientes continuaram poucos. Bebo, misturo Brahma com Ice, o que me garantiu uma desagradável dor de cabeça no dia seguinte. Algumas garotas se apresentaram para mim, dispensei todas, não porque não fossem interessantes, mas pela minha preferência de ficar livre até escolher a fêmea para o abate. Abate talvez seja uma expressão forte, pois Pikachu, o breve, se mostrava indisposto naquela noite e provavelmente me renderia pouco sexo e um grande vexame.

A BW tem um clima simpático, algumas garotas realmente interessantes, perdidas na Zona da Leopoldina. O comandante da casa, muito educado, veio me cumprimentar, perguntou se estava tudo bem, sabia até que sou escritor. A fama corre. A princípio, fiquei em dúvida entre três moças, depois entre uma loira atraente chamada Lolita e uma morena extremamente sexy que usa o nome de Melissa. O papo com a Melissa fluiu, a menina se mostrou sem restrições, me deu um beijão de língua na pista e foi mais rápida para me convencer a escolhê-la. Alcova.

O período de uma hora na BW na suíte não é barato, mas considerei que Melissa merecia e subimos. No quarto pude vislumbrar seu corpo despido do minúsculo biquíne, um corpão de empolgar defunto cremado. Cintura finíssima, bundão esférico, barriguinha zero e um par de seios de adolescente que me fez salivar mais do que faz um sunday do McDonald’s.

Beijos fartos, roçadas perigosíssimas, chave de perna, gemidos estonteantes de Melissa e um boquete que faria inveja à despudorada Linda Lovelace. Entre gargantas profundas e esfregas de alta tensão, quase caí na armadilha da ejaculação precoce, mas para não sucumbir pedi que Melissa ficasse de quatro e tremi daquela paisagem que poderia ser confundida com a descoberta do novo mundo por um marujo desavisado. Ajoelho-me e penetro com respeito religioso naquele templo úmido e quente, a vagina. Estocadas leves que aumentam com o entusiasmo. Pikachu, o breve, se vê obrigado a atuar com disposição diante daquele monumento tropical que é Melissa. Gozei horrores, ejaculei a tabela periódica, a minha árvore genealógica e o tratado da evolução de Darwin. Despenco arfando no colchão que guarda com o silêncio de um monastério todas as fodas que sustentou e testemunhou naquela pequena suíte.

Encerrado o embate, ficamos abraçados, eu e Melissa, conversando sobre a vida. Ela ainda parecia estar cheia de fogo, enquanto eu não passava de um trapo tentando voltar a respirar no ritmo normal. Hora da despedida. Retorno à bucólica Tijuca pela Avenida Brasil, funil onde nossas vidas convergem. Ali, não existem belas paisagens, o que predomina é a realidade, feia como podem ser as realidades, retrato da nossa degradação. I’ll be back

Blue House e o existencialismo libertino

BLUE HOUSE E O EXISTENCIALISMO LIBERTINO

O rádio tocava Something In The Way, do Nirvana. O táxi escalava em marcha lenta, num quase sem fôlego que cobiçava o alto da estrada Grajaú – Jacarepaguá.

Something In The Way

Pela janela, eu contemplava a cidade, cemitério de vivos, se reduzir a pequenos pontos de luz, luzes brancas e amareladas, um pálido véu de estrelas falsas contemplando a imensidão enigmática do cosmos. Qual o sentido da vida que morre? Não conseguia evitar filosofices enquanto os pneus sofridos giravam em direção ao destino que escolhi. Viver sem buscar sentido, talvez seja a resposta. Meus olhos mergulhavam na mata árida, na favela que só encontra significado na miséria, na escuridão que me espreitava se misturando ao meu semblante interrogativo. As batidas da música me afogavam em mim mesmo.

Da Tijuca até a Blue House é um estirão. O taxista tagarelava reclamando dos passageiros, do trânsito, da vida. “Qual o sentido da sua vida?” — senti vontade de perguntar —, mas a resposta ele me oferecia com o seu papaguear interminável: é o caos que não aspira sentido algum.

Descendo a serra, minha mente submergia num Rio de Janeiro profundo, uma Gotham City sem Batman. Comungado com os pneus, com ritmo da canção estrangeira, eu corria em direção ao caos que me faz esquecer que não há sentido em nada, pois não pode haver sentido em vidas que morrem. Talvez, o único sentido da vida seja o orgasmo, a explosão de prazer que anseia germinar outras vidas sem sentido, num ciclo interminável de nascimento de natimortos.

A estrada de Jacarepaguá exibia bares luminosos, lotados de gente se alcoolizando, para esquecer, em busca do gozo que, numa duração de poucos segundos, nos eterniza neste planeta condenado.

— A boate está perto, é mais ali na frente — me avisava o taxista tagarela.

Eu vestia uma calça jeans, uma blusa escura e calçava as minhas botas inalienáveis. Ser libertino é o meu sentido, ser essa sombra que vaga pelos cabarés e pelos corpos mornos das prostitutas, sou a sombra que brilha. De súbito, o motorista diminui a velocidade. Chegamos. Pago os cinquenta reais da corrida e finco minhas botas na terra que circunda aquele território desconhecido.

Na recepção, sou recebido por um sujeito mal-encarado que pede o meu celular e mete pedaços de esparadrapos nas câmeras do aparelho.

— É por segurança. Já tivemos problemas — ele me explica por entre os dentes.

Recebo uma comanda, outra porta se abre e estou dentro da boate. Mesa de sinuca, pequenos sofás, bebidas espalhadas por bancadas redondas e triangulares. A luz tênue da boate projeta silhuetas com pouca roupa dançando, o espaço não é grande. Mulheres na pista, mulheres chegando, a atmosfera de flertes gananciosos e olhares lúbricos compõe o enredo do inferninho.

Uma loira altíssima, de corpo cavalar, me encara. Decido me aproximar. Ela me conta que também cumpre expediente na 65. Pergunto o nome, pergunto o que faz na cama. “Não beijo na boca” — a resposta me faz descartá-la imediatamente. “Uma mulher que custa 400 contos na 65 e não beija na boca” — murmurei com tom de indignação. Malandra, antes da resposta fatal, conseguiu me tirar um drink caríssimo como brinde.

