Termas Continental — Série museu libertino

Termas Continental — Série museu libertino

A Termas Continental era um templo glorioso que existiu na Tijuca entre o final da década de 80 e a década de 90. Tive a sorte de viver o alvorecer da minha juventude nos anos 80, mesmo o princípio dos anos 90 também guardaram um encanto e um charme que este novo século não possui. Quase vizinho do lendário Aldir Blanc, eu pegava meu carro ou ia caminhando até a mansão da luxúria em frente à estátua do Bellini.

Lembro-me de certa noite inesquecível em que entrei na boate e tocava “Vogue”, na voz de Madonna. Senti uma euforia, um prazer de viver absurdo.

VOGUE

As mulheres dançavam, se alisavam, flertavam com clientes e me senti em um raro e absoluto estado de graça. Hoje tenho mais consciência de como são rarefeitos esses momentos em que somos tocados pelo momento, pela consciência do presente e pela exuberância do existir. Foi nessa mesma noite que comi uma mulata com um dos rabos mais perfeitos que vi em toda a minha vida, grande, redondo, arrebitado, sem qualquer traço de celulites ou estrias. O melhor de tudo, ela fazia anal. Eu caminhava pelo início do meu aprendizado sexual e foi na boca da mulata que gozei a primeira vez com um sexo oral. Eu queria comer a mulata para o resto da vida, mas a perdi de vista. Para não dizer que nunca mais a encontrei, uma vez cruzei com ela na linha 415 (Usina-Leblon), de madrugada, quando eu retornava do Forró de Copacabana, mas, sabendo que ela não me reconheceria, evitei o contato.

A Termas Continental não foi o meu primeiro bordel, mas foi o que eu adotei por muitos anos, até que acabasse. Na recepção, ficava uma senhora mal-humorada que, apesar disso, nunca roubou na conta. Essa Termas poderia ser comparada a uma Centaurus da Tijuca, ressaltando que as instalações eram simples e a degradação do ambiente avançou rápido. Sempre cheia, era o point do Tijucano promíscuo. É inacreditável não existir mais uma casa de grande porte na Tijuca, um dos bairros com mais putanheiros por metro quadrado.

A casa da Termas Continental ainda está lá, diante da estátua do Bellini, morta, sendo devorada pelo tempo, consumindo-se em ruínas. Ainda é possível ler no alto da fachada as marcas da inscrição do seu nome. O tempo passou e resta pouco do que conheci quando tudo era apogeu. 

Red Light, a glória da Praça da Bandeira

Red Light, a glória da Praça da Bandeira

Não sei se é a idade que nos deixa nostálgicos ou, no meu caso, se sempre fui assim. As noites frias estão me fazendo recordar uma época que talvez tenha sido a melhor época que vivi como libertino. O tempo em que existiu a boate Red Light, numa ruela da Praça da Bandeira, região central do Rio. Uma casa que, de certa forma, ajudei a fundar com outros dois amigos. Tenho certeza de que muitos dos antigos boêmios do Hot-Fórum lembram-se e sentem saudade.

Em um fim de tarde qualquer, eu e um parceiro fomos tentar alocar, para uma festa do antigo Hot-Fórum, uma boate que estava fechada, mas que o dono se mostrou receptivo à ideia de abrir para a comemoração. Não fazia muito tempo, havíamos revolucionado o mundo dos fóruns, retirando do comando do site de um grupo decrépito que por muitos anos tiranizou os foristas. Criei um chamado que fez sucesso: “AGORA O FÓRUM É DOS FORISTAS”. Houve quem ficasse feliz, mas também provocamos as velhas almas recalcadas, os corvos que torcem contra os espíritos rebeldes. Não teve jeito, tomamos o Hot-Fórum, muito com a minha ajuda, através de uma guerra que travei por anos na intenção de libertar o espaço. Foi uma vitória histórica que mudou a história dos fóruns do gênero.

Precisávamos de uma festa. Isso foi pelos idos de 2012. Durou pouco, mas foi a Belle Époque da libertinagem. Odiado e amado, foi um período que expandiu a minha glória como libertino, glória que eu trazia desde a aproximação com a Boate Mosaico, na mesma região. A Mosaico foi a semente da Red Light, uma semente que desabrochou com flores mais belas e perfumadas. “DANTE” já não era um nick, era marca. Acreditem, quem conhece sabe que não se constrói uma marca sem determinação, honestidade, talento e coerência.

Por ter sido muito perseguido nos antigos fóruns, por ter sido banido pelas administrações dos sem talento, que consideravam o meu estilo “espaçoso” demais para uma comunidade que se comunicava por textos, textos que eles preferiam nivelar pelos medíocres, criei três grupos durante a minha longa jornada. O primeiro surgiu ainda no saudoso Orkut, foi o “VILA MIMOSA VIP”. Acredite, forista sem fé, foi um sucesso absoluto, algo que até me assustou na época, muitos foristas nasceram desse grupo em muitos eu confiei para depois me decepcionar. Sou um péssimo julgador de caráter.

Com o nascimento da Red Light, criei “O CLUBE DOS PÂNDEGOS” e “OS INDOMÁVEIS” numa área restrita dentro do fórum, outro sucesso. O último grupo que fundei foi o dos “LIBERTINOS”, que depois afundou pelo pecado preferido do Diabo, a vaidade. Ainda tentaram roubar a marca, mas fracassaram. Todas as minhas inciativas carregavam a intenção de agregar, de quebrar paredes, abolir preconceitos e consegui atingir muitos desses objetivos por um período. De forma estranha, despertei ódios barulhentos, talvez pela pressão dos ressentidos com os êxitos alcançados por mim e pelos benefícios que muitas vezes eu ganhava por gerar vitórias. É da vida.

Digo a vocês, jamais vi tantas mulheres lindas surgirem num período como as que surgiram no início da Red. Muitas mulheres que começavam na vida quando entravam naquela boate. Certa vez, eu estava na entrada da casa e uma morena estonteante surgiu perguntando se ali era a Red Light, contou que nunca havia trabalhado como garota de programa, mas queria começar. Fui o primeiro a me deitar com ela, o primeiro cliente. Onde mais eu poderia viver isso?

Amigos se reuniam, falsos amigos também. Aprendam com este velho mundano, fóruns sobre sexo são feitos mais de falsos amigos do que de amizades sinceras. O apogeu da Red Light talvez não tenha durado mais de um ano, mas foi um ano intenso, foi um ano a mil. Havia o cartão vermelho, quem recebia podia comer mulher no fiado. É verdade. A boate era reverenciada por quase todos. Digo quase, pois sempre existem os chatos de plantão, os críticos mal-amados.

Nunca fiz mais de 3 amigos em fóruns, o resto eu poderia comparar com o Senado Romano nos tempos de Júlio César. Libertinos são do bem, mas putanheiros são ordinários. Libertinos são raros, raríssimos. Dentro da Red, por uma convergência de energias positivas, todos eram amigos, todos compartilhavam, a felicidade fez residência na Red no ano em que aquele espírito sublime de alegria se manteve aceso. Com o fim da sociedade que a sustentava, a boate decaiu, parei de frequentá-la, se tornou imediatamente triste e foi tomada pelas hienas hidrófobas que antes não a frequentavam, pois sentiam-se humilhados por um sucesso que cultivei. Deixou de ser uma ilha de prazeres e beldades na estreita rua Pereira de Almeida, tornou-se gueto.

Após a decadência, quando eu passava diante da entrada, uma tristeza imensa me invadia. A Red foi do céu ao inferno, mas deixou uma lição. É possível criar uma coletividade, um grupo de pessoas que por um tempo comunguem da amizade, da boemia e do desejo de felicidade. A Red foi a representação mais pura do hedonismo. Amores nasceram na Red, casamentos nasceram na Red, talvez até filhos tenham nascido na Red. Foi um lar libertino.

À noite, eu estacionava meu antigo Sucatão na rua do Matoso, bebia uma cerva no bar da esquina da Pereira de Almeida, comia um churrasquinho em frente ao Motel Málaga e partia para a boate. A boemia não tinha fim. Foram madrugadas consecutivas, sexo diário. Fundou-se o primeiro “Fumódromo”, onde a galera se reunia com as meninas e o papo corria solto, sem censura. Se você não conheceu a Red nesse tempo, só posso lamentar, afeiçoado forista. A Red Light foi a glória da Praça da Bandeira.

Central do Brasil

Central do Brasil

Sou um homem quieto, extremamente convencional, aprecio me vestir com alguma elegância quando necessário e não cultivo a mínima pretensão de querer me passar por original, pois só pensar nessa possibilidade já me remete à falta de originalidade. Eu me defino como um homem comum, no entanto, atraio muitas situações incomuns para a minha órbita.

Nesta longa jornada, atraí personagens inesperados para a minha biografia, conheci alguns cáftens alfabetizados que se mostravam curiosos em me conhecer devido a minha escrita. Na verdade, nunca foram somente os cafetões, volta e meia alguém cisma em querer me conhecer por conta da forma como escrevo. É um incômodo para mim, mas um bom agouro à língua portuguesa.

Como citei por diversas vezes em diferentes tópicos, passei anos comendo mulheres em bordéis cujos donos não me permitiam pagar nada, o sexo e o consumo ficavam como cortesia à minha presença. Admito que aproveitei as facilidades da época e ainda hoje tenho gratuidade em uma casa quando desejo.

Sim, sou um homem convencional, conservador em muitos aspectos, mas me surpreendo quando vejo que a safra de foristas atuais consegue ser mais conservadora do que eu. Quase não vejo quem frequente bordeis, quem pegue mulher de pista, quem se aventure em boates, quem se arrisque em aplicativos, nada… Pegam freelas e privês, privês e freelas, em um tedioso ciclo que não rompe a curva.

Diante dessa juventude conformada, me vejo quase como um revolucionário, pois o meu ciclo é rompido até quando não estou com disposição para me aventurar em surpresas inesperadas. Foi o que ocorreu há poucos dias, um caso que torna necessário que eu em me empenhe nesta narrativa. A adrenalina me excita mais do que a simples ideia mecânica do sexo.

Fico constrangido de contar acontecimentos como o que narrarei agora, em um cenário de estagnação, em que qualquer ponto fora da curva pode parecer inacreditável. Definitivamente, não posso ceder ao mofo do forista sem fé, aqueles que não creem no que não vivem. Só encontraram os novos mundos aqueles que ousaram atravessar os oceanos traiçoeiros.

Noite, eu conversava com um amigo, lamentava pela minha atual limitação de tempo, quando, de repente, chega uma mensagem pelo meu site Os Libertinos https://oslibertinos.com.br .

“Boa noite, Dante. Sou conhecido como Talento aqui na Central, sou seu fã, leio tudo o que escreve no seu blog e no fórum. Se possível quero te conhecer. Por gentileza, me chame no whatsapp: 21 9999XXXX.”

Que tipo de criatura se apresentaria como “Talento”, ainda mais com base na Central do Brasil? Hesitei em cadastrar o zap, mas a curiosidade de um velho escriba é irrefreável. Decidi contactar o sujeito.

“Boa noite, sou o Dante.”

“Cara, que satisfação. Sou fã de carteirinha. Tá por onde?”

“Obrigado pela consideração. Estou na Tijuca.”

“Ah! Na bucólica Tijuca kkk… Porra, vem para a Central, o uísque é por minha conta e vou te apresentar a umas amigas.”

Acredite, forista sem fé. Se não fosse a frase “apresentar a umas amigas”, eu jamais teria tirado o pijama e embarcado em um táxi para Central, mas a libido é um demônio que não aprecia recusas. Troquei de roupa, peguei um táxi e fui para a Central perto da meia-noite.

………………………….

Talento pediu que eu o encontrasse em um boteco chamado Central Paradiso, próximo à esquina da Barão de São Félix. Pedi ao motorista que me deixasse em um posto que fica próximo ao local onde marcamos. Quem supõe que a Central é um lugar ermo e desabitado na madrugada, se engana. Há uma rodoviária, há camelôs, a Vans para a Baixada, há mulheres perdidas e o Bar Central Paradiso existe como mais uma dessas ilhas que aguardam náufragos.

Quando entrei no pé-sujo, uma figura jovem, ornada por pulseiras, cordão dourado, relógio cebolão e bigodinho bem aparado me abordou de imediato. O indivíduo assemelhava-se a um daqueles personagens cafajestes do Nelson Rodrigues.

— Tu é o Dante — afirma com tom mediúnico.

— Sim. Sou eu.

— Caraaaalho. Cara, faz tempo que queria falar contigo. Senta aí, vou pedir teu uísque.

E o uísque veio enquanto Talento me contava a história de sua vida. Paraibano, morador da Rua Senador Pompeu, completando uma penca de anos no Rio, me disse ser o “faz tudo” da área. Durante a explanação do Talento, não me furtei de observar o entorno, a frequência do Central Paradiso é heterogênea: velhos, velhas, coroas, travestis, putas e gente com cara de bandido. Todos ébrios.

Talento mostrou que possui network na região, o que em deixou mais tranquilo por estar ali naquele horário. Ele falou muito mais do que eu e nunca consigo evitar o pensamento de que ninguém quer conhecer o autor do Dante, querem o Dante, mas o Dante só existe no papel, o que gera o risco da decepção no campo da realidade.

— Espera aí que vou te apresentar uma princesa para você falar dela lá no fórum e no teu blog — Talento saltou com agilidade felina da cadeira e me deixou sozinho em terreno hostil.

Não demorou muito para que retornasse de mãos dadas com uma mulher que se materializava em uma imagem surreal. Uma menina branquinha, cerca de 25 anos, cabelos castanhos claros lisos e longuíssimos, alta, cinturinha fina, olhos esverdeados, um sorriso de espantar as trevas mais espessas do universo. Meus lábios chegaram a tremer diante da aparição inimaginável.

— Mestre Dante, essa aqui é a Daiane, direto de Nova Russas para os seus braços.

— Nova Russas? — perguntei.

— Nova Russas, no Ceará. Terra de mulher bonita.

A garota realmente impressionava pela aparência. Daiane sentou-se ao meu lado e Talento ficou na minha frente, era um cerco.

— Mestre, leva ela, escreve lá no site. Daiane tá precisando trabalhar, ganhar algum. Entende?

— Entendo, Talento. Só que o pessoal de fórum não costuma vir para esses lados. É difícil.

— Ah. Acaba vindo. Acaba vindo. Com o senhor escrevendo lá, acabam vindo.

Fiquei em silêncio, esperando que um dos dois me dissessem como seria o esquema.

— Leva ela pro motel, mestre. Paga um jantar porque ela não comeu ainda e dá o que o senhor puder como ajuda. Ela vai merecer, vai por mim.

Como eu poderia dizer não para um cara chamado Talento nas entranhas da Central do Brasi? Lembrei-me do Hotel Pompeu, na Rua Camerino, não muito longe dali. Perguntei a Daiane se topava ir, ela nem piscou ao aceitar.

— Vamos pegar um táxi ali no posto de GNV — sugeri.

— Que nada, mestre. Vai andando, é pertinho. Só seguir reto aqui. Vai que é tranquilo. Daiane é da área.

Lá fui eu, cruzando de cabo a rabo a noturna Barão de São Félix até a noturna e desabitada Camerino. Com o coração em abalos sísmicos e o cu na mão. 

Meu primeiro bordel

Meu primeiro bordel

Estava perto de completar os meus quinze anos de idade, a década de oitenta se aproximava (uma década que parece ter sido a mais veloz que presenciei). Na rua onde eu morava, havia um ritual em que rapazes mais velhos levavam os mais novos para perder a virgindade e conhecer a primeira mulher. Chegava a minha vez.

Foi em uma tarde morna de outono, o céu de um azul opressor emoldurava o Sol exibido e despudorado, um desses dias de temperatura agradável. O velho opala bege deslizou pelo Rio Comprido, subiu a cinzenta rua Barão de Petrópolis, atravessou um túnel construído no século 19 (o túnel mais antigo da cidade) e desembocou na rua Alice. Lá pela metade da rua, na curva da perdição, se descortinou a construção imponente, com leves ares de abandono: a famigerada Casa Rosa da rua Alice.

Soube, anos mais tarde, que a Casa Rosa foi fundada como puteiro de luxo na década de cinquenta, me coube conhece-la em seu crepúsculo, mas ainda se podia captar de suas paredes e mesas a atmosfera dos antigos cabarés. Sentamo-nos em torno de uma mesa no meio de um salão rodeado por janelas imensas pelas quais víamos árvores silenciosas e exuberantes.

Eu estava apavorado, não havia desejo, só pânico. Não sabia o que era uma mulher; nunca, até então, tinha tocado em nenhuma. A mulher para mim, no alvorecer dos quinze anos, se revelava como a geografia do mistério. Não, eu não estava excitado, tentava calcular como agir, o que fazer. Sem manual ou instrução dos amigos, eu era um coelho que aguardava ser lançado em uma jaula junto à loba experiente, minha missão seria devorar para não ser devorado. Naquela equação do desequilíbrio, o axioma revelava que eu não teria como derrotar a loba.

Meus amigos mais velhos escolheram a mulher que me batizaria, uma balzaquiana charmosa que fumava seu cigarro reflexivo e olhava pelas janelas de um olhar vazio para os janelões que davam para o nada. Telma era o seu nome, cabelos longos e lisos, um corpo sinuoso sustentado por coxas grossas, seios médios e bunda esférica. Quando dei por mim, estava atravessando uma roleta (tipo as de ônibus) e subindo a escada de madeira em direção a um dos quartos.

Quarto enorme. No fundo, perto de mais uma das imensas janelas escancaradas para o nada, uma pia para a higiene. A cama de madeira se anunciava mais como uma arena de execução do que como um palco para o meu deleite.

— É sua primeira vez? — perguntou-me Telma.

Fui sincero, respondi que sim, como se buscasse a solidariedade daquela mulher gélida, determinada a ganhar meu dinheiro da forma mais breve e menos trabalhosa possível. A pergunta revelava a intuição certeira de uma fêmea que sacrificou muitos outros virgens antes da minha patética chegada.

— Tira a roupa — ordenou Telma.

Despi-me desajeitado, expondo a minha nudez casta e tímida.

— Deita aqui.

Deitei-me ao lado de Telma desnuda e impudica, ela conduziu minhas mãos sobre seus seios, eu vislumbrava o corpo moreno, repleto de relevos e desvios, um deslumbre que se transformaria na fome insaciável da minha vida inteira, um território de enigmas que eu não desvendaria naquela tarde, mas que mapearia para revisitar com mais segurança em outras ocasiões.

Telma me tocou, alisou meu tórax e deixou que seus dedos escorressem até o meu jovem pênis ereto, literalmente uma pica nas galáxias. Quando envolveu meu membro com uma das mãos e o apertou levemente, eu explodi em um jato incontrolável, a vergonha da ejaculação precoce. Não entendi muito o que aconteceu, fiquei atônito, até que Telma me avisou que nosso encontro acabava ali, o combinado era uma gozada. Ela se levantou e saiu. Eu continuei na cama, com aquela sensação de perplexidade, pois o orgasmo é esse desabafo do corpo, semelhante a um último suspiro, a diferença é que um se chama prazer e o outro morte.

Descobri que o libertino não é aquele que segue, é o que retorna; não é o que busca o jugo, mas a libertação. Tantas mulheres conheci após aquela tarde em Laranjeiras, números de perder a conta, mas somente duas me amaram, me presentearam, quiseram me fazer feliz. Tantas putas mentiram para mim como se dissessem verdades inquestionáveis, o prazer de algumas prostitutas não é o orgasmo, mas a mentira que se faz acreditar; tantas putas disseram, me olhando nos olhos, que eram minhas enquanto se dividiam com outros homens. Na Casa Rosa nascia o libertino mal batizado por uma sacerdotisa chamada Telma. A Casa Rosa acabou, Telma se desintegrou no tempo. Depois desse dia, quantas vezes morri no corpo de uma mulher? Não sei, o que sei é que sempre ressuscito.

Matrimônio, celibato & luxúria — Filosofia de Boteco

Matrimônio, celibato & luxúria — Filosofia de Boteco

O filósofo Rousseau escreveu que “na juventude deve-se acumular o saber e na velhice fazer uso dele”, não sei se faço uso de algum saber que adquiri na juventude, levei vida de cigarra, debochando das formigas. Ao contrário de Rousseau, percebo que é na velhice que você aprende refletindo sobre a absoluta inconsequência dos tempos em que fomos jovens. Na adolescência e nos primeiros anos da fase adulta, eu preferia mais a sentença de Platão: tudo que ilude, encanta!

Como já confessei por diversas vezes, nunca me casei e sempre tive aversão a ideia de gerar filhos. Um libertino não se reproduz, é um Highlander que não se perpetua pela procriação, mas pelos rastros que deixa em sua própria história. A minha biografia inclui namoros incontáveis com moças de família (as civis), ficadas com um número incalculáveis de mulheres genéricas e casos breves com garotas de programas. Pode soar como um contrassenso, mas o sexo pago nunca foi a minha prioridade. Talvez, por isso, eu tenha conseguido desenvolver um lado mais intenso que me faz querer alcançar algum tipo de conexão com quem me relaciono, mesmo com as moças que anseiam somente por um cachê. Como cereja do bolo, também criei laços afetivos com uma atriz pornô quando ainda era atriz pornô, chamava-se Natasha Lima, um envolvimento efêmero, mas ardente.

Jamais compreendi o projeto precoce dos meus amigos de se trancarem no matrimônio. Sinceramente, é como se houvessem nascido com essa ideia programada no código genético. Queriam casar por casar. Por quê? Seguiam passivamente o apelo dos hormônios e da agenda biológica que nos induz a perpetuação da espécie. A racionalidade humana não é capaz de conter alguns instintos banais. Eu me contive. Sempre gosto de crer que, talvez, a filosofia e as minhas incansáveis leituras desde a infância me blindaram contra certas doutrinações sociais. Fui mais feliz por isso? Não, fui mais livre.

O libertino, pelo menos no meu caso, não nasce feito. Fui um jovem extremamente romântico, repleto de sonhos hollywoodianos sobre o amor, mandei flores com as quais eu montaria uma floricultura, fiz promessas puras, fui fiel e, no fim, fui corno. Sofri por amor com a pujança de uma tragédia grega, me arrastei, me humilhei por mulheres perdidas na inconstância feminina. Os meus martírios sentimentais aliados à insistência nos livros formaram o casulo que causou a minha metamorfose. Libertei-me.

Perdi a virgindade ao final dos 14 anos, num puteiro ilustre do Rio, a famigerada Casa Rosa, que se localizava na Rua Alice. A ejaculação precoce da primeira experiência não foi capaz de me seduzir para a continuidade das degustações libidinosas. Prossegui vivendo o amor casto por alguns anos mais após esse evento. Não sei determinar quando a minha transformação psicológica ocorreu, lembro-me somente de que, por indicação de um amigo, comecei a frequentar os inúmeros forrós que se espalhavam pela Zona Sul do Rio no final dos anos 80. Foi quando nasceu o meu alter ego, quando surgiu o Dante, codinome usado com as mulheres que eu seduzia e comia. 

Entrei em uma sequência febril de sexo, devo ter comido todas as empregadas domésticas da cidade, todas as balconistas, todas as diaristas, essas eram as mulheres que frequentavam os forrós na época. Jamais abandonei o meu bom gosto, escolhia os rostos mais bonitos, os corpos mais provocantes, foi um período em que fiz as mulheres de objeto como vingança contra aquelas que me fizeram de capacho. Foi correto agir assim? Não, mas um instinto irrefreável emergiu das minhas entranhas e fui dominado pela histeria da testosterona.

Como libertino descontrolado, não vivi mais amores, vivi paixões, daquelas que batizamos como “amor de pica”. Na estreia da libertinagem, também fui obrigado a descobrir que o “amor de pica” pode ser pior do que o amor romântico. O amor romântico é sofrido, o “amor de pica” é obsessivo. Foram poucas as paixões motivadas pelo sexo, mas foram perturbadoras. Em comum com o amor romântico, o “amor de pica” também nos faz suplicar por migalhas, por atenção, pela presença da mulher que nos subjugou na cama. Libertei-me incólume de várias dessas armadilhas e segui buscando o meu equilíbrio emocional.

Apenas o tempo apazígua o espírito. O avançar da idade e a estabilização da libido motivaram os meus passos evolutivos, virei um pervertido, um voyeur, que se não for o último capítulo de um libertino, é o epílogo. Depois que passei a frequentar swings e esbarrar com casais que conseguem assumir o laço libertino que fortalece a união, me peguei pensando na possibilidade de um casamento. Vi muitos casais reais que renovam a paixão vivendo juntos a luxúria e encontram uma satisfação muito maior nesse estilo de vida do que num casamento convencional. A pergunta é como encontrar um par que ofereça o sonho libertino da união promíscua?

 Mulheres promíscuas não costumam ser mulheres leais e eu guardo adoração quase religiosa pela lealdade. Não creio que se encontre com facilidade uma parceira ou um parceiro que nos proporcione uma relação aberta e leal, é uma busca que caminha pelo acaso, pela sorte. No swing, babo de inveja quando me deparo com casais que brincam juntos e voltam juntos para casa, provavelmente para curtir toda a excitação que a noite devassa ofereceu.

Inocência, promiscuidade e depravação, a tabela da evolução libertina. Libertinos são raros porque são promíscuos e leais, só podem dividir sua solidão com uma libertina também depravada e leal. Alguém perguntaria, isso existe? Pelo tanto que observei, existe, mas para encontrar é preciso ter fé. Se não for assim, casar para quê? Chego ao novo patamar da montanha um pouco cansado da existência de encontros fugazes, pois um libertino se entedia facilmente. Não quero a sorte de um amor tranquilo, quero a sorte de um amor libertino, o pódio da luxúria.

Introdução ao diário libertino

Introdução ao diário libertino

A ciência se enganou, o universo não se expande, ele encolhe. Apenas a mente mais tacanha não constataria esse fato após um olhar superficial sobre o mundo. Meus parentes falecem, a família se extingue; meus amigos se dispersaram, dissipam-se; meus amores fracassaram; a maior parte do caminho ficou para trás e eu estou cada vez mais só neste crescente deserto claustrofóbico. Acho que a gente morre para não ficar deslocado.

Existir é padecer de duas fomes ancestrais, a do estômago e a da genitália. A primeira sustenta o corpo, a segunda perpetua a espécie. A mastigação e a cópula resumem o miolo central do precário sentido da vida.

Nunca me casei, não tive filhos. Sou uma aberração aos olhos rigorosos da Natureza. Um peão inútil. Fiz da comida o motivo para a minha gula e do sexo a razão da minha libertinagem. Aproximando-me da meia-idade, deliberei entregar-me aos instintos e banquetear-me enquanto fosse possível.

Através da Internet, pelos idos de 2000, esbarrei com um “Fórum” sobre prostitutas. Homens que relatavam suas experiências com gueixas contratadas para lhes oferecer prazer. Li com avidez uma centena de experiências, mergulhei embevecido naquelas aventuras libidinosas.

Não posso dizer que aqueles personagens escondidos atrás de Nicks fossem meus irmãos de infortúnio, havia uma distância espiritual entre mim e a maioria deles. No entanto, todos eram meus pares na decisão de exacerbar o desejo carnal. Desses fóruns, foi que construí meu diário, registrei os encontros e detalhei cada uma das descobertas promíscuas com as quais me deparei remexendo o lodo viscoso da vida fácil. Neste volume, exponho os momentos inesquecíveis que vivi.

Não esperem pensamentos herméticos e muito menos iluminações existenciais em meio a essas memórias. A luxúria é um fosso raso, um lugar comum. As filosofices só brotam após o coito. O orgasmo é substância concreta, descrita pelo vulgar, pelo imoral. Aos corpos nus não interessam as profundas reflexões, almejam meramente dissolverem-se no despudor.

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Identidade Secreta: Libertino

Identidade secreta: Libertino

Sempre fui um tímido irremediável e a timidez talvez se imponha pela forma que somos criados, pela postura da família no cultivo das nossas fragilidades. A timidez é a ditadura da insegurança sobre a personalidade, foi um fator que me perturbou por toda a vida e a incapacidade de libertação de mim mesmo me prejudicou em muitas ocasiões. A timidez constrói um cárcere quase inexpugnável. Houve época em que pensei no teatro como solução para tentar rachar os muros que me prendiam, acompanhava um amigo que fazia curso no Tablado para assisti-lo e tomar coragem de investir na minha elevação aos palcos. Não aconteceu, desisti.

Com o tempo, criei estratégias para disfarçar a minha introspecção, a minha falta de assunto com quem eu convivia sem ter intimidade. Sou silencioso e a timidez não melhora com o tempo, o que se aprimora são as nossas coreografias para driblá-la. Infelizmente, em casos como o meu, essa característica funesta se transfigurou em outra pior quando entrei pela maturidade, comecei a sentir fobia de gente, fui me tornando um misantropo.  Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é — cantou Caetano. É verdade, existem delícias e prazeres na solidão, mas também encontramos a dor do desamparo, a melancolia e um empobrecimento intelectual por querermos ser ausência e não presença. Guardamos a necessidade irrefreável de expressão e a timidez é censura, foi na escrita que encontrei o meu plano de fuga.

Como um libertino por ser libertino se for tímido? — perguntaria algum leitor mais atento.

São raros, mas existem. Atente, não classifico como libertino somente o sujeito que mantém relações comerciais com mulheres da vida, pelo contrário, o libertino é aquele personagem muito mais afeito a seduzir do que a pagar. Foram três etapas que me gestaram como libertino: a primeira eu superei quando o sexo se sobrepôs a ideia idílica do romance; a segunda nasceu quando o sexo se tornou uma fome tão insaciável quanto a sede dos vampiros; e a terceira fase eclodiu quando mapeei caminhos que contornaram a timidez para que eu pudesse seduzir. É certo que a idade arrefece um libertino, mas não cura.  

Acredite, leitor sem fé, iniciei-me como um sedutor através de uma seção sentimental do antigo jornal Balcão, na década de 80, onde mulheres colocavam anúncios em busca de namorados, ali eu era um jovem lobo à espreita. Meu trunfo era a escrita. Minhas cartas, obras-primas que superavam a lábia de qualquer Casanova e quando alcançava o contato telefônico, já havia ensaiado para ser o locutor do amor. A elaboração dessas cartas me preparou para a chegada da Internet e dos sites de relacionamento como o Par Perfeito e Como Vai, quando meus e-mails tinham a força de torpedos que incendiavam os corações mais frígidos. Com esse binômio mensagem e telefone, fiz sexo com um número incontáveis de mulheres que se apresentavam buscando romance, mas que não se negavam a experimentar momentos lascivos. Neste período jamais fui Dante ou usei meu próprio nome, fui Vinícius, pois para enganar a minha insegurança, transpor o meu silêncio, arquitetei o ator que não fui, criei um personagem. Loucura? Talvez, mas é a loucura que liberta.

De certa maneira, fui super-herói de mim mesmo, montei uma identidade secreta, costurei a máscara que gerou um personagem com forte poder de persuasão. Fiz sexo com mulheres lindas que conheci no início dessas ferramentas virtuais de relacionamento, com algumas me relacionei, com poucas rompi o personagem e me apresentei como o homem problemático que sou. Passei alguns anos conhecendo uma quantidade de mulheres que não consigo mais mensurar, muitas que se apaixonaram pelo “Vinícius” e outras pelas quais o ator do “Vinícius” se apaixonou. A gestão das minhas identidades exigia uma logística complicada, principalmente, quando eu me interessava em prosseguir na relação. Sorte que cresci criativo.

Não nego, amigo leitor, eu mentia muito, até porque não se pode criar um personagem sem mentir, não é possível deixar o próprio eu para se tornar outro sem mentir. A minha grande virtude como ator é que eu acreditava na mentira e no personagem, incorporava os dois. Sim, eu enganava as mulheres, mas isso também é ser um libertino, para o bem ou para o mal.

Os anos passaram, décadas se passaram, nunca me casei e, inacreditavelmente, não tive filhos. A conclusão é que personagens são celibatários estéreis e o libertino é a verdadeira identidade de um homem que celebra a solidão como um culto religioso.

Valdirene

Estaciono o Sucatão na Av. Marechal Floriano, próximo àquele prédio do Exército, onde em frente está o Panteão de Caxias, dali em diante vou caminhando até a Central. Era alta madrugada, o grande Relógio acima da Estação marcava 1h:30 em seus ponteiros, a iluminação precária e o silêncio flutuante criam o clima de suspense. Andar por naqueles arredores é como circundar o Castelo de Drácula, é uma sensação que mistura receio com excitação. À medida que me aproximava da Estação da Central, o movimento aumentava, o ar ganhava mais vida.

As meninas ficam pulverizadas pela periferia da Estação. É possível vê-las, numa postura até que discreta, pelas calçadas, embaixo de marquises, perto de um posto de gasolina que há por ali e circulando pelas fronteiras da Rodoviária que existe atrás da linha dos trens. Também identifiquei alguns Travestis.

Fui andando e apreciando aquela Paisagem que me era pouco familiar. O aroma do churrasquinho faz o império do olfato, os camelôs iluminam o local com todo o tipo de bugigangas. Existe alegria na Central! Paro e observo tudo, tento reter na lembrança, estou embaixo de um ícone do Rio, o Relógio da Central, quase um arquétipo.

Nossos olhares se cruzaram nesse exato momento, Valdirene estava parada perto da saída lateral da estação. Prostitutas nunca usam Razão Social, quase sempre adotam o Nome de Fantasia. Percebi que era madura. Loira, magra, cerca de 1,60m, usava uma saia jeans surrada e uma camiseta rosa. O nosso flerte durou uns cinco minutos e eu resolvi me achegar.

Contou-me ser maranhense, mora no Morro da Providência, tem 45 anos e perdeu a conta de quanto tempo está na vida. Ela me olhava com face de espanto, parecia não compreender o que eu fazia na Central de madrugada. Seu olhar me fez entender que nem eu mesmo sabia o que estava fazendo ali… Porém, eu me sentia estranhamente integrado àquele universo, a bebida ainda circulava no meu sangue e minha loucura estava desamarrada.

Conversamos uns cinco minutos, foi quando um gesto tocante ocorreu, ela pegou na minha mão e disse que me tiraria dali, que era perigoso eu ficar parado naquela área, esperando por um assalto. Levou-me para uma barraquinha de Cachorro-Quente quase na esquina da Barão de São Félix, perguntou-me se eu estava com fome e eu respondi que nós dois iríamos comer. Ela aceitou e esboçou um olhar de ternura que me comoveu profundamente.

Enquanto lanchávamos, não nos falávamos, somente nos olhávamos e a comunicação fluiu como poucas vezes fui capaz de me fazer entender.

Novamente, ela segura minha mão e me conduz numa nova viagem em direção um Hotel próximo. O quarto me custou R$ 70,00 perguntei qual agrado ela desejaria receber, ela me pede apenas um mimo de R$ 80,00. Eu estava vindo de dois encontros quase consecutivos, não haveria energia para um terceiro. Mesmo assim, acompanhei-a ao quarto.

Que me chamem de Poeta! Que me rotulem de louco! Que me taxem como doente!… No entanto, deitado sobre lençóis rasgados e trancado entre aquelas paredes sujas, eu vivi um dos momentos mais doces da minha vida.

Expliquei à Valdirene que eu não desejava transar, queria apenas descansar um pouco em sua companhia. Ela me despiu lentamente, cheia de cuidados, recostou-se na cama e pediu que eu colocasse a cabeça em seu colo. Começou a me acariciar, fazer cafuné, alisava meu corpo, tocava meu sexo, beijava levemente minha boca e me olhava como se estivesse vendo algo de extremo valor.

Meu colega leitor, você é a única pessoa para quem eu posso tentar transmitir a beleza deste momento, mas não consigo encontrar as palavras e a forma que vão revelar esse acontecimento singular. De repente, quase 3h da manhã, eu estava num quarto paupérrimo, à beira da Central do Brasil, com uma prostituta envelhecida e descobria a luz do mais puro afeto, enxerguei a transparência de quem compreende as profundezas do amor.

Precisei me despedir, ela me deu um abraço e me pediu que não sumisse. Não sei quando irei voltar ou sequer se irei voltar. Talvez eu queira guardar esse instante da forma como o vi, da maneira como ocorreu pra mim.

Volto ao Sucatão, alguma coisa havia mudado em mim, ainda não sei explicar. Ligo o rádio e sigo a Marechal Floriano para retornar pela Presidente Vargas. Quando estou passando em frente ao Sambódromo, uma música da banda Barão Vermelho (O Poeta está vivo) transpira dos alto-falantes…

BARÃO VERMELHO

Acredite, leitor sem fé! A mágica ainda existe.

Bar das Quengas (Lapa) — Um obituário

BAR DAS QUENGAS — UM OBITUÁRIO

Quando um bar fecha as portas definitivamente, é certo que algumas almas se tornam. Foi isso que senti ao me deparar com o icônico Bar das Quengas fechado em uma noite de sexta-feira. 

Localizado fora do eixo caótico do baixo Lapa, ele estava fincado mais para o lado da Praça da Cruz Vermelha, uma face da Lapa muito mais pacata e, inclusive, mas agradável para beber. Um bar não significa somente o encontro com o outro, ele pode ter mais relevância no encontro com o nosso próprio eu. Não me incomodo de sentar-me para beber sozinho e vejo muitos boêmios que também praticam o esporte do copo solitário.


Beber sozinho nos induz aos momentos de reflexão, de contemplação, de auditoria sobre a existência. Nunca tive restrições à minha companhia, portanto, jamais me restringi ao prazer de me embebedar sem a segunda ou terceira pessoa. Na verdade, beber é um prazer que se potencializa quando estamos sozinhos.
 

Todos os bares são templos budistas para o libertino. 

Acompanhei a evolução do estabelecimento que nos seus últimos anos se transformou no Bar das Quengas. Antes da ressurreição da Lapa, o que havia ali era um legítimo boteco do estilo pé-sujo, frequentado por ébrios como eu, por garotas de programa e, principalmente, por travestis. Do outro lado da esquina onde ele estava, uma barraquinha de cachorro-quente consolava os estômagos vazios e maltratados pelo álcool. Tratava-se de um point underground, no seu mais puro significado. Com o avançar da madrugada, brotavam os gays que saíam de uma boate chamada Gayligula (o nome é um filé de originalidade) instalada na Rua Ubaldino do Amaral. 

Talvez, esse lado mais zen da Lapa esteja encontrando dificuldades na sobrevivência, pois o Bar das Quengas arriou as portas e o botequim Beco da Noite pôs o ponto à venda. Duas referências boêmias muito mais relevantes do que qualquer bar da moda no entorno dos Arcos. Uma pena.  

No meu caso, ficou um imenso vazio, pois eu me sentava regularmente diante de uma das mesas colocadas na calçada e passava horas tomando o meu uísque e saboreando algum petisco. Adorava meditar ali, um desses deleites raros e reservados que me proporcionei por diversas vezes. Perdi uma das ilhas prediletas onde eu naufragava.

O Bar das Quengas nunca foi um bar de preços justos, tudo ali era caro, mas eu não me importava em pagar, pois havia a retribuição de um prazer e de um bom atendimento que não encontro em qualquer mesa por aí.

 Às vezes, me parece que a única função do tempo é a de exterminar tudo ao nosso redor até, também, nos exterminar quando só nos resta o desgosto. O que me sobra agora é encontrar outro templo que me receba e abrigue com aconchego os meus mais profundos pensamentos. Que o Bar das Quengas repouse em paz.

Lapa, o musical

LAPA, O MUSICAL

Estou amanhecendo de ressaca após uma noite infinita. Às vezes, tudo parece sem sentido. Engoli de um só gole a dose da Salinas, a cachaça desceu rasgando o esôfago. Não bebo sempre, sou esporádico com o álcool, mas quando bebo é uma comemoração pessoal, uma saudação pelo privilégio de ainda poder brindar à vida. O bar tocava What a Life com o som no alto volume, alguns jovens se moviam como pêndulos, outros dançavam sem inibição no meio da calçada da noite fria, as luzes também dançavam.

WHAT A LIFE

“Fuck what they are saying, what a life!
I am so thrilled right now
‘Cause I’m poppin’ (woo) right now
Don’t wanna worry ‘bout a thing (don’t wanna worry)
But it makes me terrified
To be on the other side
How long before I go insane? (Insane)”

No terceiro copo de Salinas, o sentido de tudo se revelava na falta de sentido, no caos. A mente filosofava em parceria com os acordes da embriaguez. Gosto da euforia artificial, da alegria ébria que me invade de repente. Um outro eu que se liberta do meu eu antediluviano bolorento e sóbrio. Escuto uma voz entusiasmada gritando meu nome.

— Dotô. Dotô Dante, o senhor veio — Baiano corre para me dar um abraço quase emocionado.

Sim, eu estava ali para visitá-lo após as tantas vezes que ele me atendeu carinhosamente no pé-sujo da Teófilo Otoni. Pelo WhatsApp, ele me informou que se mudou para outro bar, na Rua da Relação, perto da Lapa, porque este ficava aberto até tarde e poderia fazer mais dinheiro. Baiano me avisa que a próxima dose seria cortesia da casa, fico constrangido, mas aceito para não o decepcionar. Contou-me que ali também aparecem meninas promíscuas, mas que ele ainda estava mapeando o movimento. A verdade é que Baiano se comporta como um cafetão que ajuda clientes como eu, como se estivesse cumprindo uma missão humanitária.