Vaguei pelos cantos do lugar tentando encontrar uma presa, eu estava determinado a foder. Mulheres que não me interessam se aproximam, eu as descarto sem permitir que se demorem na abordagem. Ela veio caminhando em passos lentos, mulata de 1,70m, cabelos curtos, dotada de curvas vertiginosas e olhos que pingavam sensualidade a cada passo que ela dava. Vinha em direção ao bar, na minha rota de interceptação. Não hesitei, interrompi a rota da mulher.

— Preciso saber seu nome — perguntei.

— Bárbara. E o seu?

— Dante. Meu nome é Dante.

Perdoe-me pelo trocadilho infame, afeiçoado forista, mas a Bárbara é bárbara. Uma beleza sem exuberâncias nos traços do rosto, mas o corpo curvilíneo, a bunda empinada que poderia estampar capa de revista, os olhos de ressaca que causariam inveja à Capitu de Machado de Assis… Bárbara é o abismo do tesão. Conversou comigo sem pressa, bebemos juntos, ameaçamos beijos públicos e impudicos, ela esfregava sua pele na minha e roçava seu rabo irretocável no meu combalido pênis. Pedi uma alcova. Quarenta minutos por 180 reais, no cartão sai por 220 pilas.

Ela me conduz ao quarto, um quarto amplo, com box e chuveiro, poderia ser o aposento de algum motel barato e de boa qualidade. Gostei. Bárbara me avisa que irá pegar seus apetrechos, aguardo. Ela volta rapidamente, se despe do minúsculo biquine e me beija com a sede de uma mulher que atravessou a secura de um deserto. Nossas línguas se enroscam, Bárbara geme, me abraça com força, esfrega-se em mim, roça sua vagina em meu pau.

“Que porra de mulher maravilhosa” — eu pensava.

Acredite, forista sem fé, Bárbara é realmente maravilhosa. É daquelas que se entrega completamente, goza, chupa desejando sugar o nosso sémen. Alertou-me de que não fazia anal, mas no quarto conduziu meus dedos para o seu cuzinho macio e apertado. O altar é o cu — asseverava o Marquês de Sade com a propriedade do maior libertino que existiu. 

Bárbara cavalga em mim com o rosto virado para o meu, me beija, me lança seus seios duros e bicudos para que eu os lamba; me cavalga de costas, pede que eu enfie o dedo em sua bunda, geme alto, parece gozar; fica de quatro, eu ajoelho diante daquele templo sexual e o penetro rezando um Pai Nosso.

Bárbara pede que eu a chupe e caio em sua vagina como um mouro orando à Meca. Ela se contorce, grita, goza outra vez. Abre suas pernas e me convida para a mais básicas das posições, subo por cima do seu tronco, penetro novamente em sua boceta e meto enquanto nossas línguas se entrelaçam num nó cego. 

Gozei sentindo o infinito dos segundos em que os espermas saltam para a armadilha dos instintos. Desabei esgotado ao lado de Bárbara, semimorto. E naquele vazio depois do orgasmo, naquele breve momento em que deixamos de existir, lamentei por aqueles espermatozoides que jamais encontrarão um óvulo, senti a solidão ancestral de todos os libertinos, essas sombras que brilham. 

Bebel Sucuri

BEBEL SUCURI

Loucuras não se explicam, se cometem!

Foi numa sexta-feira, início da noite. Eu estava confortavelmente acomodado no escritório de casa assistindo umas fitas de um seriado antiquíssimo que um amigo da TV Globo conseguiu gravar: Xazan e Xerife. Alguns irão lembrar, era um programa com o Flávio Migliaccio e o Paulo José. Nostalgia braba. De repente, o telefone toca tão alto que chego a me assustar.

Teixeirinha do outro lado da linha.

– Dante?

– Fala, Teixe! O que manda?

– Preciso da sua ajuda hoje.

– Pô, mas hoje? Já estou até de pijama!

– Tem que ser hoje.

– Diz.

Eu havia tirado carteira de motorista há pouco tempo, me sentia inseguro ao volante. O Teixeirinha, com o pretexto de me ajudar a praticar mais a direção, me pediu para levá-lo até um

Motel na Av. Brasil, alegando que uma namorada insistia em conhecer o tal recanto. Ele, no entanto, queria ver primeiro onde ficava o prédio de alcovas.

– Mas Teixeirinha, por que você não vai com o seu Corcel e já leva logo a mulher?

– Cara, o Corcel está parado, quebrou a cruzeta!

– Quebrou o que, Teixe?

– A cruzeta!

– Cruzeta?!

– É, mas deixa para lá! Coisas do Corcel! Estou quase indo num Antiquário para poder consertá-lo. Mas vamos logo!

– Tudo bem. Vou me arrumar e passo na sua casa.

Bastou meia hora e eu estava na Av. Vinte Oito de Setembro pegando o Teixeirinha e depois ajustei o leme para a Av. Brasil.

O céu estava carregado. Chuva anunciada. Quando passamos em frente ao Caju, o Teixeirinha me informa que sua intenção era localizar o Motel Carbonara, ficava em Bangu.

-Pô, Teixeirinha! Você quer ir até Bangu só para saber onde fica um Motel?! Que isso?!

– Cara, preciso saber onde fica esse troço. Motel na Brasil eu não confio.

– Caramba! Mas a sua namorada não tem tara por um motel mais perto, não? Querer transar num motel de Bangu nem é mais tara, é perversidade sexual!

– O importante é que ela quer me dar, Dante! E se a fantasia dela é transar em Bangu, alugo até um barraquinho lá, o que não posso é perder a mulher.

Viajamos por quase quarenta minutos para aplacar a obsessão do Teixeirinha. O Carbonara ficava na altura do Conjunto da Marinha, a entrada era pela Brasil. A cena foi ridícula, identificamos o Motel aos gritos histéricos e fanhosos do meu amigo. Costumo descrever a voz do Teixeirinha dizendo que ela não está muito longe de uma dublagem do Pato Donald e é bem por aí mesmo.