Faz tempo que me transformei em um insone, durmo pouco, durmo somente na alta madrugada e acordo cedo. Virou um ciclo, um presente de grego da idade que avança. Shakespeare escreveu que há homens que ficam velhos antes de se tornarem sábios, sou um deles. Por que eu seria um sábio? A sabedoria é entediante, censura o desejo de viver. Sou um velho com todas as inconsequências da juventude.

Gosto de bares com música e o bar onde o Baiano está agora executa uma trilha sonora de primeira linha. Eu estava gravitando nos meus devaneios quando começou a tocar Disappear, do INXS.

DISAPPEAR

— Caralho. Que foda de música — a palavra obscena saltou espontaneamente dos meus lábios.

Senti uma inexplicável saudade da minha terra natal, o Rio Grande do Sul. Perdi a conta dos anos em que não visito as minhas origens, saudade das boates do interior gaúcho, das mulheres belíssimas que conheci por lá. Efeitos da bebida. A galera no meu entorno dançava frenética com copos na mão. O bar em que o Baiano está faz sucesso, tem uma pegada meio New Wave, meio retrô e é frequentado por jovens de tribos alternativas, mas também por coroas deslocados como eu. Vejo uma mulher animadíssima puxando a namorada e indo cochichar com o cara que mandava o som, o sujeito remexeu num bolo de CDs, num chaveiro de pen drives. Quando finalmente a música veio, o casal de lésbicas saiu pulando com gritos histéricos e correram para grupo que compartilhava o êxtase com elas.

FINALLY

A melodia de Finally tomou o ambiente como se fosse um chamado para a batalha, foi uma comoção geral. Neste momento reparei a imensa frequência da galera LGTB no meu entorno, qualquer bêbado esclerosado teria percebido isso antes de mim. Eu estava sozinho na mesa e fui puxado por um garoto imberbe que sinalizava com as mãos que eu também deveria dançar. Entrei naquela histeria coletiva.

— Foda-se — pensei.

Dancei muito. Quem me visse de longe talvez me confundisse com Priscila, a rainha do deserto. Eu me senti nos idos da Help, em Copacabana. Soltei a franga. Foi bom pra cacete. Que noite! As lésbicas me beijaram, o garoto disse que eu era um coroa enxuto e descarreguei a energia represada com passos de um dançarino com Mal de Parkinson. Que dinheiro compra esses momentos apoteóticos? De repente, Baiano me cutuca esbaforido com um celular na mão.

— Dotô, a mina quer falar com você. É quente, é quente. Fala aí.

Aqui, faço um breve intervalo. Sei que somos céticos quando nos deparamos com casos que ocorrem fora do cativeiro dos bordeis ou do sistema de lanchonete das frees, é compreensível, mas acredite, forista sem fé, a libidinagem e a promiscuidade também transitam pelos bares, pelos restaurantes, pelas ruas, pelas calçadas, pelo asfalto etc. “Isso realmente aconteceu, Dante?” — não é incomum algum amigo me perguntar, eu respondo que ele precisa viver para descobrir. A maioria das histórias que lemos nos fóruns refletem uma fatia mínima e viciada da luxúria carioca, mas ela é maior, mais ampla e foi sempre nessa outra face da Lua que preferi me aventurar.

— Alô, quem fala? — perguntei me esganiçando para superar o barulho ao redor.

— Mari. O Baiano falou que tu quer companhia. Vem pra cá.

— Onde?

— Em frente ao Bar das Quengas, na Ubaldino Amaral. Estou sentada aqui com uma amiga.

— E como você é? — perguntei.

— Vem pra cá que você vai ver. Vem logo.

Desliguei o celular e perguntei ao Baiano se ele poderia descrever a menina, ele me respondeu de forma vaga.

— Vai que é gata, dotô. Vai que é gata.

Paguei a conta, girei minhas botas para o destino e caminhei pela rua da Relação até a Ubaldino Amaral, não muito distante de onde eu estava. Quando alcancei a esquina da Ubaldino com a Men de Sá, em frente ao Bar das Quengas, avistei um boteco chamado “Beco da Noite”. Uma ninfa ruiva de cabelos compridos e pele alvíssima acenou para mim. Meus olhos devem ter brilhado…

Vila Mimosa

VILA MIMOSA

Giro a chave e o motor do Sucatão grita como uma fera que desperta faminta. Nem a chuva nem a noite alta nos intimidam, os pneus ganham o negrume do asfalto, não há destino, só vontade. Insiro um pen drive aleatório no aparelho de som e a música que transborda incendeia o meu entusiasmo.

HOT STUFF

O limpador de para-brisa abria o meu campo de visão, noite cinza cortada pelas luzes pálidas da cidade. Acelerei, deixei o vento acariciar a minha face, permiti que as gotículas que vinham do céu beijassem o meu braço. Sexo, essa fome interminável. Talvez, não seja interminável. Com a idade, arrefece, mas o desejo não morre. Somos vampiros de orgasmos.

Certa vez, vi dois sujeitos pararem um fusca no meio de um temporal de verão, desembarcaram do carro e começaram a dançar ao som de Hot Stuff, na voz de Donna Summer. Foi a imagem mais intensa de manifestação de liberdade que testemunhei. A música ficou na minha cabeça, gravei e fico a espera de um dia de chuva em que eu também tenha coragem de celebrar a minha libertação.

Rumei para um local que, no período de 2010, cheguei a frequentar quase todas as noites. Vivi romances, fiquei conhecido, criei uma página na Internet (Vila Mimosa Vip) e fiz história naquela época. O affair mais febril que vivi sobre aqueles paralelepípedos foi com uma atriz pornô chamada Natasha Lima (vide X-Videos), com direito a jantares, peças teatrais, passeios à beira-mar e trepadas monumentais. Terminou, pois como já preconizava Renato Russo: o pra sempre, sempre acaba.

Estacionei na penumbrosa Rua Ceará e pisei firme com as minhas botas naquele chão que guarda com um silêncio leal e inviolável a história secreta de tantos libertinos. A Vila Mimosa é uma sobra do que foi, vazia, triste, nostálgica dos tempos que não pretendem retornar. É um monumento do passado que insiste em resistir, decadente, abandonado e quase esquecido. Acredite, forista sem fé, eu não esperava encontrar nada que pudesse valer a pena, saí de casa sem pretensões, apenas para respirar e fugir da minha claustrofobia noturna.

Vaguei pelos corredores da Zona, o meretrício cru, lugar onde a mulher é real. Negras, ruivas, loiras, mulatas, morenas… Um desfile de olhares promíscuos, de convites libidinosos. Dizem que quando não se espera nada é que a mágica acontece, uma loiraça com dimensões de potranca emerge de uma casa num minúsculo biquine vermelho contendo a sua imoral nudez provocante. Sim, afeiçoado forista, eu salivei, talvez até um pequeno filete de saliva tenha escorrido pelo canto da minha boca. Percebendo que aquele colosso feminino não ficaria solta por muito tempo, me aproximei.

— Preciso saber seu nome — perguntei.

— Scarlett — ela me responde com um sorriso simpático.

— Como faço pra ficar com você…

— Só me deixar noventa reais de presentinho. Vale?

— Ôoo! Vale até mais.

— Eu aceito mais também — Scarlett ri.

— Você aceita ir para um hotel aqui por perto comigo?

— Por 200 pode ser.

Fiz a entrevista básica para saber sobre o possível desempenho sexual da moça e parti com ela para o Hotel Saionara, na Rua do Matoso, nos arredores da Praça da Bandeira.

Dentro do quarto, Scarlett entra no banho e retorna nua. Quase desfaleço numa crise de apneia. Que corpo absurdo. Rata de academia, treinos diários, a menina é toda definida, coberta por uma leve penugem dourada, cabelos lisos e compridos, boca carnuda, bunda que poderia me servir de jazigo numa morte feliz durante a ejaculação e uma sensualidade natural. Observando-a com mais calma, compreendi o nome escolhido, ela possui traços semelhantes aos da atris Scarlett Johansson.

— Minha filha, você linda assim… o que está fazendo na Zona? — solto aquela pergunta idiota que não pode faltar.

— Ali eu ganho dinheiro — respondeu com firmeza.

Beijos impudicos, roçadas perigosas, boquete profundo e consegui executar um sexo anal por cinquenta contos a mais no cachê. A garota vale, um achado raro na atual VM. Trabalha na casa 21 do corredor em U. Uma hora e uns quebrados depois, devolvo a menina para dentro da Vila e desemboco com o Sucatão no entorno da Quinta da Boa Vista, subo o viaduto que leva ao Maracanã e alcanço a Praça Xavier de Brito. Eu poderia entrar na garagem de casa e encerrar a noite, mas estacionei na margem da praça, inseri o pen drive no som e aumentei o volume.

Embalei os corpos de uns casais fumando erva e de meia dúzia de pinguços. Saltei do carro e puxei um cigarro que fumo em ocasiões bissextas. Sem filhos, sem esposa, não preciso de nada além de um corpo quente que alimente a minha fome de vez em quando. Liberto, livre, libertino. Libertine-se… 

DONNA SUMMER

Gisele

GISELE

“Se sentires as pernas cansadas, abre o peito e inspira fundo.”

—Friedrich nietzsche (1883)

O mar se movia com preguiça quando estacionei o Sucatão às margens da Praia Vermelha. A noite se fazia densa, o silêncio só permitia o sussurrar leve da brisa que soprava de algum ponto obscuro do horizonte. Não pensei que ela pudesse se lembrar de mim, até receber um súbito chamado pelo WhatsApp. Gisele voltou, mas ficará por poucos dias no Rio. Avisou-me que não estava no Centro, mas hospedada na casa de uma amiga na Urca. Marcamos e cheguei antes da hora. Eu transpirava ansiedade. Inseri um disco aleatório no cd-player, apoiei as costas na lataria do carro e um som antigo transbordou alto pelas caixas de som…

Kate Bush

Há momentos que são mágicos, enquanto a balada emoldurava a paisagem exuberante, avistei Gisele vindo em passos suaves pelo lado da Fortaleza de São João, ela me acenou com a leveza da bailarina que é, meus olhos quase marejaram ao confirmarem sua presença divina. Louraça, cabelos soltos se derramando pelos ombros, olhos que cintilavam à distância, pernas longas e torneadas, cintura fina, o rosto delicado de beleza imponente, tudo isso envolvido por um vermelho vestido vaporoso e decotado. Acredite, forista sem fé, o meu primeiro pensamento se materializou em uma frase: “estou sonhando, essa mulher não quer ser minha, não pode ser…”

A escrita é um instrumento que afinamos com exercícios diários, treinando, sentindo o som dos vocábulos, o ritmo, a respiração, a textura de cada sentença, porém, mesmo que eu fosse um virtuose da palavra, não conseguiria descrever Gisele de forma fiel, que retratasse o quanto ela é deslumbrante. Ela pertence ao grupo das jovens mulheres que nos causam apneia, minhas pernas tremeram diante da sua aparição. Fiquei ali, estático, esperando que se aproximasse o suficiente para que eu pudesse agarrá-la como um náufrago tentando não se afogar.

— Dante, como você está elegante. Isso tudo é pra mim? — foi sua primeira frase para este velho libertino.

Sim, afeiçoado leitor, sou um britânico nascido moreno e nos trópicos. Minha resposta foi um abraço e um beijo em sua boca, Gisele retribuiu. Ela me convidou para nos sentarmos um pouco na areia da praia, queria conversar, aceitei. Contou-me sobre as viagens que fez, disse que São Paulo é muito melhor do que o Rio para uma stripper como ela, confidenciou que sentiu saudades de mim (será?) e me lançou um olhar quase em brasas. Começou a alisar minha perna direita e subiu até o meu combalido pênis escondido sob a calça jeans, os sinais da ereção se manifestaram. Novamente, ofereceu-me a sua boca, a língua gulosa quase alcançou a minha traqueia, ela se deitou sem medo de se lambuzar na areia, puxou-me para o seu lado e levou minha mão a um dos seios. Transei na praia uma única vez na minha vida, mas fiquei receoso de continuar com aqueles amassos ousados em uma área militar, como é a Praia Vermelha. Perguntei a Gisele se ela teria tempo para irmos a um motel, ela disse que precisava fazer um show mais tarde no Palácio de Cristal, mas poderia ir se não demorássemos muito. Cavalo dado não se olha os dentes, parti com ela para o Bambina, em Botafogo.

Confesso, afeiçoado forista, dentro do quarto, ela se despiu e fiquei alguns minutos sentado à beira da cama contemplando aquela obra magnífica da genética e da natureza. Gisele é a minha Sharon Stone, uma loira que exala sem pudores o seu instinto selvagem. Ajoelhou-se e abocanhou Pikachu, o breve, em um boquete quase artístico, lambendo a minha glande com calma, explorando com a língua todos os detalhes anatômicos do meu pau, deslizando sua boca até o meu saco, chupando meu saco, subindo para engolir novamente o pênis, alternando o boquete com a punheta. Meu tesão era tanto que fiquei com receio de sofrer um AVC. Não sei qual é a técnica que ela usa, mas rapidamente senti aquela sensação vulcânica da erupção e gozei jatos intermináveis de sêmen na garganta da menina. Ela engoliu, lambeu os lábios e me deu um sorriso devasso que jamais irei sairá da minha memória. Devido a ejaculação precoce, o encontro terminou rápido.

Voltamos ao Sucatão, acelerei e partimos em direção ao Palácio de Cristal. Quando peguei o Aterro do Flamengo, a música de Simple Minds inundou a cabine…

Simple Mind

— Sabe que adoro você, Dante? — Gisele me diz de repente.

Pisei mais fundo no acelerador sem conseguir conter um sorriso de euforia. Outro pensamento intruso se manifestou em uma frase mental silenciosa: “Caralho, essa mulher é minha”.

GISA POLTERGEIST

GISA POLTERGEIST

Aos amigos que me acompanham, na viagem das palavras, pelas minhas andanças boêmias, inicio pedindo desculpas pelo tom gótico deste episódio. Porém, aconteceu! Como libertino e notívago, me imponho à obrigação de relatar.

Costumam me perguntar como um Professor, de formação avançada, pode se sentir bem dirigindo um táxi pelas noites do Rio. Eu poderia responder a questão invertendo os fatores, perguntando como um taxista pode se sentir feliz atuando como professor durante o dia. Mas o que realmente ocorre quando me fazem essa interrogação é que sou remetido ao final da minha adolescência, no início dos anos 80. Lembro-me de estar sozinho, sentado numa das poltronas do Cinema Carioca, na Saenz Peña, assistindo ao filme “Caçadores da Arca Perdida” e desejando que a minha existência se tornasse um grande baú de aventuras que me salvasse do tédio urbano. 

Aos 40 anos, comprando um táxi quase como quem compra um brinquedo, eu me tornaria o meu próprio herói. Visto meu uniforme para a noite, calça e blusa nos invariáveis tons escuros; aciono o motor do Astra amarelo; ligo o rádio; acelero lentamente e mergulho no asfalto. 

Uma idosa acena, eu paro, ela entra no carro e informa que o seu destino seria o Caju. Durante o caminho, a anciã se revela uma déspota rabugenta, só me chama de senhor, me maltrata, reclama o tempo inteiro da minha falta de conhecimento sobre a região portuária, cheguei a pensar que fosse desistir da corrida, cheguei a ter essa esperança, mas ela parecia determinada a me infernizar. Quando, finalmente, alcançamos o paradeiro da velha, ela salta do carro, me olha nos olhos e me manda comprar um Guia Rex. Senti um calor de raiva na face, mas sou um pacifista, fui criado na filosofia do respeito aos mais velhos, me contive e não cometi o ato onírico de respondê-la.

Retornando pelo mesmo caminho por onde cheguei, tal qual Teseu fugindo do labirinto de Minotauro, eu avistei o inusitado… Um grupo de garotas, vestidas em cores vivas, conversavam animadas em frente à entrada do Memorial do Carmo, um dos Cemitérios do Caju. Uma delas se precipitou à beira da calçada quando viu meu táxi se aproximando em velocidade de cruzeiro. Começando a desconfiar do que se travava, fui freando o veículo. Quando parei, a menina já estava debruçada sobre a janela do carona e se apresentando como Gisa.

Um ponto de mariposas em frente ao cemitério! Quando eu poderia imaginar isso se a minha nave não houvesse me levado pelos descaminhos da nossa cidade?

Gisa é uma ruiva muito branquinha, em frente ao cemitério poderia facilmente ser confundida com um Poltergeist, mas é mulher de carne e osso, com um jeito atrevido e um toque sensual. Deve alcançar 1,70m; pernas bem torneadas, expostas por um vestido curto e estampado num azul e verde ofuscante; sua voz tem uma rouquidão sexy; seus cabelos são compridos, pintados num vermelho forte.

Sua primeira frase não negava o ofício.

– Vai namorar a Gisa hoje? – Pergunta.

– Depende! A Gisa é uma namorada carinhosa? – Devolvo.

– Sou a mais carinhosa daqui.

– Gisa, encontrar uma mulher carinhosa dando sopa na porta do Cemitério é quase como esbarrar com Lázaro fazendo um Cooper aqui pelas redondezas. É um evento! Mas quanto preciso dar pelo carinho?

– No motel, X. Só o boquete, Y.

Não sei o porquê, mas sempre considerei a palavra boquete um vocábulo feio, com uma carga de vulgaridade intensa. Ouvir uma mulher falar boquete é algo broxante pra mim, mas sentir uma mulher fazendo um bom boquete é um sonho para qualquer homem… Contradições da nossa alma.

– Aonde poderíamos ir se eu quiser só o boquete? 

– Tem a garagem de uma Marmoraria ali atrás, é perto e ninguém incomoda. – Ela me esclarece.

Optei pelo boquete!…

A tal garagem era um recuado em terra batida, ao lado de um pequeno galpão e logo após o Cemitério do Caju. Um lugar penumbroso que poderia causar temor aos corações mais frágeis. Estaciono o amarelinho e deixo a lanterna do farol acessa para que eu pudesse enxergar alguma coisa.

Gisa é dessas que não perde tempo, afrouxou meu cinto, desfez o nó dos meus botões, puxou minha calça para baixo, deixou cair a cabeça sobre a minha virilha e encaixou seus lábios numa deliciosa sucção labial que envolveu todo o meu membro. A garota é boa no que faz, senti a eletricidade da sua sede me percorrer inteiro. Relaxei. 

Confesso que a chupada era gelada, o que fez o clima fantasmagórico crescer na minha imaginação, mas preferi creditar o toque da língua fria a alguma bala Halls que a menina estivesse trazendo à boca.

Quando olho para o meu lado esquerdo, vejo uma lápide, estava apoiada numa parede, atrás de uma grade e trazia a inscrição miserere mei (tende compaixão de mim) gravada na extremidade superior. Sim, meu amigo, aquilo me causou algum desconforto, mas a força do prazer nos faz suportar a maior parte dos incômodos.

Gisa continuava a me sugar como uma vampira erótica que necessitava despertar meu sêmen. Para todos os lados que eu olhava só conseguia ver cruzes e anjos erguendo-se para o céu. Senti que a minha explosão estava próxima… Gozei!… Foi um orgasmo barroco, cercado de todos os símbolos religiosos que habitam um cemitério tradicional. 

Quando abro os olhos, me recuperando do beijo fálico, consigo ler outra inscrição no alto de um jazigo que praticamente saltava pelo muro do cemitério: Mors ultima ratio (morte, o derradeiro argumento).

Abandonamos a toca sombria, eu com os membros aliviados e a mente extasiada. Recordei-me do trecho de um Poema que li quando ainda era muito jovem: O Noivado do Sepulcro, do poeta português Soares Passos. 

“E ao som dos pios do cantor funéreo,

E à luz da lua de sinistro alvor,

Junto ao cruzeiro, sepulcral mistério

Foi celebrado, d’infeliz amor.

Quando risonho despontava o dia,

Já desse drama nada havia então,

Mais que uma tumba funeral vazia, Quebrada a lousa por ignota mão.

Porém, mais tarde, quando foi volvido

Das sepulturas o gelado pó,

Dois esqueletos, um ao outro unido, Foram achados num sepulcro só.”

Muito além da meia-noite, deixei Gisa no mesmo lugar em que a encontrei, em frente à entrada do Memorial do Carmo. Aproveitei para perguntar se merecia o esforço fazer ponto ali, ela me explicou que aquela região é parada de caminhoneiros, por isso, as meninas se concentram nos arredores do cemitério. A elucidação comprovou que para tudo existe uma razão científica.