– É o Carbonara! É o Carbonara, Dante!

– Beleza! E o que a gente faz? Entra e tira um cochilo?

– Perde o amigo, mas não perde a piada, né? Vamos voltar.

– Voltar? 

– Voltar. O retorno é ali na frente.

E voltamos. O Teixeirinha, cheio de sono, me orientou sobre o trajeto antes de começar a madornar do meu lado.

– Dante, não tem erro. É uma reta! Quando perceber que estamos saindo da Brasil, você me acorda. A gente pega a Francisco Bicalho e vamos sair na Praça da Bandeira. Molinho! Coisa de criança! Você me chama se ficar enrolado. E dormiu…

Na altura de Irajá, em direção ao Centro, uma tempestade desabou sem pedir licença. Eu mal podia enxergar meio metro à frente do carro. Fui prosseguindo devagar no caminho. Nisso, o Teixeirinha desperta por alguns segundos.

– Com essa chuva é que vou ficar constipado de vez! – Diz meu amigo.

– Constipado, Teixe?! Isso é o que?

– Estou ampliando meu vocabulário.

– Praticando o boiolês.

Com o meu copiloto novamente apagado, alcancei Manguinhos, onde a chuva havia perdido parte da força. Mantive-me na reta.

– Teixeirinha! Acorda! Estou subindo um viaduto. Faço o que depois?

– Viaduto?! Que viaduto?! – Fala o Teixe enquanto se espreguiça.

– Você é que tem que me dizer! – Respondo.

– Cara, que merda! Isto não é viaduto! É a Ponte Rio – Niterói!

– Putz! E vamos fazer o quê?

– Relaxar e aproveitar a paisagem. Não tem mais jeito.

– Pô! E onde a gente vai parar?

– Advinha? …

– Esquece! Já sei.

E, como nem eu e nem o Teixeirinha tínhamos um conhecimento profundo sobre a geografia de Niterói, fomos nos embrenhando pelo seu interior.

– Teixe, onde a gente está?

– Não sei, Dante. Vamos procurar alguma placa que nos tire daqui.

Placas eram ficção no lugar onde estávamos e, sem saber como, fomos desembocar em Charitas. Resolvemos parar o carro e tomar uma cerveja num bar próximo à praia.

– Vamos ter que comprar um mapa para sair daqui. – Digo.

– Cara, vamos seguir as placas!

Acontece que todo libertino sofre de um fenômeno conhecido como a Síndrome do Mercúrio. Ou seja, um libertino sempre atrai outro libertino e, juntos, são atraídos por um Bordel.

Não deu outra. Quando tentávamos encontrar a trilha de volta para o Rio, embicamos por uma Estrada sem nenhuma indicação que nos fornecesse seu nome. No meio do desvairado percurso, avistamos uma Casa toda iluminada, como se estivesse decorada para o Natal. Na fachada, uma placa:

“Não percam! Hoje tem Show da Mulher Serpente! Duas cervejas grátis! ”

– Dante, vamos entrar aí. A gente aproveita e pergunta como encontrar novamente a Ponte.

Estacionei e entramos.

Apesar da aparência faraônica, a casa por dentro era simples. Assemelhava-se a um bar de beira de estrada. Mesinhas de ferro espalhadas num salão espaçoso, sinuca, chão de cimento e, ao fundo, um tablado que serviria de palco para a grande apresentação da noite. A música do ambiente era vibrante, moderna e dançante. Mulheres circulavam por entre as mesas trajadas em shortinhos jeans e tops. A maioria era bagaceira, umas poucas atraentes. Serviam para acentuar o contraste no momento em que adentrava a Estrela da noite.

Uns quarenta minutos depois que chegamos, com o Teixeirinha chapado, um Mestre de Cerimônias anuncia a sensação da noite: A Mulher Serpente.

– E, com vocês, a nossa Feiticeira. Segurem seus corações porque ela os arranca com os olhos. Que entre a Rainha de todos os Sonhos, a Mulher Serpente!

Surge então uma mulher alvíssima, alta, cabelos negros cacheados escorrendo abaixo da cintura, um par de olhos azuis incandescentes. Lindíssima! Ao som de Erótica (Madonna), vestida numa justíssima roupa de couro acinzentada e atravessada por decotes ousados, ela começou a dançar sinuosamente fitando cada um dos presentes no salão. Era hipnótica.

– Cara, o que é isso?! – Meio que exclama o Teixeirinha.

– É a Mulher Serpente, Teixe.

– Dante, finalmente sei o que é o Amor.

– Segura a onda, Teixeirinha.

– Cara, eu estou apaixonado.

– Você está é mamado, Teixe.

– Cara, o meu coração está naquele palco, eu tenho que ir lá pegar.

– Pô, Teixeirinha, fica quieto aí.

Minhas objeções não o impediram. Logo ele estaria postado à beira do palco com um olhar babão para a dançarina. Ela não demorou a perceber e sinalizou para ele subir. Aqui, chegamos ao clímax, amigo leitor.

O alucinado Teixeirinha estava no palco. A beldade o fez deitar no tablado e começou a despi-lo. A cada peça arrancada dele, ela também deixava cair uma. E foi neste ritmo que os dois alcançaram a nudez absoluta. Ela em pé sobre o meu embevecido amigo deitado entre suas pernas. O Teixeirinha parecia um bebê no berço, maravilhado com um móbile suspenso diante dos seus olhos. Ria sem jeito cobrindo os genitais. A galera presente foi ao delírio, ria e zoava numa verdadeira farra.  Agora, o Teixeirinha era a Estrela.

A Mulher Serpente saca uma garrafa de vinha e olha para o Teixe como se pedisse seu consentimento para algo que está por vir. Inicia um banho de vinho sobre o corpo inerte do nosso herói. Depois, agacha-se por cima dele e começa a lambê-lo por onde o vinho corria. Aplausos, gritos, assobios e o Teixeirinha rindo, rindo sem parar.  O show termina, ela cochicha algo no ouvido do nosso protagonista e ele vem ao meu encontro na mesa com um sorriso largo e ar de vitorioso.