Acelero o Astra e ainda consigo identificar uma última inscrição que emerge sobre uma imagem, acima do muro do campo-santo: Dormit in Pace (descanse em paz).

Ligo o rádio, o som está alto, ganho a Av. Brasil ao som da batida de um refrão de música estrangeira: Set me free!…


FORRÓS E MEMÓRIA

FORRÓS E MEMÓRIA

— Dante, mas você escreve coisas que não tem nada a ver. Você se expõe — me diz um forista puritano por mensagem privada.

Respondo a você, afeiçoado forista, falar o que se quer é uma das liberdades que a idade traz, desde que eu fale sobre mim, não sobre terceiros. Nesta altura do meu campeonato, o personagem Dante já se confunde com o autor e o autor com o Dante, a fronteira é tênue e não me limito por pudores juvenis. Se até o suposto Jeová disse “eu sou o que sou”, por que eu, supostamente sua imagem e semelhança, não posso dizer o mesmo? Eu sou o que sou e para a opinião alheia aprendi a responder com uma palavra milagrosa: foda-se.

Outra característica da idade e das perdas que vamos sofrendo com os anos é que parece que nos apegamos mais à memória. Ultimamente, venho me recordando de muitas situações, muitos lugares, e principalmente do que vivi na década de 80 e no início da década de 90, o apogeu da minha juventude. Passei muitos anos estudando, estudo até hoje, mas quando jovem a minha fome por livros e pelo estudo tragava os poucos caraminguás que eu levava no bolso. Não à toa, construí uma biblioteca milenar. Como meus pais nunca foram de me bancar, passei a pão e água numa época em que poderia ter sido playboy, mas de todos os reveses podemos tirar pontos positivos. A dureza financeira me fez criativo.

O Rio de Janeiro de hoje não é o Rio de Janeiro de ontem, constatação óbvia. O Rio de Janeiro de hoje é uma merda, há poucas opções de lazer noturno, boates faliram, bares interessantes quase não existem e o Tinder não presta para pegar mulher. O Rio de Janeiro que eu ainda consegui viver oferecia mais diversidade e como peguei o início dos sites de relacionamento, no fim da década de 90, segui por uma trilha em que comi tantas e tantas mulheres civis que perdi a conta.

Como citei acima, como minha conta bancária era magra, eu precisava improvisar. Certa vez, um colega me falou sobre forrós (isso no início dos anos 80) e um dia decidi me arriscar em uma visita. O primeiro forró que entrei ficava no Catete, o nome era Alegria do Catete, localizava-se do lado de um hotel na Rua do Catete. Acredite, forista sem fé, a primeira vez em que entrei nesse forró me senti uma espécie de Brad Pitt. Não precisei azarar nenhuma mulher, eu era azarado por todos os lados. Ali naquele salão, entre triângulos e sanfonas, todos os meus preconceitos sociais desapareceram, comunguei com porteiros, empregadas domésticas, balconistas, auxiliar de serviços gerais. Foi um novo mundo que se descortinou e um universo de vaginas afetuosas se debruçaram sob o meu jovem pênis. Eu não tinha carro e ainda sinto o cansaço de esperar o ônibus da linha 410 passar pela Praia do Flamengo para me levar à bucólica Tijuca.

A primeira vez que comi uma mulher foi na Casa Rosa da Rua Alice, em Laranjeiras, mas a primeira vez que fiz sexo foi com uma empregada doméstica que conheci no forró. Franciele era o nome da menina, dona de um par de seios que até hoje povoam o meu imaginário. Fiz carreira nos forrós do Rio, ao contrário dos nordestinos e nortistas que frequentavam esses locais, eu me vestia igual ao Zé Bonitinho, almofadinha total, assim eu marcava a minha diferença. Da Alegria do Catete, descobri o Forró da Associação (que ficava ao lado do finado Canecão, em Botafogo); depois passei para o Forró da Praia, também em Botafogo, na Rua da Passagem; segui para o Forró do Mourisco, ali ao lado de onde hoje é a churrascaria Fogo de Chão; me apresentaram ao Forró de Copacabana, onde até pouco tempo funcionava a Mariuzinn); em Copacabana, descobri a Help, em uma época que putas ainda davam no 0800. Foram muitas, muitas, muitas mulheres, amigo forista. E posso dizer, sem falsa modéstia, que nunca paguei, pois não tinha grana para isso. Era sexo por amor.

Tudo bem, concordo que envelheci, ganhei uma barriga imoral, mas a verdade é que um neófito comum que começa sua carreira sexual no século 21, no Rio de Janeiro, irá encontrar pouquíssimas opções além dos puteiros (que também se reduziram) e forrós nem existem mais, acho que somente na Baixada. Uma pena.

Quando a década de 90 caminhava para o crepúsculo, conheci os sites de relacionamento: Par Perfeito, Como Vai etc. No início desses sites, as mulheres não exigiam fotos e eu me valia da boa escrita, com mensagens que me faziam um príncipe encantado. Depois, o contato continuava pelo telefone, onde eu simulava voz de locutor da JB FM. Tiro e queda, quando a mulher me encontrava já estava tão na pilha que a porta do motel se abria fácil. Comi muitas mulheres por esses sites de relacionamento. Dinheiro curto, criatividade imensa. Na verdade, a minha decadência como Dom Juan começou justamente quando comecei a ter mais dinheiro. A grana é inimiga da criatividade produtiva.

Infelizmente, fica a conclusão de um velho: tempos que não voltam mais…

FOG EM COPACABANA

FOG EM COPACABANA

Noite de sábado, deviam ser umas onze horas. A noite de sábado é como um templo sagrado para o libertino. E, como não poderia deixar de ser, lá estava eu: sábado à noite, esquina da Siqueira Campos com Praça Serzedelo Correa, saboreando um chopinho e perdido nos mais profundos pensamentos, num bar que tinha o nome de Temperado.

De repente, sou despertado abruptamente pela gargalhada fanhosa do Teixeirinha. Sim, ele mesmo! Meu inseparável escudeiro, porque todo solteirão necessita de um fiel escudeiro que o acompanhe pela night.

– Cara, olha isso! Que maneiro! Nunca vi isso! – Bradava meu amigo Teixeirinha.

Foi quando percebi que estávamos diante de um fenômeno que eu também nunca havia presenciado no Rio. Uma espécie de fog, uma neblina carregada, que havia invadido Copacabana fazendo o ambiente parecer uma Londres tropical. Chovia fino, mas não sei dizer o que pode ter ocasionado aquele nevoeiro noturno. Para completar, ouço um som, uma música maravilhosa que me envolveu. Era a primeira vez que eu escutava Summer Time cantada pela voz da Janis Joplin e foi acontecer ali, num bar da Siqueira Campos e numa noite de fog em Copacabana.

O Teixeirinha foi ao delírio:

– Cara! Que isso! Tô me sentindo em New York!

O interessante é que toda àquela atmosfera cool fazia realmente parecer que estávamos numa outra cidade que não fosse o Rio. Terminamos de beber e decidimos seguir o itinerário que traçado, iríamos ao extinto Forró de Copacabana, que ficava numa galeria perto da esquina da República do Peru, onde atualmente funciona a Mariuzinn.

Começamos a caminhar em direção ao destino. Quando estávamos atravessando a Hilário de Gouvêa surge uma mulata descomunal, armada de um top para lá de decotado e de uma minissaia que deixava à mostra um par de pernas saradas como raramente testemunhei na vida. Quando cruzou conosco, nos fuzilou com um olhar e sorriu. Bastou isso para eu escutar a manifestação quase histérica do meu escudeiro:

– Foi contigo, foi para você! Ela deu mole, porra! Vai deixar passar, vai deixar passar?! – Gritava.

Como eu já estava com a cabeça em maresia depois de brincar de laboratório químico no bar da esquina, ao misturar diversos teores alcoólicos, acabei me deixando contaminar pelo entusiasmo do Teixeirinha e decidimos seguir aquela mulata fantástica para que eu pudesse tentar me aproximar. Foi aí que a nossa aventura começou! A mulata caminhava devagar, causando burburinho no trânsito. Como ela veio do sentido oposto ao nosso, tivemos que inverter nosso trajeto.

– Pra onde ela deve estar indo? Ela tem jeito de cachorra! Será que cobra? – Tagarelava o Teixeirinha ao meu lado.

Ela seguiu a Nossa Senhora de Copa, entrou na Siqueira, contornou a praça e….. Veio a bomba!

Tente se lembrar de uma boate que havia entre a Hilário de Gouvêa e a Siqueira Campos chamada Incontrus (era assim mesmo que se escrevia). Pois é, foi onde ela entrou! Pode duvidar, mas eu não tinha noção do tipo de boate que era a Incontrus. Percebemos um movimento diferente na porta, mas como também havia muitas mulheres, nós não tocamos para o que nos aguardava. Começamos a cogitar que devia ser mais uma boate alternativa, no estilo da Bunker ou da Dr. Smith. Após um momento de indecisão, resolvemos corajosamente desbravar o local atrás daquele monumento que nos havia acenado com a possibilidade de prazer.

O lugar era engraçado e gerou um suspense de mau gosto até chegarmos à boate. Primeiro, você subia uma longa escada que levava até a bilheteria; comprado o ingresso, você agora descia uma outra escadaria em frente e se deparava com duas enormes portas, ao ultrapassá-las, desfez-se o mistério… Queria que alguém tivesse fotografado a minha cara e a do Teixeirinha assim que pisamos dentro na pista. Os antigos navegantes anunciavam terra à vista ao se depararem com um Novo Continente, mas ouvi o berro do Teixeirinha exclamar:

– Cara! Que mar de homens é esse?! Em que furada que a gente entrou?!

Verdadeiramente, estávamos numa furada! Havíamos invadido uma boate gay. Diria mais, estávamos dentro de uma arena gay onde homens se digladiavam, se agarravam, se beijavam e todas as demais performances que eu e o Teixeirinha, anti-heróis do convicto mundo hetero, sequer poderíamos imaginar presenciar. O mal estava feito…

Agora já entramos! Vai atrás da mulata e convida para outro lugar. Se você conseguir sair daqui com ela, me chama. Vou ficar te esperando no balcão do bar – Informou meu heroico amigo.

Parti para resgatar a mulata, o lugar estava lotado e mal se podia andar. Rodei, andei, procurei e nada. Para piorar a situação, eu não conseguia encontrar a beldade. Existia um segundo pavimento. Subi. Nesse ínterim, já haviam se passado uns trinta minutos desde que entramos.

Na parte de cima, a boate era uma espécie de corredor polonês, foi preciso cautela. Finalmente, avistei a almejada potranca. Definitivamente linda! Estava no final do corredor e fui ao seu encontro. Parei. Rondei. Dei um tempo fitando a menina e mantendo uma distância segura, mas ela me viu e novamente abriu um inacreditável sorriso. Acenou. Ela me acenou! Quando ousei me aproximar, percebi que um braço envolvia a sua cintura. Continuei. Estacionei ao seu lado e lancei a intimação.

– Olá! Que bom que me chamou, queria mesmo falar com você.

– Qual seu nome? – Ela me pergunta.

– Dante e o seu?

– Dara. Eu chamei você porque achei que o conhecia, pensei que fosse um amigo antigo meu, mas agora vi que me enganei. Desculpa.

– E será que agora eu não posso lhe conhecer? – Devolvi.

– Olha, vai ficar difícil. Foi só um engano mesmo, meu negócio é mulher. Além disso, estou com a minha namorada aqui.

– Xeque-Mate.

Afeiçoados leitores, confesso que cheguei perto de enfartar, meu sangue subiu. Olhei em volta e quis apenas desaparecer daquele inferninho alternativo. Aí veio o golpe de misericórdia! Quando olho do parapeito, vislumbro o meu amigo Teixeirinha absolutamente trêbado, girando a camisa acima da cabeça, dançando freneticamente entre vários boys e esganiçando a frase:

– O mundo é gaaaay! Reboquei no desespero o Teixeirinha, que hoje alega amnésia alcoólica. Por sorte, afirma năo lembrar (ou não querer lembrar) daquela noite fatídica, embalada pela voz da Janis Joplin e embaçada pelo único fog que assisti em Copacabana

FEITIÇO DO TEMPO 1

FEITIÇO DO TEMPO

Ontem me prometi não sair de casa, resistir à agonia de ficar enclausurado em um sábado à noite. Escolhi filmes, li um livro, comi uma pizza, mas nada disso foi suficiente para aquietar o espírito libertino. Eu precisava de alguma aventura ou, ao menos, da tentativa de me aventurar. Digo a você, afeiçoado forista, estou na fase da terceira idade em que durmo pouquíssimo, sou invadido constantemente por uma inquietude noturna que não me permite ficar aconchegado na atmosfera caseira. Vesti meu velho uniforme libertino (sim, libertinos são como heróis, usam uniformes), geralmente um vestuário em tons escuros, chamei um táxi (estou com a carteira de motorista vencida) e pedi para o piloto tocar para a rua do Senado. Passou-me pela cabeça ir para a Mosaico, na Vila Mimosa, mas fazia tempo que eu não visitava o Feitiço do Tempo. Decidi o meu destino.

Quanto mais o veículo se aproximava do Centro, mas a paisagem ia se tornando árida, deserta, silenciosa. As lâmpadas de vapor de mercúrio refletiam um cortejo de pálidas luzes amareladas, o asfalto nos conduzia pelo velório do vazio. Logo após a Praça da Cruz Vermelha, uma arena rodeada por velhos prédios carcomidos, pedi que o taxista parasse. Preferi ir a pé pelo resto do caminho. Finquei minhas botas na calçada, pisei firme e calmo, com a serenidade dos que conhecem os recantos furtivos e traiçoeiros da madrugada. Coragem não significa violência, mesmo porque violência muitas vezes significa covardia; coragem é sinônimo de ousadia e na maior parte das vezes é o contraponto à violência. Ninguém percorre tranquilo as ruas do Centro, mas a região da Cruz Vermelha é próxima à Lapa, também pontuada por bares e pés-sujos que compõe a fauna do local.

O Feitiço do Tempo é um inferninho que teve sua origem no entorno da Central do Brasil, depois o proprietário se uniu a um outro empreendedor e unificaram a firma nos arredores da rua do Senado. Neste último sábado, quando entrei na boate, tive uma surpresa que me deixou boquiaberto, o bordel está emplacando um perfil original, virando marca. Subi os degraus do antigo sobrado e quando entrei no salão tudo continuava iluminado à luz de velas, mas com velas estilosas. Do corte de luz, brotou a criatividade. A iluminação elétrica se restringia a umas poucas luzes coloridas colocadas em cantos estratégicos da pista. Avistei quatro casais, provavelmente se aquecendo antes de partirem para o Swing do Mistura Certa. De puteiro, o Feitiço do Tempo pescou a ideia de se firmar como boate temática de flash back. Achei genial.

Quando ainda estava buscando uma mesa para armar o meu acampamento, começou a tocar uma música de um passado muito distante (1987), meu melhor passado. Admito, colega forista, quando sou pego de surpresa com esses elementos que nos lançam para trás, fico a beira de me emocionar. Reconheci a música, reconheci a voz, reconheci a época. Patrick Swayze cantando She’s Like the Wind. Acredite, forista sem fé, foi neste ponto uma garota chegou perto de mim e me puxou para dançar. Morena, alta, corpo esguio que denunciava as curvas de uma falsa magra, cabelos longos presos com rabo de cavalo, um olhar intenso e sexy. A última vez que me lembro de ter dançado música lenta com uma puta foi na finada Discoteca Help, que fazia uma sessão romântica às 3h da madruga.

SHE’S LIKE THE WIND

Digo a vocês, foi foda. Que momento. Aquele corpo quente colado no meu, os passos lentos em que nos orbitávamos, as mãos dela acariciando a minha nuca, os acordes que transbordavam pelas caixas de som. O coração do velho precisou ser forte. De repente, do nada, ela me beija na boca. E aqui eu quebrarei toda a elegância do texto para poder descrever o pensamento que quase saltou nu da minha mente. Puta que pariu. Que beijo. Que cena. Nessas ocasiões é que me convenço de que a vida libertina é maravilhosa. Ainda existe magia, estimado forista. Permanecemos na pista quando o DJ emendou com Kate Bush.

KATE BUSH

— Dante, como você consegue lembrar desses detalhes? — Perguntaria o forista incrédulo.

Impossível é esquecer, meu cético camarada. E se algum forista se mostrar insatisfeito com este relato, se considerá-lo repleto de informações inúteis, descartáveis e afirmar que eu não falo do principal, o que poderei responder? Lamento pelo humano estéril que você se tornou, meu caro. O prazer está na percepção do abstrato.

Sentei-me com a mulher que me levou por uma viagem que irei me recordar até o último suspiro. Revelou-me que seu nome é Laura, tomamos umas cervejas, conversamos, namoramos e decidi convidá-la à alcova. Pedi que nos deixassem no quarto por uma hora e meia. O fim desta história resumo com sussurros, gemidos e orgasmos. Fui feliz.

FEITIÇO DO TEMPO 2

FEITIÇO DO TEMPO 2

Creia-me, estimado leitor. Venho saindo com meninas que atendem por conta própria, dando preferência as que possuem local. A minha colheita tem sido de boas experiências, um saldo positivo e surpreendente para quem antes priorizava como preferência às termas. Apesar disso, nunca me sinto totalmente satisfeito, falta sempre algo que a minha natureza sexual exige desde que o sexo deixou de ser um mistério para mim. Sim, na juventude o sexo ainda guarda aquela aura de mistério, um elemento que contribui para a nossa excitação incontrolável, mas é na fase mais madura que precisamos encontrar um afrodisíaco que substitua o mistério que se extinguiu. No meu caso, eu substituí o mistério pela adrenalina, pela aventura, pelas fronteiras desconhecidas.

Se em tempos remotos a grande façanha humana foi cruzar oceanos em busca de novos horizontes, de novos continentes, para o homem moderno a maior proeza é se enveredar por experiências sexuais que nos renovem, que nos façam sentir o pulsar do corpo, do existir. Não nego, afeiçoado leitor, tenho a necessidade de farejar mulheres como tubarões farejam sangue. É a caça que me excita, o desafio.

Estou trocando de carro, mas até que se formalize um desconto a que tenho direito para o meu novo veículo fiquei dependente de táxis, até duas semanas atrás. Um porteiro da minha rua, com necessidade de dinheiro extra, me ofereceu seu automóvel para alugar enquanto espero o desembaraço do meu imbróglio burocrático. Aceitei a proposta e aluguei a viatura do porteiro, um fusca bem cuidado, cor de vinho, com rodas de modelo antigo e rádio com toca-fitas e entrada para CD. Não sou afeito a luxos, prefiro ser prático. A verdade é que um fusca andando pelas ruas chama mais a atenção do que um BMW último modelo. É o que estou reparando nos meus rolés ocasionais.

Sábado à noite, beirando a madrugada. Fiquei na dúvida se seria conveniente sair durante este período de toque de recolher, mas a minha inquietação noturna me lançou às ruas. Para quem possuía um Corolla, entrar num fusca é um experimento quase claustrofóbico. O carro não tem ar-condicionado e o rádio é um provedor de estática. Como não possuo fitas cassetes dignas de utilização, levei uns CDs para não dirigir no silêncio. Encaixo a chave na ignição, piso na embreagem, aciono o acelerador e o fusquinha grita agudo, como se despertasse de um sono secular. Os pneus se movem e ganhamos o negrume do asfalto. A partir de agora, qualquer aventura é possível…

Ligo o rádio e introduzo um CD qualquer. A música invade a cabine, inunda meus ouvidos e faz meu coração acelerar empolgado. A voz de Annie Lennox faz o lobo velho e adormecido que me habita reagir a inércia que tenta domesticá-lo.

Sweet Dreams

O sangue ainda pulsa, eu estava de volta aos sete mares em busca de alimento para a minha alma sem direção. O roteiro noturno de um Rio interditado pelo vírus não nos deixa muitas opções. Peguei a Praça da Bandeira, entrei na Rua Ceará, a minha primeira visita seria ao território onde os homens que mijam em pé: A Vila Mimosa.

Senti dificuldade com a direção do Herbie (o fusca), em determinados momentos parecia que guiava uma carroça puxada por cavalos indomados. Aos poucos, fomos ganhando confiança um no outro, o afeto foi surgindo, até que deslizávamos em harmonia pelos recantos sombrios da cidade. Custei a conseguir estacionar o pequeno fusquinha. Rebelde e de volante pesado, as manobras me custavam um suadouro intenso. Assim que acomodei o carro, pisei com minhas botas gaúchas sobre os paralelepípedos da zona, território sagrado dos libertinos.