– Vou precisar que você me empreste R$ X,00.

– Como é? Mas para quê? – Questiono.

– É o aluguel da suíte aqui em cima. Ela me convidou para ficarmos juntos.

– E o convite custa R$ X,00?

– Custa R$ X,00. Preciso dos seus R$ X,00 para inteirar os meus R$ X,00.

– Teixeirinha, você aloprou de vez!

– Nem pense em me negar isso, cara!

– Mas e o Carbonara com a sua namoradinha?

– Dante, a minha Gordinha perdeu a prioridade para este monumento.

– E como o monumento se chama? Você perguntou o nome?

– Não sei se devo falar. Você vai querer sacanear.

– Quer o dinheiro? Vai falando.

– Bebel Sucuri. Foi como que ela se apresentou.

– Bebel Sucuri?! Perdi até o tesão, Teixeirinha.

– Não importa o nome, o importante é a qualidade do produto.

Emprestei o dinheiro e o Teixeirinha desapareceu pelas escadas que levavam ao andar de cima do sobrado. Esperei por uma hora até que o avistasse descendo os degraus com um semblante de poucos amigos.

– O que houve, Teixe? Desembucha! Como foi o desempenho da garota?

– Cara, não teve desempenho de ninguém!

– Xiihh! Não acredito! Qual foi a merda que deu?

– Vamos sair daqui. No carro eu conto.

Dentro do carro, retomando a nossa Odisseia em busca da Ponte Rio – Niterói, o Teixeirinha passou a narrar o drama.

– Vai, me conta o que aconteceu, Teixe!

– Você nem vai acreditar…. Uma tragédia!

– Conta! Deixa de melodrama e conta.

– Vou resumir.

– Resuma.

– Chegamos à suíte, bonitinha até, tomei meu banho e deixei a Bebel no chuveiro. Voltei pra cama. Em cima de uma cômoda vi um potinho de creme, abri, cheirei, achei o aroma gostoso e resolvi esfregar um pouco no pau e no saco. Quis dar uma moral, deixar tudo cheirosinho pra gata.

– Mas e aí?

– Aí é que são elas. Assim que terminei de passar o creme comecei a sentir uma sensação estranha, uma dormência no saco.

– Peguei o pote novamente para ler o rótulo.

– E que creme era esse, Teixeirinha?

– Cara, era xilocaína. Meu pau não subiu nem com guindaste. Morreu! Morreu tudo!

– O que é isso, Teixeirinha? E como se resolveu com a Sucuri?

– Lá vem você querendo me sacanear. Não estou para isso! Falei que estava me sentindo mal, fiquei deitado por uma hora e saí fora.

– E o dinheiro?

Nem quis saber. Cara, eu estou inválido até agora por causa da merda da xilocaína e você vem me falar de dinheiro, porra! -O tom do depoimento era dramático, mas tive um acesso de risos que só terminou quando cheguei ao meu ansiado lar. Findava a Odisseia. Deitei exausto na cama e antes de fechar os olhos ainda pensei: o mundo é surreal!

Ariel

ARIEL

Insone crônico. Já perdi a conta do número de anos que padeço da dificuldade para dormir à noite, não é uma das experiências mais agradáveis perceber que o dia amanhece sabendo que ainda não cerrei os olhos. Não é fácil se acostumar a condição de vigília involuntária, já fiz tratamentos, consultei neurologista, até psiquiatra, mas nenhuma solução oferecida foi mais poderosa do que a minha resistência ao restaurador sono noturno. Nesta última sexta-feira, eu estava assim, desperto, inquieto, precisando atender à convocação das ruas, do céu cinza, da ameaça opressora da chuva. Esperei o temporal estiar, embarquei em um táxi e comuniquei o destino ao motorneiro.

— Camarada, me deixa na Rua Ceará.

Os pneus cortavam os bolsões d’água chiando como lobos no cio, enfrentaram os obstáculos aquáticos da Praça da Bandeira como bravos bandeirantes desbravando um território hostil. Quando alcançamos a esquina da rua Hilário Ribeiro com a Ceará, desembarquei. As nuvens voltaram a chorar com o volume de um temporal. Abri o guarda-chuva e fui atravessando os fluxos de correnteza que se formavam em direção à entrada da Vila Mimosa. Minhas botas encharcaram, as meias cuspiam a água de procedência suspeita, mas segui impávido, marchando firme sob os paralelepípedos do colosso da vida mundana.

Dezenas de copos de plástico boiavam sobre as sarjetas, camisinhas flutuantes giravam no desesperado balé das vidas sem sentido, rios artificiais se formavam com força do dilúvio, homens e mulheres de corpo ensopado passavam por mim procurando abrigo. Eu seguia indiferente, não buscava o sexo, mas caçava a exaustão que me trouxesse os sonhos do adormecer. O guarda-chuva não me protegia muito dos pingos graúdos que o vento lançava contra o meu rosto.

— Caralho. O que estou fazendo aqui? — um lampejo de juízo esbofeteou meu cérebro.

Penetrei no primeiro corredor da Zona, o chão alagado, um cheiro de fossa transpirava do piso, mulheres se amontoavam como se evitassem o contato com o ambiente insalubre. As adversidades enfrentadas até aquele momento não prometiam um desfecho promissor. Digo com sinceridade, afeiçoado leitor que me acompanha neste passeio, eu não fui ali para gozar, estava em fuga, talvez de mim mesmo. Rodei pelos dois corredores principais umas cinco vezes, não via nada que me interessasse. Minha libido estava pálida, apática. Se avaliarmos com honestidade, todos os relatos de fóruns são iguais, uma profusão de tédios que terminam no gozo ou na ausência dele. Somos máquinas narrando a produção industrial de espermas inúteis.

Uma voz de mulher me puxa do meu redemoinho mental.

— Vamos brincar hoje, tesão?