Fiquei em dúvida se estava na Mimosa ou no deserto do Saara. Havia tão pouca gente no lugar que era possível dizer que não havia ninguém. O único movimento vinha dos caminhões saindo e entrando do frigorífico. O céu cinza, o ambiente melancólico, tudo fazia com que eu me sentisse personagem de um romance policial, um detetive em busca da loira má. Não demorei muito na Vila, voltei para o fusca e partimos para a Lapa.

No caminho, o CD exala outro som que me empolga. Pitty cantando “Pulsos”. A guitarra faz meu envelhecido coração vibrar junto com os acordes, abro mais as janelas e não me seguro. Cantei.

“Tenta achar que não é assim tão mal, exercita a paciência, guardo os pulsos pro final. Saída de emergência…”

Pulsos

Você está certo, leitor sem fé. O sentimento de existir me invadia, me puxava para fora do corpo, me ressuscitava. Direi algo que poderá parecer um clichê, mas a noite é mágica. Enquanto alguns dormem, outros acordam.

Alcancei a Lapa, me enveredei pela Rua do Rezende na esperança de avistar as mariposas no ponto em frente ao hotel Andorinha. Nada. Estacionei o Herbie, agora com mais facilidade. Deixei o carro e fui caminhar. O boteco da esquina estava com meia porta aberta. O silêncio no entorno encobria a atmosfera com um tom sepulcral. Imaginando que não cruzaria com nenhuma Lei Seca, pedi uma dose da Salinas. Sorvi a cachaça como os Deuses sorvem a ambrosia. Imediatamente, as luzes ficaram mais brilhantes, as vozes mudas se tornaram audíveis. Tomei outro gole e foi quando a vi, a mulher rara de despudorada, flamejante e fugaz: a felicidade.

Das caixas de som do botequim emergiu uma música que eu não escutava há anos: Summertime, com Janis Joplin. Os acordes fizeram a noite ganhar um clima underground naquele pé-sujo com lâmpadas florescentes e homens naufragados.

Summertime

Percebi que não conseguiria nada na Lapa anestesiada por estes tempos hostis. Retornei ao fusca e deslizamos para outros territórios. Pego a rua 20 de Abril e quando me aproximo da rua do Senado vejo balões e a entrada de um sobrado com circulação de vida inteligente. Veio-me a sensação de descobrir um planeta após vagar pela escuridão fria do universo. O Feitiço do Tempo desafiava decretos e imposições, estava aberto.

Alojei Herbie no meio-fio e caminhei em direção àquela colônia mundana. Recebo uma comanda e subo os degraus infinitos. Quando entro no salão, me deparo com um ambiente escuríssimo, as mesas iluminadas por velas, poucos clientes e um número razoável de meninas que eu não conseguia identificar se eram humanas devido ao breu que encobria o lugar. Um cenário de taberna da Idade Média. Sinto dificuldade para enxergar em locais pouco iluminados, fui tateando para encontrar um assento. Esbarro em uma menina que me explica a falta de luz elétrica.

— Bebê, senta ali. A Light cortou a luz, mas o dono já acertou e eles devem religar daqui a pouco.

Sentei-me. Como eu disse, não conseguia enxergar muita coisa, via vultos, alguns arredondados e outros esguios. Uma senhora quase idosa se aproximou, minhas pernas tremeram, perguntou se eu queria beber alguma coisa, pedi uma cerveja. No terceiro latão, uma magrinha jeitosa acomodou-se ao meu lado. Bonita de rosto, mas o corpo de faquir. Naquela altura do campeonato, não importava muito, tudo era divino, tudo era maravilhoso. Sim, leitor sem fé, Belchior transbordava das caixas de som para explicar por que o nome do bordel é Feitiço do Tempo. E ao som de “Apenas um rapaz Latino-Americano“, iniciei o diálogo comercial com a magrinha.

Feita a entrevista básica, decido subir à alcova. Quarto pequeno, estilo cabine, dava para escutar a trilha sonora que vinha da boate. Cauby Peixoto cantava “Bastidores”. A alcova mergulhada nas trevas absolutas. Como conseguiria transar sem enxergar meu combalido pênis e ouvindo Cauby como som ambiente? A magrinha disse que ia pegar suas “coisas” e voltava logo. Fiquei ali, jogado na escuridão, com receio de ser currado. A porta se abriu, só reparei por causa de um fecho de luz de vela que entrou junto com a magrinha. Ela tira a roupa e me espantei um pouco com as costelas salientes da garota, parecia uma daquelas fotos de figuras famintas da Etiópia. Tentei não me concentrar naquilo. A magrinha avançou para o ataque, foi tirando minhas roupas, beijando meu peito, apertando minha bunda, perguntando do que eu gostava com um tom meio satânico. Não nego, amigo leitor, aquilo me assustou.

De repente, a vela apaga, fui lançado novamente à escuridão sem nem sequer saber onde minhas roupas estavam. Senti uma boca no meu pau, quis acreditar que era a magrinha, tentei apalpar a cabeça da menina e encontrei os cabelos. Talvez, haja quem goste, mas a sensação de trepar no breu absoluto não me foi muito agradável para mim. Eu tentava agarrar a magrinha e só abraçava o ar. Foi como sodomizar um fantasma. Comecei a sentir um comichão nas costas, havia alguma coisa no colchão. Formigas? Até hoje não sei. Do nada, senti a magrinha sentar no meu pau, era como se eu estivesse transando com a mulher invisível. Não enxergava nada. Só sensações. A garota se remexia em cima de mim e eu lembrei que poderia usar a lanterna do celular para clarear as trevas, o problema é que não fazia ideia onde teria ido parar as minhas roupas. A magrinha saiu de cima, senti novamente a boca no meu pau. Alguns segundo de boquete e ela me pede.

— Me come de quatro.

Eu ouvia a voz, mas sem saber de onde vinha. Parecia um filme religioso, em que o personagem ouve a voz de Deus, mas não o vê. Tentei achar a menina para comê-la de quatro, palmeei o colchão com receio de ser picado por algum inseto. Depois de uns quarenta segundos, esbarrei em algo que não sabia se era a perna ou o braço da garota, pois ambos tinham a mesma espessura. Fui acompanhando o contorno e finalmente esbarrei com alguma coisa que se assemelhava a uma vagina. Mais quarenta segundos para conseguir colocar a camisinha. Posicionei meu pau, já um pouco exausto da busca, e o introduzi naquela cavidade morna e úmida. Eu poderia estar fodendo com um melão que não saberia. Não havia uma ponta de luz dentro da cabine. Ouvi a menina gemer, imaginei que tinha acertado o alvo. Gozei e é provável que meus espermatozoides ainda estejam perdidos e assustados naquela escuridão.

Fui tateando pela cabine inteira até encontrar a minha calça, tirei o celular do bolso e acendi a lanterna. Foi quase uma reencenação bíblica da Gênese. Faça-se a luz! Eu me vesti e fui me guiando pelas sombras das velas que escorriam nas paredes. Ao pisar no salão, tocava “Como eu quero”, na voz da Paula Toller, algo um pouco mais contemporâneo. As putas, que mostravam saber de cor todas as letras, faziam coro.

“Longe do meu domínio, você vai de mal a pior. Vem que eu te ensino a ser bem melhor…”

Desci as escadas e reencontrei a rua. Respirei profundamente. Alegria de ver as lâmpadas de vapor de mercúrio, pálidas e tristes, se refletindo no Herbie. Acionei o motor, as luzes brilhantes do Relógio da Central serviram de bússola. Insiro um CD e a música transborda. Evanescence com Lithium

Lithium

O sangue pulsava, o coração tocava ao ritmo da bateria e a euforia tomou conta de tudo. Não duvide, a partir de agora qualquer aventura é possível… O libertino vive.

FANTASMAS

FANTASMAS

TREVAS

Chovia fino, o vento gélido cortava os meus ouvidos como fantasmas sussurrando o passado de outras noites chuvosas e frias. Meus passos não estavam certos da direção a seguir, eu caminhava a esmo entre a av. Presidente Vargas e a Marechal Floriano, cruzando com indigentes e outros desorientados. O céu cinza e escuro estava baixo, querendo nos engolir na melancolia atemporal da cidade em decomposição. Não me intimidava, seguia firme, pisando com as minhas botas como um detetive de novela noir. Mergulhado em meditações inúteis, percebi que havia chegado a Rua Leandro Martins, decidi dar uma olhada no Clube 05.

Prestes a escalar o primeiro degrau do sobrado, alguém me pega pelo braço, me surpreendo com o gesto, giro o pescoço e vejo uma negra escultural encaixada em uma justiça roupa de ginástica, dessas muito colantes.

— Vem conhecer a casa em que trabalho — diz a negra bonita.

— Qual casa? — pergunto um pouco confuso.

— É ali mais na frente. Vem…

Eu fui, a menina me puxando pela mão e eu seguindo desconfiado. Ela aponta para um sobrado decrépito, mais para a metade da rua.

— É ali.

Acredite, forista sem fé, a sensação é de que eu estava prestes a entrar no castelo de Drácula e não foi por falta de ver morcegos dando rasantes sobre as poucas árvores que sobrevivem na região. Assim que fui alçar o primeiro degrau, vi uma mancha vermelha imensa na entrada, a garota percebeu o meu foco.

— Isso aí foi uma facada que deram em um cara há duas semanas, mas ele pediu. Vacilão.

Costumo me manter calmo e racional em situações que exalam perigo, procuro não recuar subitamente para não transmitir o medo que possa me tornar vulnerável. Fui subindo com a menina que disse se chamar Adriele. O prédio denunciava o próprio abandono a cada lance da escada, teias de aranha, um odor de mofo, creio que avistei até percevejos se arrastando pelas paredes. Alcanço um salão escuríssimo, um cheiro de erva tão forte que chegou a me tontear, me vi como o capitão Kirk desembarcando em um planeta hostil. A escuridão só me permitia identificar vultos, receei que fosse uma cilada, seres de desenhos arredondados cruzavam o espaço diante de mim.

— Fica à vontade. Se quiser ficar comigo me chama, mas pode ficar à vontade — Adriele tenta me confortar.

Impossível ficar relaxado naquele breu. De repente, sinto uma lata gelada encostando em meu braço.

— Taí a cerveja, patrão. Dez reais. Paga agora — uma voz nas trevas me cobrava pelo que não pedi.

Paguei, bebi e saí de fininho tentando encontrar a saída através do tato. Ficar dentro daquele ambiente quase me exigia um tanque de oxigênio, a atmosfera insalubre que misturava o mofo à maconha se fazia quase irrespirável. Quando ganhei novamente a rua quase gritei de alegria por ter sobrevivido. Retomei a ideia original de ir ao Clube 05.

CLUBE 05

Da porta às margens da calçada, o Clube 05 migrou para o alto de um sobrado, talvez seja tradição da área obrigar o cliente a praticar alpinismo. Subi ao topo do sobrado, alcancei a pista sem fôlego e transpirando 50% da água do meu velho corpo. Há algo interessante que ocorre ao atingirmos idades mais avançadas, a mente não envelhece e o corpo demonstra-se vingativo dessa juventude espiritual que não acompanha a sua decadência.

A geografia interna do 05 mudou, um imenso bar no centro do salão ocupa quase todo o espaço da boate, deixando disponíveis apenas os pequenos vãos do seu entorno. Uma gorda graúda passou a me encarar insistentemente assim que entrei, eu tentava não dar trela, circulei o bar, olhei as mulheres disponíveis, me deparei com um self-service de feijoada no meio do caminho, exposto a cuspes, moscas e outros bichos, sendo devorada vigorosamente por alguns sujeitos. A gorda me seguia com os olhos, sorria quando meu olhar cruzava com o dela, aquilo era mais assustador do que o castelo assombrado do qual eu havia escapado. Ao me ver acuado entre a feijoada e o banheiro, ela se aproxima.
— Dante? Tá lembrado de mim, não?

Busquei me recordar dos pesadelos que tive durante a minha vida de sono, mas nem neles encontrei uma mulher como aquela.

— Sou a Marina, trabalhei no 47 lá da Praça da Bandeira. Lembra?

Marina foi uma mulata descomunal que eu saí por quase um ano inteiro, trabalhava no extinto Clube 47, que ficava na Av. Maracanã. Conhecido pela alcunha de Clube da Rabada, abrigava mulheres que tinham o sexo anal como especialidade, Marina era uma delas. Olhei aquela mulher de grandes proporções e quase não consegui reconhecer as recordações da bela Marina ocultas sob aquele excesso de células adiposas.

— Oi, moça. Quanto tempo. Você está diferente.

— Engordei, né? — responde-me sorrindo.

— … — Preferi o silêncio a confirmar a tragédia.

— E como você tá? — me pergunta.

O papo se estendeu, relembramos os bons tempos, volta e meia ela virava espontaneamente a bunda para que eu avaliasse. Incrível, Marina estava enorme, mas a bunda continuava irretocável, linda, suculenta, coisa de capa de revista.

— E aí? Vamos matar saudade? — ela me provocou e virou a bunda novamente.

Sim, afeiçoado leitor, aquela bunda causou em mim um efeito hipnótico e me convenceu a relevar a carga pesada que a carregava.

— Ainda rola o anal? — perguntei.

— Claro. Para você, sempre rola.

ALCOVA

Não sei o que aconteceu com Marina nesses anos em que nos perdemos de vista, mas quando ela tirou a roupa exibiu uma barriga inchadíssima, algo fora do normal. Mudei o foco para não brochar diante daquela deformidade. Os seios e a bunda da mulher não foram afetados e foi neles que me concentrei. Marina se enroscou em mim com um ardor afobado, num golpe rápido, digno de sumô, me pôs deitado e veio por cima para cavalgar no meu tronco. O peso imenso esmagava a minha virilha. Quando ela arriava o corpo para me beijar, o mundo quase se apagava pela asfixia. Não perdi muito tempo, pois o tempo poderia representar o meu obituário prematuro, pedi que Marina ficasse de quatro, ela atende a minha vontade. A vista dela de quatro se mostrava mais saborosa, o rabo arrebitado, redondinho, ela se enxarca de KY e penetro naquele orifício que abrigou gerações penianas. O altar é o cu, preconizava o Marquês de Sade. Embalo nas estocadas, Marina geme baixinho, gozei com a ansiedade de quem escolhe terminar rápido com a história.

Conversamos mais um pouco, trocamos telefones que jamais serão contatados e nos despedimos. Saio da boate com a av. Marechal Floriano deserta e encoberta por penumbras, minhas botas não me deixam na mão e aceleram a velocidade, entro em um táxi parado num ponto da Uruguaiana. As luzes passam se refletindo no para-brisa como as horas que escorrem em uma ampulheta. O libertino vive.

DONA GIOCONDA

DONA GIOCONDA

– …O Amor é calmaria que sucede a tempestade da Paixão, é o tédio inevitável.

De antemão, perdoo-lhe o ceticismo, mas quem emitiu essa frase tão elaborada foi uma antiga rameira, veterana da Vila Mimosa, nos tempos em que esse meretrício ficava no Estácio, próximo ao que hoje é a estação do metrô.

Dona Gioconda, assim ela ficou conhecida na Vila, uma prostituta que devia navegar pelos sessenta anos e continuava na ativa. Diziam que ela não fazia mais programas, que havia alcançado a fama com o apelido que recebeu dos intelectuais de prostíbulo: o oráculo da zona.

Seu talento como psicanalista de bordel espalhava-se, de boca em boca, entre os neuróticos e amantes desiludidos da Grande Tijuca, encontraram nela uma terapia alternativa para os destemperos da vida. Contava-se que os clientes a procuravam somente para desabafar e ouvir conselhos.

Dona Gioconda ganhou vulto de conselheira sentimental para homens, seu consultório funcionava numa baia dentro da própria Mimosa. Registra a lenda que ela tinha formação superior em psicologia, mas preferiu continuar ali, naquele covil do sexo, o grande celeiro de perturbados, seu manicômio particular.

Eu ainda não poderia imaginar que, ao descer em carreira desgovernada por uma ruela do morro do Tuiuti, estaria iniciando o meu caminho até essa senhora.

O episódio começa num sábado à noite, dia em que eu me esgueirava pelos Forrós do Rio, cumprindo a sina de predador sexual.

Poucos conseguiriam superar o estilo brega que eu, um carioca, criei na minha fase de forrozeiro. Eu vestia meu uniforme de caça: o tom era sempre escuro (preto ou cinza, a camuflagem da noite), camisa social fechada até o último botão da gola, calça de linho, sapatos brilhando na graxa e um blazer para completar o visual. Fico quente só de lembrar. Às vezes, aparecia alguém para me perguntar se eu era pastor.

Os forrós do Rio, no meu tempo, não tinham ar-condicionado e, com essa indumentária, no verão, eu virava uma massa liquida, empapado de suor, circulando pelo salão sob a trilha sonora do triângulo e da sanfona.

Eu estava abraçado com a cerveja e esperando o Teixeirinha, que nunca era certeza de aparecer. No nosso último contato, ele avisou que iria negociar a compra de uma coleção de discos do Cauby Peixoto com um camelô de Copacabana.

O Teixeirinha é um conservador, sua filosofia consiste em crer que só as antiguidades possuem virtudes. Tem repulsa ao moderno, seu carro é um Corcel dourado antiquíssimo e seus discos são os velhos longplays. Trata com aversão os CDs, só ouve vinil ou fita cassete.

Beijava a terceira garrafa de cerva quando percebi uma fêmea quase ao meu lado. Meu fetiche por mulheres altas e esguias ativou todos os alarmes. Uma morena de cabelos cacheados que desabavam pelas costas, calça justíssima delineando suas ondas perfeitas e um sorriso largo à Julia Roberts. Apelei para a falta de criatividade e pratiquei o uso da lábia cretina.

– Oi, eu juro que não é cantada, mas eu tenho certeza de que conheço você, estou aqui tentando lembrar… A gente não se conhece?

– Não sei, quase não venho ao Rio, sou de Cabo Frio.

– Hum… Qual seu nome?      

– Suzana.       

– Toma uma cerveja comigo, Suzana?         

– Pode ser.     

A receptividade foi total. Essa era a vantagem dos forrós, não havia mulher impossível.

O período da conversa durou por umas quatro garrafas de cerveja e alguns segundos do Martini que ela pediu para arrematar. Suzana era boa de copo. Ela me disse que precisava ir embora e perguntei qual seria o seu destino.

– São Cristóvão, na São Luiz Gonzaga, quase chegando em Benfica, Largo do Pedregulho.

– Posso levar você? Não estou de carro, mas vamos de táxi, moro perto.

– Ah! Não é preciso, eu volto com uma amiga, de ônibus.

– Que isso! Vou com você. Está muito tarde e é perigoso andar de ônibus.

– Tudo bem! Vou falar com a minha amiga e já volto.

Regressou sem a amiga, que estava encarrapitada a um cearense e não pretendia deixá-lo. Saímos nós dois.

Chegamos à rua e vejo o meu herói, o Teixeirinha, enlaçado a uma garrafa de batida e recostado no seu Corcel salvador. Era a minha carona! Levamos Suzana até São Cristóvão e conquistei a recompensa de alguns beijos que devoraram parte do meu coração.

Entrei em casa apaixonado, passei toda a semana seguinte pensando em Suzana, tentei encontrá-la no telefone que havia me deixado, era um número para recados, mas ela nunca me retornava. Fiquei obcecado.

Na noite de sexta-feira, insisti com o Teixeirinha para que ele me levasse a São Cristóvão, onde a menina falou que morava. Eu ia tentar a sorte.

Confesso que tive uma impressão sombria do Largo do Pedregulho, a única referência deixada por Suzana para que eu pudesse tentar localizá-la.

Estacionamos em frente a uma barraca de cachorro-quente, constatei que seria quase impossível rever minha musa. Foi quando o milagre aconteceu e o Teixeirinha, numa intervenção divina, interrogou a dona de um carrinho de hot-dog.

– A senhora conhece uma garota chamada Suzana, ela mora por aqui? É alta, magra, cabelos cacheados…

– Suzana? Conheço sim! Ela mora do outro lado, tem que subir aquela entradinha ali.

A entradinha era um acesso ao morro do Tuiuti. É engraçado como nomes inocentes tomam a dimensão de uma placa com o aviso de “afaste-se”. No geral, alguns nomes de morros sempre me pareceram ter um som atemorizante: Borel, Juramento, Chapéu Mangueira, Complexo do Alemão, Urubu, Jacarezinho etc. Quem batizou esses lugares?

Sob os protestos do Teixeirinha, decidi subir. A moça do cachorro-quente indicou que era o primeiro sobrado rosa do caminho, que não tinha perigo. Confiei!