O convite saltava da boca carregada de batom de uma coroa loira que me soou familiar de outras eras da Vila. Os seios espremidos pela compressão de um decote precário alertavam que poderiam explodir a qualquer momento; com um brilho diabólico de quem conhecia a alma de todos os homens, os olhos verdes me encaravam aguardando resposta; os cabelos ruços da marafona estavam arrepiados como que desfeitos por uma ventania.

— Hoje não estou disposto para brincar, estou mais para um bater papo. Qual seu nome?

— Tá no lugar errado, né, tesão? Procura um padre — terminou o deboche com uma dessas gargalhadas de puta velha que devem ter ouvido na Central do Brasil — meu nome é Ariel.

A aparência carcomida pelo tempo não me despertava atração pela mulher, mas aceitei subir a uma alcova para receber o matador boquete sem camisinha que me prometeu. Ela pediu setenta reais, ofereci cem mangos para conversarmos um pouco e quebrar o gelo antes do ato. Aceitou e subimos a estreita escada em caracol da casa 21. A coroa me contou que mora em Santa Cruz, tem três filhos e um está preso em Bangu por roubo, que começou na vida com dezoito anos (tem 55) e ficará até quando der, que ainda faz um bom dinheiro. Parou de falar de repente, me olhou fixo e disse que eu tenho os olhos tristes. Desamarrou meu cinto, arriou a minha calça, sentou-me sobre o lençol puído da cama e abocanhou meu pau como se quisesse arrancá-lo pela raiz. Com movimentos de quem conhece a arte dos orgasmos, me fez gozar em dois minutos. Gozei forte, de olhos fechados, minha respiração transmitia o tufão pulmonar que me assolou. Quando abri os olhos, não havia mais ninguém na cabine, a coroa saiu em silêncio e me deixou só. Vesti a roupa, desci a escada tortuosa e ganhei a rua. Continuava a chover, não abri o guarda-chuva dessa vez, a água corria pelo meu rosto, invadia meu corpo, gelada, fria como a coroa que me chupou. Caminhei com as roupas alagadas até um ponto de táxi próximo à Mosaico.

— Me deixa na Praça Xavier de Brito, motorista.

Encostei a cabeça no vidro da janela e, por um instante, adormeci.

Anhinhanha

ANHINHANHA

Disse-me um amigo, após saber deste relato, que eu deveria procurar uma benzedeira. Talvez, seja um bom conselho.

Tarde quente, o suor inevitável molhava meu rosto, estaciono o Sucatão e decido conhecer o tal Paraíso das Panteras, conforme denominava o painel exposto acima de uma casa. Para amenizar a sensação térmica, decidi tomar três doses cerveja antes de entrar, quis buscar inspiração. Meus poros ficaram sobrecarregados diante da quantidade de água que eu expelia pelo corpo. Mais um pouco e eu me tornaria a nascente de algum rio caudaloso.

Entrei na Termas. Ao passar pela recepção, disseram que eu não precisaria pagar entrada. Penetrei no salão penumbroso, era fim de tarde, não havia muitas meninas. Pelo que me informaram, o movimento forte começaria a partir das 19h30. Sentei-me, pedi um Red Bull para debelar a sede e uns petiscos para alimentar a fome. Fiquei observando o salão quase vazio e avistei uma loira ajeitada que me chamou a atenção. Consegui contato visual, mantive o flerte por uns cinco minutos e então ela se aproximou…

Cerca de 1,60m; falsa magra; pernas grossas; bundinha arrebitada; lábios carnudos; cabelos abaixo dos ombros; rostinho de anjo. Graciosa!

Oim – Ela me cumprimenta.

Sim, leitor sem fé! Como você, eu também senti uma leve entonação do M no final do OI, mas não dei importância. Afinal, o que é um minúsculo M diante de um tamanho Tesão?

– Tudo bem? – Respondo.

– Tundo! – Agora, foi um N que surgiu, talvez seguindo a regra do “antes de P e B.”

– Qual seu nome? – Emendo com outra pergunta.

– Anhinhanha – Foi isso que ela pronunciou.

– Qual?! – Peço um replay para tentar entender.

– ANHINHANHA! – Ela eleva o tom de voz.

O que fazer num momento desses? Qual manual ensina a nos livramos desse tipo de embaraço? Eu ainda não havia compreendido o nome da menina, no entanto, não tinha coragem de perguntar novamente.

– Diferente seu nome! Bonito! É de origem indígena? – Ah, hipocrisia! Doce hipocrisia, como a vida seria mais amarga sem as suas sábias intervenções.

– Oncên anchã? Que nhada! Tão comum nheu nhome!

Era o início do meu pânico, eu não conseguia compreender o estranho dialeto nasalado que brotava daqueles lábios tão delicados. Porém, meu cavalheirismo e minha esmerada educação me obrigavam a agir como se tudo aquilo fosse a manifestação mais límpida da língua portuguesa.

– In o seun? – Ela desejava saber meu nome.

– Dante. Prazer!

– Jã conhenhia a cãsan?

– Como? – Tive que perguntar de novo.

– Jã conhenhia a cãsan?

Refleti por uns segundos para decodificar…. Ela me perguntava se eu já conhecia a casa! Era quase uma emoção traduzi-la.

-Não. Primeira vez!

-Tã gostanho?

O que seria gostanho? Gostando! É isso!

– É legal! Gostei! – Respondo para agradar.

Não precisei de muito mais para saber que a loira, além de gostosa, era fanha. Sim, incrédulo leitor, a loira era fanha! Nem no paraíso encontramos a perfeição, esbarrei com uma pantera fanha dentro do Paraíso das Panteras.

Prosseguir naquele diálogo estava me causando náuseas, era como manter o cérebro ligado a um tradutor simultâneo. Preferi encurtar o caminho e avisei que gostaria de ficar com ela. A menina abriu um sorriso que me fez perdoar todos os tiles (~), emes e enes que recheavam sua linguagem quase incompreensível. Fomos para o quarto. As dimensões eram pequenas, mas havia o conforto básico. Minha cabeça girava pelo efeito da bebida. Sem a roupa, o corpo da garota me impressionou ainda mais. Seios firmes, chana completamente depilada, bumbum emoldurado numa marquinha de biquíni minúscula. Beijos, boquete, bolinação. A menina era quente! Fica de quatro e tenta me provocar.