Toquei uma campainha e ouvi uma voz feminina vindo de cima, de um terraço.  

– Quem é?      

– Eu estou procurando a Suzana.

– Quem quer falar com ela?

– Um amigo.

– Mas a Suzana daqui é a mulher do Lobão! É com ela mesmo que deseja falar?

– Huumm, Ahmm, Huumm… Acho que estou no endereço errado. Desculpe! – gelei e fui tomado pela súbita consciência de que estava, literalmente, na toca do lobo.

Em seguida, passa ventando por mim, numa correria ruidosa, uma fila de homens com cara de poucos amigos. Desciam a ladeira numa marcha tribal e assustadora. Não me viram. Decidi segui-los no mesmo ritmo, como se fosse um deles.

Desemboquei no Largo do Pedregulho novamente, suava frio.

– Teixeirinha, liga o caro. Vamos vazar daqui, vamos vazar!

O susto havia me devolvido a razão, não queria mais saber daquela história. Eu havia descoberto que vivia num mundo onde ovelhas se casavam com lobos.

– Cara, sai dessa depressão! – dizia o Teixeirinha tentando me consolar durante o percurso para Tijuca – vou te levar pra falar com uma pessoa que me ajudou na época que briguei com a Carla (namorada do Teixeirinha).

– Pô, amigo! Não quero falar com ninguém sobre isso. Passou! Vamos embora!

Quando vi, estávamos parando o carro perto da Vila Mimosa.

– Teixeirinha, vai pegar mulher aqui?

– Você vai conhecer uma amiga minha.

– Que amiga?! E, por acaso, você tem amiga na Zona?

– Nunca lhe contei, mas tem uma mulher aqui que é um espanto. Dona Gioconda! Conversa com ela, você vai gostar de conhecer.

A casa era logo no início da Vila. O Teixeirinha anunciou no balcão do bar que desejava uma consulta. Dona Gioconda estava ocupada, teríamos que esperar.

Nossa vez! O Teixeirinha me mostrou o caminho. A baia da Dona Gioconda era algo semelhante a uma loja de produtos esotéricos. O cheiro de incenso dominava a atmosfera. Havia uma cama de solteiro repleta de almofadas e com uma poltrona ao lado. Budas, Gnomos, crucifixos, imagens de São Jorge e da Nossa Senhora de Aparecida espalhavam-se por todos os cantos.

Dona Gioconda era uma mulata cinquentona, gordinha, entalada num espartilho preto, os cabelos num corte Chanel e pintados de um loiro platinado que davam um toque futurista a sua imagem.

– É a primeira vez comigo, meu filho?

– É sim.          

– Sabe que aqui a cama é para a conversa, não é, meu filho?         

– Sei, me disseram – o Teixeirinha havia me adiantado o esquema.

– Deita, meu filho – deitei e ela recostou-se ao meu lado, me fazendo cafuné – o que está incomodando o seu coração, menino?

Dona Gioconda tinha uma voz rouca e maternal, fazia você ter vontade de se abrir.

– Está tudo dando errado, Dona Gioconda. Nada dá certo. Não consigo firmar com nenhuma mulher.

Dona Gioconda então se levantou e ligou um toca-fitas, um som de batuque invadiu o ambiente.

– Vou chamar o “Dr. Fróidi” pra conversar com você, moço. Relaxa que vou chamar o Dr. – e o som do batuque que exalava do toca-fitas ficava cada vez mais frenético.

Imaginei que ela fosse chamar outra pessoa para entrar no quarto, mas não era isso.

Dona Gioconda realizava um ritual em que acreditava ser possuída por Freud. Isso mesmo! Ela baixava Sigmund Freud!  Sentava na poltrona ao lado da cama, fechava os olhos, balançava o corpo no ritmo da batucada e ele descia: o “Dr. Fróidi”.

– A Gioconda me disse que seus relacionamentos são sempre fracassados. Por que você acha que isso acontece? – o Dr. havia chegado, a voz de Dona Gioconda era outra, tinha sotaque e tudo.

– Não sei, acho que sou inseguro – respondi com voz trêmula.

– Você não deve declarar guerra aos seus complexos, rapaz! Deve entrar em acordo com eles – eu estava sendo analisado por Freud dentro da Zona. Era o apocalipse!

– Eu só quero encontrar uma mulher que aconteça, Dr.! Uma mulher pra amar, formar família… – Entrei no clima.

– Somos feitos de carne, meu jovem, mas temos que viver como se fôssemos de ferro. Para que amar? Viva suas paixões, elas são a vida. O amor é calmaria que sucede a tempestade da paixão, é o tédio inevitável.

A mulata sacudiu o corpo, soltou um suspiro longo e estava de volta. O “Dr. Fróidi” se foi.

– Falou com o Dr., meu filho? Ele ajudou? 

– Falei! Ajudou! Obrigado!  

– Vá em paz, meu menino.

O velho Shakespeare tem razão: “há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia.”

Dona Gioconda era dublê de Freud.

Fiquei grato ao Teixeirinha por me proporcionar tal visita. Foi a loucura que me trouxe equilíbrio às ideias.

Segui minhas paixões sem nunca mais esquecer daquela enfática lição: o amor é o tédio inevitável…

DIÁRIO DE BORDO

DANTE E BEATRIZ

Se um drone realizasse uma panorâmica aérea, veríamos um minúsculo ponto se deslocando pelas calçadas semidesertas do Centro da Cidade, habitado somente por almas esquecidas dormitando sob as marquises. O minúsculo ponto é o libertino que caminha indômito, como quem cumpre uma missão, descobrir novos prazeres, encontrar novos bordeis, indo aonde o homem comum jamais esteve. Eis que vemos o libertino acompanhado da sua solidão, da sua essencial solidão, da sua indissociável solidão.

Saí tarde da bucólica Tijuca, a Lua cheia ia alta, imponente no céu, refletindo seu brilho prateado no verde adormecido dos alpes tijucanos. Acelerei o Sucatão e o ronco do motor abriu caminho através da poeira negra do asfalto. Insiro o pen drive no aparelho de som do carro e a música que brota das caixas é a mesma que ouvi dias antes na boate Palácio de Cristal, na Lapa.

I Wanna Go

Abro as janelas e deixo que o vento morno me atravesse, o corpo balança com as batidas do som, a vida passa como num filme frenético se descortinando no para-brisa. Quem pensou que eu desistiria, fracassou. Dante is alive. Estaciono na deserta rua Buenos Aires e finco minhas botas na calçada em direção a 65, na rua do Rosário. Quando fui me aproximando da entrada da Termas, tudo me pareceu tão desolado que desisti, dei meia volta e espichei meus passos até a Uruguaiana.

Subo os degraus do sobrado 210 e encontro a casa com pouquíssimo movimento, com mais carrancas do que mulheres. Uma mulata, que foi colossal no passado, que tanto maltratou meu coração, se aproxima para me cumprimentar, mal a reconheço, gordinha, cabelos desgrenhados, um ar de melancolia… o mundo gira e é redondo. Vejo uma novinha bunduda, bonita de rosto, pergunto se faz programa fora, pois não suporto os quartos da 210. Não faz. Não sobrou nada para ver na 210, ganho novamente as ruas.

Caminho até a rua da Alfândega, o relógio marcava 21h. Vou até o Clube 119, subo os infinitos degraus, quando alcanço o salão, quase as vias de um infarte, não havia ninguém, nenhuma mulher, apenas um sujeito com semblante depressivo bebendo à beira do balcão. Corri dali. Voltei ao Sucatão e à bucólica Tijuca. Entro em uma pizzaria e substituo os prazeres da carne pelo sabor de uma pizza brotinho de muçarela. Segunda-feira, definitivamente, não é dia de puteiro. Uma melodia transpirava como música ambiente: Moby – Extreme Ways.

Extreme Ways

Dante is alive.

DANTE & BEATRIZ

DANTE & BEATRIZ

Sempre fui um animal noturno, desde a adolescência que a noite me intimava por uma atração gravitacional difícil de resistir. Adulto, adquiri uma insônia crônica, uma ansiedade brutal me assola e tenta me empurrar para fora de casa durante as madrugadas. Não sou Sol, sou sombra. Quando me relaciono, é difícil para mim me manter com pessoas que sejam mais diurnas ou que não possam estar comigo em algumas dessas noites de desassossego. Tornei-me notívago ainda muito jovem e talvez somente o cansaço inevitável da velhice possa me curar, mas não deixo de levar em conta que há doenças sem cura.

É provável que eu tenha experimentado a maior parte da minha vida vivida submerso sob o manto da noite. As manhãs e as tardes foram as horas em que inexisti, como um homem comum, espremido em um escritório ou me desviando de outros homens inexistentes que caminham pelas calçadas como se o sentido da vida fosse buscar sentido na mera sobrevivência.

Quando anoitece, tudo é diferente, a atmosfera fica impregnada de feromônio, somos caça e caçadores, o desejo é a força que nos move, há sangue, há substância, euforia, fatalidade. À noite não somos replicantes raciocinando caminhos para o sucesso, somos instinto, somos potência, somos outro.

Além da insônia, também me acompanhou desde a juventude a propensão em gostar de estar sozinho, de sair sozinho, uma certa idolatria gótica pela solidão. Sou lobo sem matilha. Estar sozinho para mim é sinônimo indissociável de liberdade. Depois de tantos anos abraçado ao celibato a liberdade é algo próximo de uma religião na minha escala de valores.

Raramente eu desenvolvo apego romântico por uma mulher. Para piorar nunca dei muita sorte nas escolhas, dizem as más línguas que tenho o dedo podre, mas as mulheres com quem estive, com quem convivi e dividi minhas loucuras foram mulheres que amei sem amarras. Todas passaram, não ficou nem vestígio de amizade. Não as condeno, talvez nossos corações sejam irmãos desvalidos.

O estranho é que quanto mais eu envelheço, mais me remeto ao romantismo juvenil do passado, menos vontade tenho de me mover sozinho, mais eu anseio por uma alma gêmea que me acompanhe. Mas que mulher é essa que me completaria na libertinagem bárbara em que vivo? Fragilidades que surgem com a decomposição espiritual que o tempo nos impõe.

O dia é a hora dos condenados, a noite é a ilha dos libertinos, dos náufragos, daqueles que sabem que há salvação nas sombras. Vivo assim, inexistindo sob a luz e me libertando quando escurece. Tal como Dante Alighieri, percorro o Inferno e as trevas buscando a minha Beatriz. Dentro da escuridão dos seres perdidos, não nos reconheceremos pelos rostos, mas pelo toque, pelo fragor das almas que colidem. Nosso encontro será a nossa salvação, será a quebra do infortúnio que me fez mais lobo do que homem.

DESCONEXO

DESCONEXO

1

Quando o Sol se libertou da breve nuvem desgarrada que interrompeu o seu monólogo, raios intempestivos e furiosos atravessaram a atmosfera para fustigar os olhos de Tobias, que naquele momento despertou de si mesmo, numa sensação de quem caiu da nuvem que se desfez. De súbito, foi lançado sobre a partitura labiríntica da vida. Os automóveis roncando, sons de buzinas nervosas, a poeira que subia do asfalto, as faces estranhas e indiferentes, tudo parecia um açoite a atacá-lo com sanha implacável. Ele se acomodou no banco da praça, coração acelerado. Tentou buscar o sossego da mente controlando a respiração e seguindo conselhos do médico.  

Tobias tinha aquela praça bucólica e ruidosa, à margem de uma pista movimentada, como um santuário. Ali, tudo lembrava a infância distante, foi em um daqueles bancos que experimentou o seu último amor romântico. Jamais esqueceu Lúcia, não se negava a admitir que regressava sempre à praça para esperá-la no cenário do derradeiro encontro. Mais de trinta anos se passaram, ele não desistiu. Foi na praça a última vez que a viu, o adeus. O que especialistas chamavam de obsessão, Tobias entendia como paixão. Sentava-se como se guardasse a crença não confessada de que o tempo poderia retroagir, mas o tempo só seguia o curso inabalável do desprezo pelos homens. Tobias ficara acorrentado ao passado sem conseguir conter o avanço do calendário. Na sua percepção não existia o presente, somente o amanhã que rejeitava e o outrora que idealizava. Pairava num limbo pessoal.

Esforçava-se para visitar diariamente a praça, não perdia a esperança de reencontrar Lúcia sentada no banco que fez o palco do romance que viveram. Lúcia o menosprezou, soprava a voz que ele renegava. Se não amou, esteve perto de amá-lo – era o que Tobias respondia à voz que cochichava dentro dele. Geralmente, chegava à praça no meio da tarde e mirava o banco vazio. O banco refletia um vácuo na paisagem frequentada por casais juvenis e crianças agitadas. Se algum curioso percebesse a presença quase diária de Tobias, veria um senhor grisalho remexendo no celular e mirando ocasionalmente para a mesma direção, um par de olhos perdidos num universo desconexo e destituído de gravidade.

Seus poucos conhecidos agora se resumiam a contatos virtuais pelo WhatsApp e Facebook, não possuía emprego, morava com a irmã viúva e nela se apoiava para sobreviver. Existia numa rotina claustrofóbica. Tomava remédios contra a sua tendência depressiva, mas nunca sentiu efeito algum que indicasse a melhora da condição. Gostava de se vestir com roupas escuras, o que denunciava o seu comportamento fechado e formal com todos que se aproximavam. Falava pouco. Um solitário engolido pela nostalgia crônica dos seus melhores dias.

Não havia mais referenciais em sua vida, ele cultivava com fervor aquela lembrança órfã, agarrava-se à memória de Lúcia. Perdeu a conta de quantas vezes assistiu ao filme “Em algum lugar do passado”. Deitava-se na cama e tentava viajar no tempo usando o mesmo método do personagem do Christopher Reeve. Tobias havia submergido num mundo imaginário, onde a lembrança de Lúcia era uma fotografia velha e desbotada que se fixava como única representação tolerável do cotidiano.

Ele levava no bolso um pequeno recipiente de vidro com um líquido que inalava como se consumisse uma droga. Mistura de almíscar com odor de rosas, o perfume usado por Lúcia quando conviveram. Aquele aroma o transportava, sua máquina do tempo, sua ponte para a irrealidade. O universo inteiro que almejava cabia num frasco de perfume, onde suas melhores recordações estavam dissolvidas.

A irmã nunca conheceu Lúcia, ouviu algumas vezes Tobias conversando ao celular com alguém que afirmava ser a sua namorada. Nunca conseguiu escutar a voz dela. Certo dia, tentou procurar o perfil da mulher nas Redes Sociais utilizando o nome e o sobrenome que leu furtivamente na agenda do irmão. Mostrou a ele a foto de uma senhora que tinha com ela amigos em comum no Facebook e perguntou se aquela seria Lúcia. Tobias fitou a imagem do rosto gasto, emoldurado por fios brancos de cabelos mal arrumados e sustentados por um corpo esférico. Uma náusea vertiginosa subiu-lhe do estômago. Em seguida, sem dizer qualquer palavra, levantou-se e se trancou no quarto. Não suportava a erosão da face, das curvas.

Planejava retornar ao Mosteiro de São Bento, uma construção do século 17 que marcou o primeiro passeio com Lúcia. Ficaram frente a frente no pátio da igreja. Por entre as árvores frondosas, os raios de sol reluziam sobre a pele alva da amada. Inesquecível. Os lábios rubros de Lúcia, o sorriso insinuado. Tobias guardava aquela visão como o quadro mais valioso da sua galeria de reminiscências pessoais. Agora, por alguma razão que ele desconhecia, tudo parecia um devaneio.

Houve a ocasião em que ela o chamou de louco. Louco?! Louco por que não aceitava o adeus? Louco por fingir não a flagrar beijando outro homem num lugar público, numa hedionda traição ao seu amor silencioso? Quando falamos em loucos imaginamos sujeitos agressivos, perigosos, descontrolados. Tobias é educado, passivo, frágil e ingênuo, mas se considera determinado. Insistiu em Lúcia até que ela desaparecesse.

Além de Lúcia, quantas pessoas o chamaram de louco? Telefonavam à sua irmã para dizer que ele tinha problemas. Só podia concluir que amar demais é loucura, que insistir no amor é desvario. Tobias se alimentava das paixões febris, Lúcia foi a maior delas. Intempéries que o estagnavam. Quando a febre emocional cessava, ele se via como um homem acordando num futuro desconhecido, um neandertal entre computadores e luzes ofuscantes. O tempo tinha passado, ele não. Uma existência sem enredo.

Depois que se afastaram, percorreu por sucessivos dias a rua em que ela morava. A fantasia de estar perto, de esbarrar com Lúcia na esquina. Decidiu escrever uma carta, marcar um encontro, informou data e hora à revelia do destinatário. Estava lá, pontualmente, no dia marcado. Nada. Ninguém. Passou horas esperando a sua quimera num ato triste de masoquismo. Costumava brincar consigo mesmo dizendo que seu corpo era composto por 70% de mágoas, não de água. Evitava a autopiedade, engolia o choro, mas não considerava justo o destino que lhe coube. Acreditava no destino como força, não como vontade. Um barco à deriva, à deriva. Se a leitura está desagradável, você constata o óbvio, perseverante leitor. A loucura causa desconforto e é capaz de nos constranger quando identificamos nela pequenas semelhanças do que somos.

A idade o tornou mais sereno. Começou a apreciar a paz do espírito. Ultrapassava os sessenta anos sem reconhecer a decadência física. O velho no espelho não era ele. Negava os decretos da natureza. Em vão. Lia, lia muito, lia compulsivamente. A leitura o consolava. Queria aprender a pintar. Não aprendeu. Procrastinava. A contemplação o jogava numa melancolia viciosa, inescapável.

– Pode falar sobre você? – Pediram a ele em uma entrevista para emprego.

Tobias travou. Mudo. Não sabia quem era. Um estranho. Aquela pergunta o fez cadáver. Ele existia sem existir. Um morto indigente boiando na multidão. À deriva, à deriva. Nunca mais conseguiu ser aprovado em entrevistas para empregos. Aquilo feria sua autoestima, até que não se importou mais, não procurou mais. Não o compreendiam. A diferença não é aceita, ele supôs. Numa das últimas oportunidades em que se candidatou a um trabalho, entregaram-lhe um formulário e num dos campos pediam que identificasse sua cor. Olhou a própria pele, não sabia definir. Branco, negro, pardo? Nada se mostrava nítido ou ele não queria que parecesse nítido. Pegou a caneta e preencheu o campo da pergunta: embaçado.

2

Era atormentado por sonhos que só se consumavam em pesadelos quando ele despertava. Sonhos em que estava novamente com os colegas, num escritório longínquo em que trabalhou. Brindava, ria. Quando abria os olhos, se angustiava, trêmulo. Um receio constante de ter cometido algum crime que esqueceu. Apreensão. Encolhia-se presumindo que a qualquer momento os homens de branco pudessem encarcerá-lo numa cela inóspita e fria.

– O que eu fiz? – Perguntava-se.

Em dias assim ele se esgueirava pelos cantos das sarjetas. Repulsa de gente. O médico o diagnosticou como sociofóbico. As caixas de remédio sobre a sua mesa de cabeceira emanavam um colorido decorativo, Tobias gostava de arrumá-las simetricamente.

Alguém o seguia. Para ele, invariavelmente, alguém o seguia. Olhava para trás. A cabeça zunia. As dores de cabeça constantes. Um zumbido no ouvido que o assustava quando evoluía num coro de vozes queixosas. Sua cabeça vivia cheia de fantasmas – ele revelava à irmã indulgente. Sua existência rodeada de sombras. Cada passo que dava movia o silêncio das assombrações. Refugiava-se como podia em distrações fugazes, mas os fantasmas o perseguiam. Bebia, contrariando as recomendações do seu psiquiatra. Não bebia muito, tinha o fígado fraco para o álcool. Quando leu as cartas de Van Gogh, comoveu-se demais. Van Gogh o compreenderia. Seriam amigos, grandes amigos. O pensamento de Tobias jorrava como torrente caudalosa, rompia todas as represas que ele tentava impor. Queria parar de pensar. Parar de pensar. Aos poucos, cansava-se. Exaustão. Sentia sono de repente, muito sono. Redemoinho. Adormecia afogado em sua correnteza.