-Menhe na sua canchõrra! – Tradução: Mete na sua cachorra.

Aquele idioleto nasal estava me enlouquecendo, decidi precipitar o fim do encontro: meti!

– Aim, aim! Isso, come nhua canchõrra! Aim! Aim!

Sim, colega leitor! Eu concordo! Isto é incrível! A puta era fanha até para gemer! O gemido da mulher parecia grito de cachorro espancado, aquelas onomatopeias que vemos nas revistas de quadrinhos: caim, caim…. Eu me senti sodomizando o Bidu, o personagem canino da Turma da Mônica.

A tragédia se fez, não consegui gozar! A cada “aim” que a moça proferia, emergia a imagem do Bidu em minha lembrança. Joguei a toalha!

– Não vaim gonza? Gonzaaaan, gostonso! – Insistiu a fanha.

– Não estou bem…. Bebi muito! Estou cansado. – As velhas desculpas de quem só ansiava por fugir.
Paguei a conta, mas continuava intrigado. Não conseguia traduzir o nome da menina. Arrisquei perguntar mais uma vez.

– Desculpa, me repete seu nome? Esqueci…

– Ponxã! Jã esqueceum! É Anhinhanha!

– Ah! Ta! Não esqueço mais! – Eu não poderia esquecer o que continuava sem entender.

Mas de que vale um nome? Resgatei o Sucatão e voltamos a sobrevoar o negrume do asfalto da Av. Suburbana.

Amor de Pinóquio

AMOR DE PINÓQUIO

Para mim, a experiência do amor romântico sempre foi uma porta para a humilhação. Talvez, por ter demorado a intuir que o impulso da paixão é uma espécie de loucura momentânea, eu enfrentava problemas para controlá-lo e, principalmente, para lidar com episódios de rejeição sentimental. Tonar-se libertino, como eu gosto de definir, é uma metamorfose que nasce do simulado sofrimento das relações românticas. Não existe amor romântico, existe a química que dá ao desejo sexual uma aura de fascinação que não existe de fato. É uma armadilha, afirmava Schopenhauer.

Se atravessei muitos desses amores românticos? Sim, atravessei e atravessei mal. Viver a ilusão do romance com a convicção de manter o celibato e a regra de não procriação é um conflito interno sangrento. Devido a isso, provavelmente, o que encontrei nessas relações sentimentais não foi o lado onírico, mas a realidade concreta da traição, da deslealdade e, não poucas vezes, da rejeição e do aviltamento voluntário. A dor emocional mata ou liberta, no meu caso encontrei a libertação. 

Não posso contestar indivíduos que acreditam no casamento, mesmo quando eles atuam para demonstrar que o casamento é uma farsa burocrática. O indivíduo quer acreditar no matrimônio, quer crer que a procriação e a ideia de família completam a existência, mas ele busca prostitutas e desvia o dinheiro que deveria servir para consolidar sua fé em todas essas crenças.

Os cônjuges são criaturas que se agarram na mentira e fazem de si mesmos personagens hipócritas dissimulando a idiotice. Tudo isso resume uma doença psicológica derivada da insistente fé no amor romântico. O amor é uma mentira que a mente impõe para atingir objetivos vulgares, o homem vulgar a adota como valor absoluto, ignora a confirmação da mentira que ele demonstra em todos as ocasiões em que se desvia dos princípios que poderiam justificar seus fundamentos.

Atingindo a meia-idade, afirmo que nunca casei e não tenho filhos, essa sentença faz de mim um homem livre, não um homem triste; essa sentença comprova que escapei do destino ordinário de grande parte da humanidade, revela um sucesso, não um fracasso. O fracasso estaria na cena patética que revelasse um personagem se esgueirando por bordéis e salas penumbrosas do meretrício, consultando o relógio, desligando o celular, buscando prostitutas e enganando uma companheira que também se enganou ao acreditar na veracidade da união romântica. Repito, não existe amor. A parte mais divertida da ideia do romance é premeditar a traição. O amor só é capaz de conceber bebês e grandes canalhas.

Alegria do Catete

ALEGRIA DO CATETE

Existem noites que são perpétuas, um libertino é forjado nessas noites intermináveis, atravessando a cidade, farejando feromônios, desejando o roçar de peles. Há uma fase da vida em que o Sol é um incômodo frio e a Lua uma carícia que arde. Foi uma dessas noites dos meados da década de 80 que descobri um lugar que me proporcionaria incontáveis encontros sexuais, descobri por ouvir falar, peguei o metrô, desembarquei no Largo do Machado, fui caminhando incerto pela Rua do Catete, perguntei num boteco se conheciam um forró naquelas redondezas, engoli um fogo paulista e encontrei o templo onde uma parte das minhas melhores noites se perpetuariam na memória.

Alegria do Catete, que nome poderia ser melhor para um forró, para um bate coxa, como chamavam na época. Instalado em um prédio baixo, onde até pouco tempo funcionava uma loja do Ponto Frio, na esquina da Rua do Catete com Buarque de Macedo. Quando entrei pela primeira vez, me deparei com uma multidão dançando ao som do triângulo e da sanfona, um mar de mulheres predominantemente nordestinas, homens que não negavam a origem simples. Atravessei o salão vestido de príncipe, denunciando para os olhos desconfiavam que me seguiam que aquele não era o meu habitat natural. No início senti algum desconforto, depois não mais me importei, percebi que a minha pompa no vestir e na postura é que me abriria um o harém onde eu me tornaria sultão por um bom período.

Eu não tinha carro, minha grana podia ser contada em poucas notas heroicas na carteira surrada, mas eu sabia me vestir, estava no auge da energia de um universitário bem nutrido, sabia me expressar com classe, começava a aprender a arte de seduzir e aquele forró seria a minha primeira grande escola, de sexo e de vida. Saía de casa, pegava o metrô empolgado, a testosterona explodia pelo meu corpo e eu não abandonava a arena sem antes conquistar uma fêmea qualquer do lugar. A volta se mostrava mais complicada, saía do forró com o céu refletindo os primeiros raios de luz, andava até a Praia do Flamengo e esperava algum ônibus que me levasse de volta à bucólica Tijuca. Muitas vezes enfrentei a solidão da madrugada esperando a condução, os perigos da cidade eram menores, mas a melancolia da dureza que me impedia de pegar um táxi sempre foi igual.

Sim, eu fui um tímido e os forrós me ajudaram a superar um pouco a trava do acanhamento. Às vezes eu intercalava a frequência nos forrós com idas a boate Circus no Leblon, dois mundos paralelos e heterogêneos. Na Circus, eu não pegava ninguém; no forró, me tornei rei. Havia ocasiões em que eu entrava no Alegria do Catete e mulheres colocavam bilhetinhos no meu bolso, me encaravam despudoradamente, ofereciam-se exibindo a libido devassa. Precisei eleger motéis próximos que coubessem no meu orçamento, encontrei o Alameda (na rua Cândido Mendes) e outro muito precário que havia na rua Bento Lisboa. Quando a minha carteira estava mais recheada, eu lambia os beiços no Hotel Único que ficava praticamente ao lado do forró.

No princípio, eu contava o número de mulheres que comia, foi quando iniciei minha coleção de coitos até perder a conta. Não demorei para conhecer mais dois forrós que fariam das minhas noites de fim de semana um campo de caça farto de lebres. Os forrós me fizeram homem, já que eu não recebia grandes patrocínios da família, sempre precisei apelar para a minha criatividade, meu espírito de aventura e minha ausência de preconceitos. Jovem, eu possuía uma disposição inabalável, varava madrugadas seguidas, chegava em casa com o sol no rosto, me viciei na arte de amar.

Outros tempos… Fui uma espécie de Indiana Jones libertino, durante o dia eu explorava sebos atrás de toda espécie de livros; à noite, rompia becos e penumbras atrás de qualquer tipo de mulher que eu pudesse tentar conquistar e levar para a cama. Na década de 90 surgiu o forró do Asa Branca, na Lapa, minha existência ainda se equilibrava com pouco dinheiro, não era incomum me postar na porta do local para pegar um dos ingressos gratuitos que eles distribuíram, eu precisava economizar de todas as maneiras para conseguir consumar o sexo com alguma mulher que eu conhecesse. 

Que infinidade de mulheres eu provei numa época em que as putas não me eram acessíveis. A dureza me fez desenvolver a criatividade que me permitiu curtir a vida mesmo diante das limitações de grana. Aprendi a ser simples sentindo minhas pernas cansarem no meio-fio enquanto aguardava a esperança de uma condução, sacudindo em ônibus pelas madrugadas, comendo empregadas domésticas e me apaixonando por elas, percebendo que ter dinheiro é bom, mas não ter estimula o cérebro. De lá para cá, envelheci, mas não é tão ruim envelhecer, o ruim é testemunhar um mundo que envelhece mal, mas ao mesmo tempo constatar que os fóruns permanecem com a mesma infantilidade desde os primórdios em que escrevi a primeira frase no primeiro

A despedida

Anoitecia em Copacabana, fim de tarde de céu avermelhado e límpido. O trânsito estava intenso naquele início de dezembro de 1994, eu desfrutava das férias ao lado de Karin, apaixonado. Esperávamos o táxi que a levaria ao aeroporto, ela decidira voltar à velha Europa, primeiro para a Espanha e em seguida para a Inglaterra, de onde ela tinha sido deportada anos antes. Prometia voltar, mas a minha paixão intensa por ela dilacerava qualquer inocente esperança. O táxi aportou, ela embarcou carregando a única mala que levava e eu a acompanhei.

Já escrevi sobre Karin, uma gaúcha bonita ao seu modo, inteligentíssima, que conheci por um anúncio nos classificados do finado Jornal do Brasil, uma mulher que hoje eu poderia classificar como acompanhante de luxo. Morava na rua Tonelero quando a conheci pelo telefone, o nosso primeiro encontro também foi a nossa primeira noite juntos. Talvez, ela tenha gostado de mim, fomos ficando, dormíamos juntos, ela não me cobrava, não me exigia nada e cultivava a minha presença. Os quase três meses que passei ao seu lado, me envolvendo visceralmente com ela, resultou na inevitável paixão febril que me tomou o corpo e a alma.  

Karin tinha uns 25 anos, sofisticada, classuda, um corpo irretocável, cabelos loiros, olhos verdes e um sotaque do Sul ainda forte. Falava inglês fluentemente, fluência que conquistou nos seus anos morando em Londres. A garota foi um sonho, décadas se passaram e a memória dela ainda exala frescor em minha mente.

Ousei, apresentei-a a minha família, levei-a em minha casa e planejava, secretamente, uma vida com ela. Entre nós, havia a Europa e a profunda rejeição de Karim pelo Brasil. Convidou-me para ir com ela e eu, num gesto que me arrependerei até o fim dos meus dias, recusei-me a ir, aleguei que preferia esperá-la e preparar uma estrutura para quando ela retornasse. Nunca retornou, casou-se com um inglês, teve dois filhos e mora no interior de Londres.

Karin uniu em mim o amor romântico e o desejo da carne. Eu agonizava de uma atração abissal por ela. Nossa despedia foi um jantar triste, em um restaurante extinto de Copacabana, que se localizava em frente à Praça Serzedelo Correia. Quando cruzo por ali, não vejo mais a praça, não vejo a rua, não vejo os carros nem os pedestres, só vejo o jazigo de uma parte de mim. Existem pessoas e lugares que se tornam buracos negros da nossa existência.

A paisagem até o antigo aeroporto do Galeão ia se desfazendo em sombras diante dos meus olhos, tudo se desconstruía conforme o automóvel avançava. Eu ia de mãos dadas com ela, em silêncio, como lançado em uma oração inútil perdida entre todas as orações inúteis. Se um dia amei alguma mulher, essa mulher foi Karin, uma garota de programa que amava mais os próprios projetos, a própria ambição e a futilidade de querer ser uma inglesa que jamais será inglesa de fato.