3

Naquela manhã de março, ele acordou com um instinto de urgência, passou o dia inquieto, com uma ansiedade que pressionava o coração num pressentimento intraduzível. Sem fome, não almoçou. Assistiu aos jornais da TV, tentou ler um livro. Desconcentrava-se, embora os seus sentidos estivessem com a sensibilidade à flor da pele. Sufocado, deixou o apartamento e rumou para a pracinha que o acalmava. O céu negro, dominado por nuvens ameaçadoras, não o intimidou. Unidas e resolutas, as nuvens dominaram o Sol e a luz. Tobias rompeu a calçada numa cena tingida de cinza. Chegou à praça sob o som de trovões e faíscas de relâmpagos. Nada deteve a sua marcha até alcançar o seu banco cativo. Num bar próximo, do outro lado da pista, com o som do rádio de um carro ligado em alto volume, um grupo de jovens bebia alheio ao prenúncio da tempestade.

Assim que se sentou, Tobias ressentiu-se dos primeiros pingos que lhe bateram na testa, gotas volumosas que despencaram forte em cima dele, como se quisessem acordá-lo daquele torpor antigo. Da terra molhada subiu um aroma de alívio que invadiu o seu olfato, remetia ao cheiro de rosas, de almíscar, ao perfume de Lúcia. Sem mais cerimônias, o temporal desabou como o teto de uma casa em ruínas. Com a vista turva pela chuva, Tobias distinguiu uma mulher surgindo da mesma direção que Lúcia costumava vir. Cabelos compridos e negros, a tez pálida, os olhos de um castanho vívido e delicado, o sorriso de dentes com uma suave desarmonia que arrematava a imperfeição da legítima beleza. Tobias se ergueu incrédulo. Era Lúcia. Correu ofegante ao seu encontro. Ao longe, emergindo de onde estavam o grupo de jovens, um som ganhou potência. A voz de Renato Russo cantando “Tempo Perdido” embalou o abraço apoteótico que reuniu, após trinta anos, Lúcia e Tobias. Cantaram e dançaram juntos a música que celebravam na década de 80.

A curiosidade dos jovens abrigados no bar do outro lado da praça testemunhava inerte aquele homem envelhecido dançando sozinho sobre a grama. Com olhar eufórico e alienado, ele abraçava a si mesmo, num ritual intenso de alegria intangível. Naquele picadeiro deserto, regido pelo ruído do dilúvio, gritava com todos os pulmões a letra de “Tempo Perdido”. A água escorria pelo seu rosto, inundava suas roupas, diluía-se em seus sapatos. Lúcia e Tobias tornaram-se presença uníssona, a convergência uniforme de uma única consciência tortuosa. Cantando e rodopiando, num êxtase de si mesmo, lançava os braços no ar como se estivesse envolvendo uma entidade etérea e desejada.

“Veja o sol dessa manhã tão cinza, A tempestade que chega é da cor dos teus olhos
castanhos…”

O pragmatismo dos jovens não compreendia o que só se faz visível aos delírios e às ilusões que materializam a felicidade das almas irremediavelmente naufragadas. A loucura é um Robson Crusoé que encontra a sua ilha. Em meio à tormenta, Tobias finalmente desembarcava na plenitude refratária do ilhéu remoto que a maioria dos homens teme aportar. Solidão ecoando solidão.

O CLONE

O CLONE

— O senhor não é aquele ator da Globo? Aquele… Aquele antigo… Antigo, mas o senhor está bem de aparência, tá?… Francisco Cuoco. É o senhor, né? Tira uma selfie comigo?

Olhei ao redor para confirmar se mais alguém ouvia o absurdo que a menina de topless estava cometendo, não havia ninguém olhando. Aceitei fazer a selfie como Francisco Cuoco. Por que eu iria estragar um sonho?

— Minha vó não perdia as suas novelas. Até hoje ela comenta sobre o senhor.

Como o assédio começou a ficar um pouco inconveniente, dei boa tarde e subi ao próximo andar. Havia um movimento grande no local; uma quantidade maior de mulheres também, desde a minha última visita. O número de garotas jovens exibindo peitinhos-agulha é enorme. O topless virou um atrativo diferencial na Rua Uruguaiana, 24. Fui procurar uma garota com quem eu saí diversas vezes antes da pandemia, infelizmente não a encontrei. Trashes mais pesados como o 24 da Uruguaiana são um risco para o libertino idoso, muitas garotas ali fazem sexo como quem prepara um sanduíche de mortadela, vai no automático. Eu, no entanto, estava disposto a arriscar.

Subir todos os andares do prédio, girando naquelas escadas em caracol, é tarefa dura para os meus precários músculos cardíacos, mas fui indo. Cheguei a me imaginar levando uma barraca de camping para poder dar um intervalo de descanso entre um andar e outro. Este trash da Uruguaiana é um Pico Everest do sexo. A vontade, quando se chega ao último andar, é fincar uma bandeira e comemorar explodindo uma Chandon. De repente, vejo uma loirinha com um par de seios que pareciam um photoshop vivo, ela também me vê e sorri. Não precisei me aproximar, ela se aproximou (a coisa tá feia).

— Nossa. Como o senhor parece com aquele “repórti” da “Grobo”.

Tá de sacanagem, ser confundido com terceiros duas vezes no mesmo dia é demais, o florista vai dizer que é mentira. Acredite, forista sem fé, é verdade. Não é a primeira vez que acontece comigo.

— Que repórter, minha filha? — tento descobrir, mas já sei quem é.

— Num lembro o nome dele.

— André Luiz Azevedo? É esse?

— Esse! Esse! É o senhor??? Tá sumido.

Quando ela disse “está sumido”, não entendi. Se referia sumido da Globo ou do 24? Preferi não esticar o assunto e emendei na entrevista. A moça se mostrou receptiva, confirmou oral sem capa, beijo na boca e um anal se a ereção permitisse. Amélia é o nome que usa. É, você leu certo, o nome é Amélia. Decidi me embrenhar com ela numa das baias da boate. O problema do 24 é que as baias ficam no mesmo espaço da pista, então você faz sexo com trilha sonora, geralmente é Belo, Chitãozinho e Xororó, Anitta e outros bichos. É necessário manter uma concentração sobre-humana para a peteca não cair.

A menina iniciou o assunto com um boquete espetacular, viajei na Enterprise, entrei em velocidade de dobra e quase usei o teletransporte para o Éden antes do tempo. Segurei a onda dela antes que me causasse ejaculação precoce. Pedi para que ficasse de quatro. Quando eu ia meter, aumentaram o volume do som lá fora.

”Prepara que agora é a hora
Do show das poderosas
Que descem e rebolam…”

Puta que pariu. Dei uma rateada, mas Pikachu conseguiu reestabelecer a força auxiliar e alcancei a sagrada penetração. A menina gemia no ritmo do “Show das Poderosas” e eu fazia um exercício budista para não perder o pau ereto. Meti afobadamente, o objetivo era gozar com aquela batida sonora na minha cabeça, um desafio olímpico. Gozei. A menina se levanta, sai da cabine sem dizer nada (de praxe nesses locais) e eu me visto para ir embora.

Ganho as ruas e o anonimato, respiro aliviado. Caminho até a Casa do Café Capital, na nostálgica Av. Marechal Floriano, peço um cafezinho e me sento para contemplar a vida. Do outro lado do salão, um velhinho me encara como se me conhecesse…

— Porra. De novo não. 

CEMITÉRIO DO CAJU

CEMITÉRIO DO CAJU

O número dos que nos invejam confirma as nossas capacidades.

—Oscar Wilde

O silêncio se erguia tão absoluto que poderia ser comparado ao eco de um abismo insondável. Fazia frio, eu vestia um antigo sobretudo que me cobria quase até os joelhos, as botas reverberavam meus passos sobre a calçada e a noite cinza insinuava rejeitar o brilho das lâmpadas sobre o asfalto. Sozinho, sem saber o que procurar, eu fugia da maldição da insônia. Talvez, não procurasse uma mulher, mas um espelho que me obrigasse à redescoberta de mim mesmo, que me resgatasse daquela deriva urbana. O libertino não é alguém que atravessa a noite, ele é a noite, a sombra, a calmaria que camufla o caos, é alma derivante que busca, mas jamais encontra um porto. O libertino é um corsário do sexo.

Há anos não me arriscava por aquele perímetro do cemitério onde conheci Gisa, uma ruiva quase albina que marcou minha memória e o meu combalido pênis com o seu boquete sobrenatural. Acredite, forista sem fé, não se esquece uma mulher como Gisa, você pode tentar evita-la, mas um dia retorna ao local do crime. Se eu não tenho medo de andar por lugares como o Caju? É claro que tenho receio, mas como revelei por diversas vezes, atualmente o meu prazer está mais na adrenalina do que no gozo. A mesmice serve bem aos que não chegaram aonde cheguei, eu tento restaurar o mistério e o pulso acelerado que habitaram a juventude da luxúria.

— Que isso, Dante? Existe ponto de putas perto do cemitério? — pergunta-me o forista cético.

Afirmo que sim, existe há muitos anos. Os poucos que se aventuraram me escreveram surpresos por terem realmente encontrado mariposas rondando no território da última página de todos os homens, mulheres que se movem em revoada pelo entorno do campo santo. O cético enxerga o céu, mas duvida das nuvens. Vá e veja. É um ponto destinado aos caminhoneiros e taxistas que transitam por ali. Os uivos não brotam das assombrações, emergem da garganta de alguma criatura destemida que atingiu a ejaculação pelos lábios de uma puta carpideira.

Estacionei o Sucatão próximo a uma floricultura em que estavam descarregando coroas de flores. Nas ocasiões anteriores, sondei o local de dentro do carro, não desembarquei, mas desta vez preferi ir a pé e ver por outro ângulo as moças que trabalham nos arredores do Caju. Não pense que eu seja um valente, afeiçoado forista, sinto medo, mas é o medo que bombeia o sangue, dilata as pupilas, é ele que me excita. Avistei uma pequena colônia de putas quase em frente à entrada do Cemitério de São Francisco Xavier, percebi olhares que estranharam um homem bem-vestido vagando na área, meu faro me empurrou em direção a uma menina de corpo curvilíneo e seios à mostra. Apressei-me para abordá-la.

— Como eu faço para sair com você?

— Anjo, é setenta o boquete e cem o programa.

— Pode ser no carro? Estou estacionado na floricultura.

— Pode, mas melhor parar em frente a marmoraria.

Reparei que o estacionamento da marmoraria onde fiquei com a Gisa pela primeira vez ainda funcionava.

— Qual seu nome? — perguntei.

— Kelly e o seu?

— Dante, me chamo Dante. Vamos? Aceito o boquete.

De topless, Kelly caminhou comigo até o Sucatão; ao nosso lado, as grades vazadas do cemitério revelavam covas, jazigos e anjos heroicos. Não identificava imagens do demônio, ele estava ao meu lado. Entramos no carro, Kelly me ofereceu os seios irretocáveis e mamei como um moribundo imaginando beber a ambrosia dos Deuses, a menina fechou os olhos, gemeu, girou as mãos sobre a minha calça, afrouxou o cinto, abriu o zíper, pegou meu combalido pênis e o engoliu com ânsia. Um boquete inenarrável, sem preguiça, que dissimulava tesão legítimo. Escalava a minha glande com a língua e despencava como uma praticante de rapel até a raiz do meu pau. Eu estava em delírio, vendo crucifixos imensos e torres góticas despontarem diante do para-brisa. Gozei num último suspiro, meus espermatozoides flutuaram como fantasmas, lambuzaram os lábios de Kelly, o painel do carro e o meu abdômen. Paguei a garota, ela saiu e eu tentei controlar a respiração para recuperar o fôlego.

Refeito, girei a chave do automóvel, pisei na embreagem, acelerei e ganhei a Avenida Brasil. Inseri um disco aleatório no cd-player, um som nada celestial inundou a cabine e minha cabeça dançou desafiando a finitude. A vida não tem reprise.

Culture Beat – Mr. Vain

O Sucatão zunia contra o vento frio que vinha de todos os lados. Se existe vida após a morte, ela faz ponto em frente ao cemitério. Creia, a partir de agora qualquer aventura é possível.

#Libertine-se

CAVERNA DO DRAGÃO

CAVERNA DO DRAGÃO

Fui um andarilho noturno e no verão de uma década distante, quando a Lapa respirava entre as sombras de travestis e rufiões decadentes, longe da festa das luzes de neon que imperam atualmente, eu caminhava pelos burburinhos clandestinos da rua do Riachuelo. Não tinha um rumo, mas buscava um objetivo, parei em um boteco numa esquina arborizada da av. Nossa Senhora de Fátima e pedi uma Salinas.

Um boêmio fala, mas prefere ouvir. Escutar os papos sorrateiros ou gritantes de um botequim é colher histórias ou perceber convites para aventuras. Dois homens que aparentavam estar na faixa dos quarenta anos de idade comentavam sobre um amigo desgarrado.

— Cadê o Rufino, cara? O bicho sumiu, estava comigo agorinha mesmo.

— O Ladeira passou aqui e disse que ele foi para os lados da Caverna do Dragão.

— É ali no início da André Cavalcanti.

— É puteiro?

— Inferninho.

Atento ao diálogo entre os dois personagens notívagos, gravei as coordenadas e me decidi a explorar a tal Caverna do Dragão. Tomei três doses da minha cachaça favorita e parti deslizando com as minhas botas em direção ao lugar. Meu estado etílico dava aos meus passos um ritmo de levitação, as pupilas dilatadas pelo álcool me faziam ver estrelas cadentes no asfalto. A felicidade é um copo de caninha.

Comprei um maço desses cigarros de menta, na época eu gostava de ter algo entre os dedos exalando fumaça como um defumador. Alcancei a rua André Cavalcanti e avistei um toldo roxo piscando com luzes que me lembravam decoração de Natal. A placa na entrada mostrava-me que acertei o caminho. O nome Caverna do Dragão piscava em vermelho, ao lado das letras o dragão estilizado simulava soltar chamas pela boca. Entrei…

Sempre gostei de sair sozinho à noite, isso me dava liberdade, me permitia a mobilidade que eu quisesse exercer, não me fazia depender das preferências de uma companhia para entrar onde eu quisesse. A Caverna do Dragão não cobrava ingresso, pagava-se pelo consumo. A entrada desaguava em uma rampa que se aprofundava pelo subsolo de um prédio que aparentava ser residencial, segui por uma angustiante descida em caracol que não prometia fim, caí em uma sequência de corredores iluminados por pequenas luzes vermelhas e finalmente desemboquei em um salão amplo, decorado com candelabros e lustres antigos, como se fosse a sala de uma casa da nobreza imperial. O som altíssimo me anunciava uma região exótica, penetrei na pista ao som de A-Há com Take On Me…

A-HA

Debaixo de um dos lustres exuberantes, uma mesa de sinuca e no entorno algumas mesas pequenas rodeadas por duas cadeiras. Pelos cantos, vi pinballs e máquinas de fliperama; no centro de tudo uma pista de dança cercada por cordas, como se fosse um ringue para luta de boxe. A-Ha deve ter sido a introdução, pois logo o DJ emendou com Dreams…

DREAMS

De cara cheia, arrisquei minha veia dançante e soltei a franga enquanto observava o entorno. A boate era habitada por uma galera moderninha para aqueles anos remotos, meninas com maquiagem pesada, homens com cabelos estranhos, um clima gótico. Eu atraía a atenção por ser um elemento destoante naquele aquário de peixes ornamentais, estava vestido com um blazer, blusa social e as botas gaúchas inseparáveis nas minhas incursões pela noite. Uma loira com roupa semelhante a de uma colegial perdida no bordel me acompanhava de rabo de olho e um sorriso que poderia ser deboche ou curiosidade, eu queria abordá-la, mas precisava me fortalecer com mais uma dose e fui buscar o bar atrás de um uísque.

Assim que desci do ringue, a melodia de Simple Minds ecoou nos meus ouvidos que ainda ouviam, nesse momento fui possuído, esqueci o uísque, retornei ao ringue musical e encarnei um Baryshnikov insano.

SIMPLE MINDS

Não me lembro de ter dançado tanto na vida, talvez por isso me recorde das músicas, das sensações, do gosto de tudo, do sabor do batom da loira que consegui beijar quase no alvorecer da madrugada. Acendi um cigarro, lancei as mãos para o alto, rebolei como um hetero liberado de todos os preconceitos plantados na alma e conheci o Nirvana.

CARTA DE UMA PROSTITUTA SUICIDA

CARTA DE UMA PROSTITUTA SUICIDA

1

Há pouco, caminhei pela areia até a beirada da praia, sempre gostei de sentir as lambidas das marolas cansadas molhando meus pés, a água está morna e convidativa.

Nunca apreciei escrever, mas decidi improvisar estas palavras, rascunhar meus últimos pensamentos num guardanapo. Toda vida é um rascunho.

Nasci aos 27 anos, quando cheguei de Juiz de Fora para morar em Copacabana. Quem me pariu foi a maresia da praia do Leme. O mar me deu consciência do mundo, plantou em mim o infinito, a minha alma.

Havia economizado algum dinheiro, era pouco. Consegui me instalar no quarto de um apartamento na Barata Ribeiro, a dona era uma loira com olhos de ganância, se chamava Vera. Pelas mãos dela, fui levada às boates e às luzes da noite. Rápido, me acostumei ao toque lascivo dos homens, aprendi a cobrar pelo prazer que eu podia lhes proporcionar. Um dia me chamaram de prostituta e descobri o que eu era.

Falavam da minha beleza, elogiavam meus olhos, meu corpo, meus cabelos…  Deram-me um nome e esqueci meu próprio nome. Virei outra.

Conheci os vícios, aqueles que nos fazem conseguir ser o que não somos.

Um dejà-vu me atormenta, tudo me parece irreal. É a solidão. A solidão é o prefácio do existir. Só me estranho quando estou sozinha.

Daqui da areia vejo os prédios que margeiam a orla, pontos de luz que fogem pelas janelas, denunciando vidas que não são a minha, constelações artificiais sobre o asfalto. Eu fracassei. Queria alguém agora que me chamasse de prostituta, eu precisava lembrar-me do que eu era.

Aos 35 anos, conheci Omar, foi Vera quem nos apresentou. Ele quis reescrever meu rascunho. Levou-me para uma quitinete, me deu uma aliança e disse que cuidaria de mim. Chamava-me de filha. Era velho, nunca recebeu uma visita. Zelei por ele durante dois anos e o encontrei morto numa tarde de sábado. Ele me deixou seus bens: sua quitinete, uma mísera pensão e uma poupança modesta.

Certo dia, reencontrei Vera no calçadão, fazia uma década que não nos víamos. Ela se emocionou, me abraçou forte e tocou meus lábios num beijo roubado. Estremeci como se um projétil houvesse me atingido. Nunca nenhum toque me abalara tanto. Marcamos de nos ver no dia seguinte, mas ela não apareceu, jamais descobri seu paradeiro. Normal para quem é da vida. Prostitutas evaporam como a água que entra em ebulição.

O espelho revelou meus olhos confusos, perdidos entre sulcos e rugas de um rosto precocemente arado pelos anos. O tempo me fez outra novamente. Necessitava de alguém que me reconhecesse como prostituta. Nunca compreendi o fim da minha beleza.

Sou um calendário de dias vazios, todos iguais. Dejà-vu do nada num caldeirão de néon em Copacabana. Como não sei o que virá pela frente, vou descrever como imagino o meu epílogo…

2

Depois de alguns devaneios, ela ingere alguns comprimidos com aquela serenidade de quem se decidiu. Entra no mar e sente o carinho aconchegante das ondas. Lembrou-se do abraço forte de Vera a puxando para junto de si, sente o beijo que a fez pensar ter descoberto a paixão. Ficou boiando alguns minutos, parada, quis apenas sentir a sedução da água envolvê-la. De um lado, havia o negrume de um horizonte escondido. Do outro, a praia e o brilho do asfalto. Quis lembrar-se de alguma coisa, mas a mente já embotava. Só a recordação de Vera e do beijo insistiam em ser seu epitáfio. Os seus membros iam sendo dominados pela dormência, ela reagiu com braçadas fortes em direção a escuridão. Uma paralisia a tomou, avistou o céu e as verdadeiras estrelas, sua visão escureceu. O oceano gelou… Do calçadão, quem olhava para o mar não via ou ouvia nada além do breu pontilhado pela pálida espuma das vagas que quebravam surdas na areia. O silêncio era a luz da escuridão…

CARNE FRIA

CARNE FRIA

1

Descerrou os olhos devagar, contraíram-se dolorosamente com a sensação da luz. Um gosto amargo subia do estômago para a sua boca. Levantou-se lentamente, desequilibrado, apalpava cada mínimo apoio que encontrava para sustentá-lo. Não havia pensamentos, seu cérebro era uma nebulosa em formação. Existia só o mal-estar…

Sobre sua camisa pendia a gravata frouxa enlaçada ao colarinho e um paletó amarrotado. Estava sem as calças, mas continuava com os sapatos. Encontrou suas calças em cima da cama, ele havia dormido no chão. Fez questão de compor-se e arrastou-se até o banheiro.

Escorou-se na pia e se deparou com o espelho. Olhou, olhou, olhou… Não conseguia se reconhecer, não lembrava sequer do seu nome. A face contorceu-se numa expressão involuntária de angústia.

Jogou água ao rosto, aos lábios… Tentava livrar-se do gosto amargo da boca.

Suas mãos estavam sujas, as unhas encardidas por um vermelho vinho… Ele encarava o espelho, investigava os seus próprios olhos, mas o reflexo não lhe contava nada. Naquele instante, tudo era um grande segredo.

Cambaleante, retornou ao quarto.

Surpreendeu-se com a presença de um corpo na cama. Era uma mulher, ele reconhecia, era o corpo de uma mulher. Uma mancha rubra e viscosa tomava metade do lençol. Ele não entendia.

Achegou-se à cama.

Olhou, olhou, olhou… O corpo nada lhe dizia.

Tocou na carne alva sobre o colchão, sentiu um estranho choque. Assustou-se!

Carne fria!

Lembrou-se! Lembrou-se de um gosto de ferro, do gosto de sangue, do sabor amargo em sua boca. Era uma mulher, estava deitada sobre uma mancha rubra, entre os seus seios havia um corte que ainda fazia vazar a fonte do vermelho vivo incrustado em suas unhas.

Velou o corpo por horas, mergulhado naqueles olhos estáticos e abertos. Só havia o vazio. A Morte não lhe dizia nada.

Seu rosto modificou-se em frustração. Entediou-se.

Sentindo-se mais revigorado, saiu por uma porta que estava entreaberta, desceu alguns lances de escada, rompeu uma portaria deserta e viu-se tragado por um brilho fortíssimo e quente. O sol.

Sua pele parecia tomada por chamas. Tudo era intenso, ardia. Ele caminhou muito, sem rumo. Ouvia sons, música, vozes… Ele compreendia as palavras, mas não atinava o sentido. A cada passo, ficava mais firme, mais forte. Porém, aquela imensa claridade abrasava sua pele, consumia seus olhos.

Ele estava em frente ao mar e uma brisa morna enxugava o suor do seu rosto. Não suportava toda aquela luz, buscava uma sombra. Sentou-se defronte ao oceano. Olhou, olhou, olhou… O infinito é um confessionário inexpugnável e não lhe revelava nada.

O gosto acre em sua boca começava a se dissipar, mas ele não sentia alívio.

Voltou a caminhar, não havia mais sol. Todos os seus membros pareciam exalar um frescor que renovava o seu ânimo. Era noite… estava exausto das luzes, procurava abrigar-se nas sombras noturnas que acobertavam as esquinas.

O gosto amargo havia sumido e ele tinha sede.

Sua mente era uma cortina negra, não havia memória, mas ele sabia para onde estava indo. Penetrou numa rua decorada pela penumbra, mulheres seminuas o observavam da porta de casebres. Dentre todas, avistou uma bem jovem, ele a queria. Aproximou-se sem dizer nada e ela assentiu com um olhar.

Combinados no silêncio, foram para um pequeno quarto de hotel, perto de onde estavam. Não havia palavras. Quando a porta se fechou, ela despiu-se revelando a nudez promíscua. Ele sentiu o toque suave das mãos pequeninas em seu tórax. Ela fitou seus olhos e o instinto o fez saber como agir. Deitou-a na cama e beijou-lhe o vinco entre os seios.

Sua boca estava seca, a garganta doía. Ele tinha sede.

O semblante dela transfigurou-se numa imagem de terror. Descobriram, ambos, os motivos pelo qual estavam ali.

2

A claridade da manhã fez seus olhos abrirem e os castigou com o flagelo da luz. Ele esticou-se e girou os olhos em torno de si mesmo. Não havia memória. Tudo era como sempre foi, um hermético mistério…

Havia um gosto azedo em sua boca, um gosto de ferro, um gosto de sangue…

Viu um corpo ao seu lado e uma mancha rubra no lençol. Era uma mulher. Ele a tocou e saltou para trás num ato de repulsa.

Velou o corpo por horas.

Carne fria!

CANCELA PRETA (BANGU)

CANCELA PRETA (BANGU)

E assim, ao sair de mais uma visita à Vila Mimosa, decido imbicar pela Leopoldina e percorrer a Av. Brasil, para conferir a dica de um amigo Taxista, um lugar chamado Cancela Preta.

A Cancela Preta não chega a ser outro Planeta, mas é quase um Satélite da Terra, tal sua distância. Fica no limbo, embolada entre Padre Miguel, Realengo e Bangu. Não sei especificar sua localização, mas chega-se lá pela árida Av. Brasil e é indicada pelas sinalizações.

Quando caí no acesso da Brasil que desembocava na penumbrosa Cancela Preta, me dei conta que talvez fosse um lugar mais propício para caçar Vampiros do que mulheres. Não tinha jeito, após meia hora cruzando o asfalto, eu estava na Cancela Preta e, logo de cara, tive uma visão.

Creia, leitor sem fé! Num recuado de pista, dentre várias meninas, havia uma loira saradíssima, vestida com top e calça de ginástica, fazendo ponto num local batizado como Cancela Preta. Eu nem sei se acredito em mim mesmo quando conto isso, mas é a mais pura, translúcida e nutritiva verdade.

Seu nome é Laura, pedi que entrasse no carro e começamos a conversar.

Com este corpão, você deve fazer academia todos os dias! – Inicio minhas perguntas cretinas.

Não tenho dinheiro para a Academia. Comprei uns pesos na Casa & Vídeo e malho em casa.

Impressionante! A força de vontade faz milagres! Não me emocionou pelo rosto, mas pelo corpaço.

Tratei com ela o presente. O Sucatão mergulha no breu até o Motel Carbonara, também na Brasil, altura de Bangu. Peço um apartamento simples.

Introduzo a chave, abro a porta do quarto, acendo a luz e ouço um grito estridente… Era a menina que berrava e corria desesperada para o banheiro, perseguida por uma nuvem de mosquitos canibais que despertou quando entramos. Ao verem o primeiro ataque frustrado, a mosquitada partiu raivosa para cima de mim, agora era eu quem gritava e corria. Protegi-me com o cobertor, ao mesmo tempo, agitava o travesseiro para espantá-los. Consegui abrir a janela e ligar o ar-condicionado.

Em poucos segundos, fui semidevorado pelos hematófagos, mas venci uma das sete pragas da Cancela Preta.

Exausto, bati à porta do banheiro para avisar que a mosquitada havia feito um recuo estratégico. Laura abre a porta e sai de calcinha minúscula e com os pequenos seios durinhos expostos. Que delícia!

Uma perna malhada da moça devia dar duas da minha; barriga tanquinho; bunda de pedra e arrebitada; braços fortes e pele macia.

Começamos nos beijando, ela tem um beijo gostoso. Depois, desceu lambendo minha barriga, abocanhou meu membro e sugou-me como os mosquitos hematófagos que tentaram secar meu sangue.

Peço a minha posição favorita e ela fica de quatro. A visão daquela bunda trabalhada com pesos da Casa & Vídeo me deixou atordoado. Comecei a meter, a garota não gemia, arfava. Senti que ainda resistiram alguns mosquitos desertores da tropa que invadiu o quarto, volta e meia eu era assolado por picadas, mas o tesão era forte e gozei sem medo.

Deixamos o hotel e eu desovei a Laura novamente na Cancela Preta.

De volta à Av. Brasil, acelero o Sucatão. Tive a impressão de ver uma nuvem de insetos nos seguindo. Não, não podia ser! Era o trauma da situação vivida que me iludia. Voamos de volta para casa!

Até o próximo episódio…

Boate Sinônimo (Lapa)

BOATE SINÔNIMO (LAPA)

*Adentrando pela velhice, quando num dia tardio eu desaparecer, restarão os arquivos dessas memórias escritas nos fóruns e no livro que deixei sobre a vida mundana (O Paraíso de Dante). A morte de um Highlander nunca pode ser descartada, vi foristas falecerem de súbito, boêmios que hoje são lembrados somente por aqueles que compartilharam da companhia de quem muitas vezes levava uma vida dupla. Somos folhas caindo da árvore da existência.

Estava aos pés da madrugada tomando meu conhaque num pé-sujo na esquina da obscura Rua Ubaldino Amaral com Mem de Sá, na Lapa. O movimento intenso da calçada era ignorado pelos bêbados do balcão, todos debruçados sobre a vitrine de ovos coloridos e de uma gordurosa rabada que prometia um infarto fulminante a quem a ingerisse. Eu estava feliz agarrado ao copo, observando o entorno, misturado à alienação dos ébrios. Certa vez, um ancião de alto teor etílico me ensinou que o dia é a rotina, o trabalho, a preguiça da praia; já a noite é o imprevisível, o gozo, a pele em contato libidinoso, é o mistério, a perversão.

Eu tinha bebido tanto que começava a sentir dificuldade em focar os olhos num ponto fixo. A felicidade do álcool atordoa, obstrui os sentidos. O meu estado de suspensão animada não me impediu de ver a mulata que passou me encarando, quase me desafiando para um duelo sexual. Paguei esbaforido a bebida e saí no encalço da menina que pingava sensualidade a cada rebolado que a impulsionava para frente. Confesso, afeiçoado forista, eu fazia um esforço sobre-humano para me manter em linha reta, lutei heroicamente contra a sinuosidade dos meus pés. A garota parou em frente a um sobrado rosa, entregou um papel e entrou. Avancei na intenção de permanecer no seu encalço.

O sobrado rosa era uma boate de nome “Sinônimo” (a criatividade dos nomes ainda me espanta). Comprei um ingresso, entreguei ao porteiro, fui revistado e entrei. Gays, simpatizantes e provavelmente alienígenas me aguardavam no interior. O lugar tinha dois andares, dois ambientes. No térreo ficava o bar com música ao vivo, gente apinhada, um cara perto do caixa me mostrou a língua como se fosse uma serpente erótica. Assustador. Por alguma dessas coincidências sacanas do destino, o caixa da “Sinônimo” era um antigo barman da Mosaico, precisei de uns dez minutos para convencê-lo de que eu não pertencia ao mundo gay e que estava ali por acidente de percurso. Não sei se ele acreditou. Subi ao segundo andar à procura da mulata e até hoje não me esqueço, tocava uma música do The Cure (Lullaby).

Acredite, forista sem fé, não achei a mulata, mas avistei uma ruiva de cabelos cacheados, pele alvíssima e um corpo estonteante executando o que meu amigo Teixeirinha chama de “a dança da enguia”. A menina se contorcia, se agachava quase se arrastando no chão, levantava com as mãos os cabelos vermelhos num coque sexy. Vestia um top e uma calça justíssima de um tecido preto e brilhoso que devia ser couro. Fiquei hipnotizado, talvez até apaixonado. Como já expliquei, amigo forista, dileto companheiro dessas viagens psicodélicas pelas noites cariocas, o libertino não é aquele que não ama, o verdadeiro libertino ama demais, numa sequência quase vertiginosa de paixões que nascem e morrem. O libertino é um náufrago de amores interrompidos.

Quando estou bêbado, sou cara de pau. Não tirei mais os olhos da ruiva e esperei o momento conveniente para me aproximar. Assim que ela se afastou um pouco da muvuca, cheguei junto e perguntei se ela topava beber comigo. O noturno imprevisível aconteceu, ela aceitou. Seu nome era Raquel e sua primeira pergunta foi para saber se eu era gay, bissexual ou coisa que o valha. Novamente, me peguei explicando que eu não era gay, que havia entrado ali por acidente, para procurar uma pessoa. Não adiantou, amigo forista. Quando você entra numa arena gay, ninguém crê que você não seja gay. Relaxei, mas com receio de em algum momento Raquel me convencer a me assumir. Seria inusitado se isso acontecesse, me tornar o Seu Peru da Tijuca. Sentados num canto reservado da boate, ficamos conversando. A menina não teve pudor em me revelar que era bi.

As horas passaram, dançamos rodeados por monas, gays e travestis eufóricos. Foi uma baita experiência. Ela me apresentou a alguns amigos ou “amigas”. Bebemos todos. Estava perto de inventar que meu nome era Dantielle Morgan, só para não me sentir deslocado. Quase as quatro da manhã ela me disse que ia embora, me ofereci para levá-la. Andamos até o Sucatão e partimos. A menina morava sozinha numa quitinete da Rua República do Peru, em Copacabana (o destino é ou não é um sacana?).

– Quer subir pra saideira? – Ela pergunta.

O apartamento minimalista tinha metade do seu espaço tomado por uma mesa de passar roupa aberta. Sentei-me num pequeno sofá e ela entrou numa área reservada que devia ser o quarto avisando que iria ficar mais à vontade. Pediu que eu tirasse os sapatos. Voltou do quarto flutuando num parco baby-doll e acomodou-se no meu colo. Sim, profético forista, a transa aconteceu e foi magnífica ou ao menos é assim que me recordo dela.

Deixei o prédio trôpego e entrei no Sucatão. Começava a amanhecer e a sensação de ressaca se insinuava em minha cabeça. Desconheço se a boate Sinônimo ainda funciona. Passei um bom tempo sem conseguir contato com Raquel, mas um dia ela me ligou perguntando se eu poderia pegá-la no Grajaú. Fui. Depois disso nunca mais nos vemos. O libertino é um náufrago de amores que surgem como miragens e desaparecem no horizonte inalcançável.

ISA — SOBRE AS ILUSÕES DO ROMANCE

ISA — SOBRE AS ILUSÕES DO ROMANCE

Passei as últimas semanas com pensamentos engasgados. Eu precisava fazer este último relato, o último registro. As palavras brotaram dos meus dedos como a música que jorra sob a batuta de um maestro. Peço que sejam tolerantes com este velho escriba e que me perdoem por qualquer pieguice indefensável.

Foram quase nove meses, cerca de duzentos e quarenta dias, que me dediquei a estar com uma única mulher. Desde junho de 2022 até janeiro de 2023. 

Confesso que me esforcei mais para ser mais amigo de Isa do que simular algo semelhante a um namoro. Ao final, fui levado a compreender, de supetão, que um namoro seria impossível. Sem problemas, meu afeto nunca mudou, manteve-se firme.

Ontem, vi que o anúncio da Isa no ar saiu do ar e senti uma pontada de melancolia. Para o maior entendimento de todos, Isa é uma garota de programa, o que na minha visão nunca foi demérito.

Foram oito meses em que ela me telefonava todas as manhãs, muitas vezes a tarde e algumas à noite. Oito meses em que me acostumei a esperar sua última mensagem antes de dormir. Oito meses de conversas longas, às vezes divertidas, outras vezes tensas. Habituei-me, ela não.

Não conseguia tirá-la muito da sua ilha, da sua pequena sala, para onde me dirigi por incontáveis tardes vadias, durante inenarráveis semanas consecutivas. 

Acostumei-me a levar pão, frios e café da padaria da esquina para tomarmos juntos. Admito, o sexo se tornou secundário, meu carinho por Isa era o carinho por uma menina que eu poderia querer cuidar por oitenta meses e por muito mais do que duzentos e quarenta dias.

Desde que voltei a escrever crônicas eróticas, foi a mulher que mais permiti que visitasse a minha Fortaleza da Solidão na bucólica Tijuca. Foi a única que brincou com a minha cachorrinha e se apegou a ela. Lembro-me de um fim de tarde em que fomos para o meu escritório, confidenciamos e escutamos juntos as nossas músicas favoritas. Como esquecer?

Eu a chamo de menina porque havia nela uma face pueril, um ciúme fútil e dissimulado, uma vontade de se conectar que, ao mesmo tempo, era malograda pela necessidade imperiosa de se proteger, de se resguardar e de desconfiar. 

A ilha de Isa era um castelo quase inexpugnável. Muitos sabiam da história pessoal que ela compartilhava, mas pouquíssimos foram os que souberam de fato onde encarnavam as raízes dos seus verdadeiros amores.

Era doce, era feroz, era infinitamente atenciosa e aplacava a própria carência se apoiando em quem escolhia como referência na sua rotina de trabalho. Não sei se era somente para mim que ela telefonava todos os dias, se era só a mim que ela convocava para as tardes inesquecíveis ao seu lado e em sua pequena caverna. Preferi me convencer de que eu possuía esse privilégio, que eram somente meus esses gestos tão imensuráveis de atenção.

Estar com Isa por tanto tempo significava velejar por um lago sereno, sob um céu azul imaculado, ou naufragar nas ondas de um mar furioso e devastador. Tudo era intenso. A alegria por estar em sua companhia foi afogada, em muitas ocasiões, pelas marés da inconstância do seu temperamento. Felizmente, nunca nenhuma turbulência foi capaz de sufocar a minha perseverança.

A única frustração intelectual que senti ao seu lado ocorreu quando anunciei o relançamento de um dos meus livros e ela não exibiu qualquer interesse pela parceria para me ajudar. Porém, isso não a fez pior para mim. Nada era imperdoável.

Nas últimas semanas antes das suas férias, pressenti pela primeira vez que estávamos nos harmonizando, no afeto e na intimidade. As névoas pareciam se dissipar. Ela ria mais ao meu lado, cismava menos, demonstrava confiança e o desejo de criar um elo. Ou, quem sabe, nada disso aconteceu e eu é que me entreguei aos delírios da ansiedade. Seja como for, sou um otimista e sempre creio no melhor da vida.

Até o último dia em que trabalhou, nos falamos diariamente. Na última semana antes da licença, não consegui visitá-la. Não me aborreci por isso, a dedicação ao trabalho proporcionaria a ela um descanso merecido e sem preocupações. Assim pensei.

Logo nos primeiros dias das férias, Isa silenciou. Minhas manhãs não se iluminaram mais pela sua voz; minhas tardes deixaram de ser temperadas pelo pão-francês, café e frios em sua companhia; meus sonhos se esvaziaram sem as mensagens de boa noite. Tudo cessou. Sem nenhuma explicação, nenhum retorno. Simplesmente desapareceu, como uma estranha que não me reconhecia.

Por que não confessar que sou um velho sentimental? Eu sou. A falta de qualquer sinal de Isa me entristeceu, me ressentiu. Não me desapontei apenas por ter o orgulho ferido ao concluir que fui um mero objeto descartável, lamentei por toda a idealização e deferência pelas quais eu a enxergava.

Isa foi uma das raras mulheres que desejei admirar, é difícil entender o porquê de ela ter preferido se revelar como miragem no último capítulo. Restou-me retornar à aridez da promiscuidade.

Tudo o que era sólido se desmancha no ar, tudo o que era sagrado é profanado — escreveu Marx.

O propósito deste relato, para ser considerado um relato, está em contar que nas últimas semanas, antes do desolador sumiço. Eu e Isa nos conectamos. Se não foi real, não nego que acreditei que fosse. Estávamos próximos, arrisco-me a dizer que estávamos felizes por finalmente dividirmos emoções em comum. Pela primeira vez, em oito meses, ela me presenteou com dois livros comprados em uma visita que fizemos juntos a Biblioteca Nacional.

Como somos duas criaturas que encontram prazer na luxúria, fomos mais do que nunca uma dupla nas brincadeiras libertinas. Mergulhamos nas provocações eróticas. Foi divertido para mim e creio que para ela também.

Nossa fronteira eram os limites da sua sala. As restrições que cercavam Isa se mostravam intransponíveis, tanto pelas dificuldades burocráticas como pela aparente falta de vontade dela em se libertar. As barreiras, no entanto, nunca me impediram de continuar cultivando a ternura.

Como eu disse, sou um velho sentimental. Diante do maremoto do desgosto, sempre escolho guardar as melhores lembranças: o sorriso que me iluminava, o olhar delicado que me observava.

Quem sabe, na minha ingenuidade, eu ainda não esteja esperando para descobrir que entendi tudo errado, que tudo foi real, que nada é miragem. A porta pode se fechar, mas mantenho as janelas abertas para permitir que entre alguma aragem capaz de me consolar.

Que me julguem como ridículo, mas os maiores orgasmos que experimentei na vida derramaram-se do coração.

Se eu não sinto falta dela? Ainda sou um homem que não perdeu a sensibilidade, sinto falta do hábito que tínhamos de conversar, de nos vermos de vez em quando. O que ficou agora é aquele vazio de quem acreditava no outro e o tempo vai mostrando que o sentimento era unilateral. É provável que tudo fosse uma mentira erguida por Isa, um momento de diversão para preencher o tédio entre um programa e outro, a pequena tragédia estava na minha crença de que era real.

Não tem problema, eu transformo decepções em arte. Que se destaque neste texto o valor irrevogável que dou ao afeto e aos que se tornam próximos de quem eu sou. Que a memória seja infinita enquanto dure…