Feito o check-in, ela precisava ir para a área de embarque. Seus olhos verdes, seus cabelos loiros, seu corpo impecável, no fundo eu sabia que aquela seria a última oportunidade para contemplar a sua presença. Um abraço, um beijo amargo na boca e ela começou a caminhar enquanto o abismo se abria entre nós. Antes que desaparecesse, olhou para trás, olhou para mim e sumiu na névoa labiríntica dos desencontros. Cartas, alguns telefonemas, uma ausência que me esmagava. Nunca mais, nunca mais — me gritava o corvo de Edgar Alan Poe.

Nunca mais. Ficou-me a cicatriz, um desses poucos ferimentos capazes de dizimar um libertino. Por sorte, em mim foi um ferimento que sangrou, sangrou de morte, mas fortaleceu a carcaça das minhas emoções. Não demorou para que a minha natureza mundana imperasse sobre o sofrimento poético. Mesmo assim, todas as vezes que atravesso Copacabana, que passo pela rua Tonelero, ouço o corvo me amaldiçoar…

— Nunca mais, nunca mais…

A catraca

A CATRACA

Hoje, só sobrevivem do tal lupanar o trauma de ex-virgens acuados e as reminiscências dementes de idosos nostálgicos da distante e desbotada virilidade.

Aconteceu no meio de uma tarde ensolarada. Bateram à minha porta e avisaram que havia chegado a hora. Como se tudo já estivesse combinado, o pai empilhou uns tostões na minha mão, me colocaram num carro e parti para o desconhecido.

Quem visse o meu semblante tenso, poderia supor que me conduziam à força para o DOI-CODI, nunca imaginariam que aquela viagem tinha como destino o crepúsculo da minha insossa inocência pelo alvorecer temperado da luxúria. O trajeto, por caminhos tortuosos, embalou na subida de uma ladeira no Rio Comprido, mergulhou num túnel esquecido e desembocou na enigmática Rua Alice.

Como se não bastasse o pânico do novilho ameaçado pelo abate, incomodava-me a ideia de um randevu localizado numa via batizada com o mesmo nome da minha bisavó. Para um garoto recém-catequizado, a sugestão do pecado ganhava sons incestuosos e desestimulantes. Não demorou para que estacionássemos em frente àquela fastuosa mansão cravada às margens do nobre bairro de Laranjeiras. Que vista! Rodeada pela paz da paisagem bucólica, erguia-se a rosácea e imponente construção, cercada por um muro que lhe dava o aspecto de fortaleza. Se me afirmassem que era um convento, eu acreditaria. No centro da murada, um arco apresentava o portão destrancado, acesso que se abria para os mistérios da carne. Ignorando as minhas pernas trêmulas, a boca seca, a voz afogada, meus companheiros me empurraram para o interior da arena das leoas. Entrei em cena como um personagem inútil, jogado de última hora nas páginas do Decamerão.

Recordo, com certo pudor, que as minhas primeiras manifestações libidinosas ocorreram quando eu assistia ao seriado “Jeannie é um gênio”. A imagem erotizada daquela odalisca loira piscando os olhos me causava a precoce mágica incompreendida e constrangedora da ereção. Talvez, Barbara Eden tenha sido o símbolo sexual de uma geração de ingênuos.

Por dentro, o casarão de Laranjeiras lembrava um cabaré rústico de filmes do velho oeste americano. O piso de madeira, mesas espalhadas por um amplo salão de grandes janelas escancaradas que revelavam a curiosidade de árvores indiscretas. Sentamos e nos serviram uma cerveja. A alguns metros de nós, uma bela balzaquiana, de pele clara e longos cabelos lisos, fumava abstraída do ambiente. Um dos meus camaradas mais desembaraçados a selecionou como protagonista da minha temida estreia. Nunca me esqueci do nome da mulher: Selma.

Ela se aproximou, perguntou o meu nome e me estendeu a mão… num ato de submissão, não resisti. Caminhamos juntos até a beira de uma longa escadaria que levava aos aposentos superiores, Selma me soltou, seguiu por uma brecha lateral e apontou o local por onde eu deveria subir. Estaquei perplexo diante da visão: uma catraca, semelhante às roletas que reinavam nos ônibus antigos.

Com a mente perturbada por aquele momento crucial, ao qual me lançavam sem manual de instruções, me apaguei a imagem da catraca. Fiquei fascinado. Como poderia um puteiro alcançar tal inteligência? Freud sofreria orgasmos antes do sexo ao perceber que a catraca assumia o significado mais perfeito da prostituição. Como são cruéis as traduções exatas do universo. Um sujeito cruzou meus olhos e atravessou insensível os braços abertos da roleta, eles estalaram e imediatamente o contador em sua base fez girar os números que se assemelhavam a uma carreira de dominós caindo uns sobre os outros. Não havia romance, não transpirava amor, apenas a fria e exata sequência matemática. Aquele vislumbre mecânico aquietou meus sentidos e como a Selma me aguardava no topo da escada, entreguei-me ao abraço gélido da catraca. Fui mais um dígito intrépido acrescentado ao milhar. Subimos à alcova…

Um imenso quarto de teto alto, uma velha cama de casal, uma pia com sabão de coco e papel higiênico formavam o kit libertino. Selma perguntou se era a minha primeira vez, não sei se ela compreendeu a resposta, pois eu só conseguia balbuciar. Ela tirou a roupa e imitei a coreografia. Ela se deitou e eu me joguei ao seu lado olhando para o teto, que parecia estar a quilômetros de distância. Ela toca no meu segredo, na profunda intimidade do meu ser. Sinto uma forte descarga elétrica percorrer o corpo, um torpor de todas as sensações. Acabou. Não havia mais nada a fazer, a não ser pagar.

Ao sair, não precisei passar pela catraca. Dígitos descartados não contam. Os amigos perguntavam como tinha sido a experiência, continuei balbuciando. Não perdi a virgindade naquele dia, mas descobri a ejaculação precoce. Estive na Casa Rosa e a catraca não me deixa mentir. Jurei sobre o sêmen que escreveria este capítulo. A catraca é o mundo.